Edição: domingo, 16 de agosto de 2026

Sabor em cena

Marcelus Fassano

Sabor em cena


A caneta que emagrece a conta dos restaurantes

Cada vez mais a gente vê pessoas usando medicamentos para emagrecer. Mounjaro, Ozempic, Wegovy e outros nomes passaram a fazer parte das conversas, das redes sociais e começam também a aparecer à mesa. As pessoas estão comendo menos, dividindo mais os pratos e mudando alguns hábitos.

E comecei a pensar em como isso pode impactar os restaurantes.

Quem trabalha com menu degustação de quatro, cinco ou seis etapas, por exemplo. Como fica essa experiência para uma pessoa que usa esses medicamentos e passa a comer menos, dividir o prato principal, deixar a sobremesa de lado ou até beber menos vinho?

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Fui pesquisar para entender se essa impressão que a gente começa a ter no dia a dia já aparece nos números.

E aparece.

Uma pesquisa da Abrasel mostrou que 61% dos bares e restaurantes brasileiros já perceberam mudanças no consumo relacionadas ao uso de medicamentos para emagrecimento.

Mas o interessante é entender o que está por trás desse número. Os restaurantes estão percebendo clientes procurando porções menores, dividindo mais os pratos principais, deixando a sobremesa de lado e reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas.

São pequenas mudanças que, quando acontecem juntas, alteram bastante uma ida ao restaurante.

Pense em uma mesa de quatro pessoas. Antes, poderiam ser duas entradas para compartilhar, quatro pratos principais, duas garrafas de vinho e duas sobremesas. Agora, essa mesma mesa pode pedir uma entrada, dividir dois ou três pratos, beber menos e nem chegar à sobremesa.

O cliente continua ali. A mesa continua ocupada. O garçom continua atendendo, a cozinha funcionando e toda a estrutura do restaurante continua exatamente a mesma. Só que a conta pode ficar menor.

E isso já começa a aparecer nos resultados. Quatro em cada dez restaurantes ouvidos pela Abrasel disseram que ainda não conseguiram compensar a redução do consumo por cliente.

Quando comecei a olhar esses dados, pensei imediatamente na experiência completa de um restaurante.

Durante muito tempo fomos acostumados a sentar, pedir uma entrada, escolher o prato principal, tomar vinho e terminar com uma sobremesa. Nos restaurantes de alta gastronomia, essa experiência pode ser maior, com menus de quatro, cinco ou seis etapas, muitas vezes acompanhados de uma harmonização.

Como fica esse modelo diante de um cliente que talvez continue querendo sair para jantar, encontrar os amigos e conhecer bons restaurantes, mas que simplesmente não consegue ou não quer comer a mesma quantidade?

E não parece ser um comportamento passageiro. Só no primeiro semestre de 2026, as vendas de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida cresceram 23,2% no Brasil em relação ao mesmo período do ano passado.

É muita gente mudando a relação com a comida em pouco tempo.

Talvez seja a hora de os restaurantes começarem a olhar para o tamanho das porções, para os menus degustação, para a possibilidade de dividir pratos e até para a maneira como algumas experiências são montadas.

Não porque as pessoas perderam o interesse em comer bem.

Elas podem simplesmente estar querendo comer menos.

Edição: domingo, 16 de agosto de 2026

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