Marcelus Fassano
Houve um tempo em que um convite para almoçar ou jantar na casa de amigos quase sempre vinha acompanhado de uma pergunta:
“O que eu levo?”
Era comum cada um chegar com um prato. Em outras casas havia aquela cozinheira que conhecia a família inteira e preparava o almoço de domingo quase sem precisar perguntar nada. E, claro, havia sempre alguém disposto a assumir a churrasqueira.
Receber em casa tinha esse jeito mais simples, espontâneo e familiar.
Mas alguma coisa mudou.
As pessoas continuam abrindo suas casas para os amigos, só que a gastronomia ganhou um peso muito maior nesses encontros.
Hoje é cada vez mais comum chegar à casa de alguém e encontrar um chef preparando o almoço ou o jantar. Não apenas um prato principal, mas entradas, diferentes serviços, sobremesas e vinhos pensados para acompanhar cada momento.
E tem uma diferença importante nisso tudo: muitas vezes quem está recebendo não fica simplesmente sentado esperando o prato chegar.
Vai para a cozinha também.
Não porque precisa ajudar, mas porque quer estar ali.
O jantar deixa de ser apenas:
“Venha comer na minha casa.”
E passa a ser:
“Venha viver uma experiência comigo na minha casa.”
Outro dia uma grande amiga nossa, Gel Alvarez, recebeu para um almoço exatamente assim. Minha mulher, Isabela, estava entre as convidadas e voltou encantada. Gel foi para a cozinha com o chef, havia outro profissional cuidando dos doces e o que seria apenas um encontro dentro de casa acabou ganhando dimensão de evento.
E isso está acontecendo cada vez mais.
A experiência gastronômica que durante muito tempo procurávamos quase exclusivamente nos restaurantes passou também para dentro das casas.
E não foi só a maneira de receber que mudou.
As próprias casas mudaram.
As cozinhas foram abertas, ganharam ilhas, bancadas enormes, adegas, churrasqueiras, fornos, equipamentos profissionais. Em muitos projetos, a gastronomia já não ocupa apenas um cômodo. Ela participa da concepção da casa inteira.
Recentemente participei, inclusive, do desenvolvimento de algumas dessas ideias junto com a Viverde, que vem trabalhando com casas personalizadas e temáticas.
E quando começamos a discutir esses projetos, uma coisa ficou muito clara para mim: não se tratava apenas de projetar uma cozinha bonita.
Era preciso pensar na maneira como aquela pessoa vive.
Se gosta de cozinhar, de vinho, de receber vinte pessoas em volta de uma bancada, de fazer churrasco, de preparar uma massa ou simplesmente de reunir os amigos durante horas em torno da comida, tudo isso passa a fazer parte da arquitetura.
A casa começa a contar um pouco da história de quem mora ali.
Talvez seja por isso que esses encontros tenham se tornado tão interessantes.
Em um restaurante, por melhor que seja, somos convidados daquele restaurante.
Dentro de casa, somos convidados de alguém.
Tem a música que aquela pessoa escolheu, o vinho que tirou da própria adega, o prato que resolveu preparar junto com o chef, os amigos que decidiu colocar naquela mesa e uma noite que não precisa obedecer ao tempo de serviço de ninguém.
E isso tem valor.
Não acho que as pessoas estejam deixando de ir aos restaurantes. Muito pelo contrário.
Talvez estejam levando para casa justamente aquilo que aprenderam frequentando bons restaurantes.
Comeram melhor, beberam melhor, conheceram ingredientes, viajaram, descobriram chefs, começaram a entender mais de vinho e passaram a querer reproduzir um pouco desse universo dentro de casa.
Só que com uma diferença difícil de encontrar fora dela:
a mesa é sua, a cozinha é sua e os convidados também.
No fim, receber bem voltou a ser um acontecimento.
Só que agora com chef, vinho, menu, projeto de casa pensado para isso e, muitas vezes, o próprio anfitrião no meio da cozinha.
Mudou bastante desde o tempo do “cada um leva um prato”.
E você? Ainda convida para jantar ou já convida para viver uma experiência?
Marcelus Fassano.
Veja também: