Edição: sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Vida Patriótica

COLUNISTA

Vida Patriótica
Foto: Divulgação
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ANIVERSARIANTES AMIRP Dia 16 - Enir Therezinha Muniz de Oliveira; dia 18 - Ana Paula Barbosa Clemente, Cirene Simas Huguenim, Érica Pacheco de Oliveira, Paula Vieira Miranda; dia 19 - Terezinha de Fátima Lobo; dia 20 - Elza Rodrigues da Motta Oliveira. A Coluna Vida Militar e a AMIRP parabenizam a todos desejando saúde e felicidades.

FARINHA DE SURUÍ  X  VACINA PARA SARAMPO (Fonte: “Formalidades, Pero no Mucho”, Dr. Amaro Luiz Alves, 3 de março de 2025) - A primeira metade da década de 1980 seguia com muita intensidade de trabalho na Secretaria Nacional de Ações Básicas de Saúde, a SNABS/MS. Os Dias Nacionais de Vacinação contra a Poliomielite magnetizavam as atenções de toda a sociedade brasileira, por tudo que essa iniciativa representava em termos de pioneirismo em âmbito mundial e pelos danos que a epidemia causava na população. No entanto, essa não era a única frente de trabalho de que a reduzida equipe técnica tinha que dar conta. Havia, entre outros, o programa de autossuficiência em imunobiológicos dando seus primeiros passos e a tecnologia de produção da vacina contra o sarampo estava em fase de negociação com o Japão. A JICA (Japan International Cooperation Agency) representava o lado japonês e a SNABS, o lado brasileiro, em parceria com a Fiocruz.

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Certo dia, fui chamado pelo Dr. Risi (secretário nacional de Ações Básicas de Saúde) para uma conversa sobre uma missão que ele pretendia me passar. - “Amaro, disse Dr. Risi, preciso da sua participação no jantar que será oferecido à missão japonesa que vem discutir a transferência da tecnologia de produção da vacina contra o sarampo”. -“Mas, Risi, isso não é missão para mim”, retruquei. “Não sei nada sobre produção de vacina, não falo japonês e minha fluência no inglês é de irritar qualquer interlocutor”. Com a tranquilidade de sempre Dr. Risi explicou: -“Não tem problema. Trata-se um jantar formal inserido na cooperação técnica, onde sentam-se, lado a lado, contrapartes da mesma área. Eu escalei você para conversar com o diretor financeiro da JICA, tendo em vista seus conhecimentos de finanças públicas e pelo fato de você ser o diretor de planejamento da SNABS.” Respondi, então, com a veemência de quem quer dispensa da missão. -“Tudo bem. Converso com ele no meu inglês irritante ou no japonês reduzido aos nomes de uns golpes de judô e juijitsu? Mais calmo ainda Dr. Risi explicou que o diretor financeiro sabia falar português fluentemente, o que tornava irrecusável a missão que se delineava. Disse também que não sabia onde o influente japonês aprendera a falar português, mas que desvendar esse mistério seria um bom começo para a conversa entre as contrapartes no jantar. O jantar ocorreu no Hotel das Nações, sob a coordenação do Itamaraty, que cuidou da todos os detalhes, como cardápio, lugares à mesa e demais formalidades, sob os olhares atentos de um diplomata escalado para acompanhar o evento. Creio que havia cerca de quinze pessoas à mesa, entre representantes da SNABS, da Fiocruz e da JICA. Logo nos primeiros minutos de conversa fiquei sabendo que a fluência no português do diretor era devida ao seu nascimento no Pará, numa fazenda de produção de pimenta do reino. Jovem ainda, mudou-se para o Japão, onde concluiu os estudos e foi trabalhar na JICA. A partir daí a conversa fluiu bastante e pudemos trocar informações sobre orçamento e finanças nas empresas e nos governos, quando tive oportunidade de saber que o orçamento da JICA era muitas vezes maior que os orçamentos do CNPQ, da FINEP, da ABC, juntos. Quando foi servido o prato principal, um suculento “steak diane”, o diretor (não lembro mais do nome dele) pediu farinha. Chamei o garçon e fiz o pedido, mas ele foi perguntar ao diplomata e voltou com a seguinte resposta: “O Itamaraty, por contrato, proíbe qualquer alteração no cardápio, de modo a evitar problemas gástricos com os convidados”. O japonês ouviu tudo e comentou comigo em voz baixa, mas cheia de lamento: - “Que pena. Cresci na fazenda comendo farinha suruí em todas as refeições e sonhei com a possibilidade de matar essa saudade.” Achei muita formalidade do diplomata que mandou recado pelo garçom e nem teve a gentileza de vir falar conosco. Pedi licença para ir ao banheiro, passei na cozinha e embrulhei uns 200 gramas de farinha no guardanapo de pano. Para completar, ainda ajudei o diretor financeiro a manejar a preciosa iguaria que, naquele momento, fazia o internacional “steak diane” passar por coadjuvante. A partir daí, finanças e formalidades deram lugar a conversas descontraídas sobre temas mais prazerosos, acrescentado risos e tons mais elevados nos diálogos, agora entre um carioca e um paraense. Isso provocou olhares curiosos vindos da cabeceira da mesa do jantar, onde estavam os “senseis” Risi, Akira e o Dr. Fukai, este, na condição de lendário detentor dos poderes de coordenador da JICA e detentor da patente da tecnologia Biken Cam70, da Fundação Biken, de Osaka. O outro extremo da mesa apresentava gestual e palavreado diferentes da cabeceira das autoridades, sem perder a sobriedade mínima dos ancestrais samurais, até que o diretor japonês me perguntou se eu sabia falar alguma coisa em japonês. - “Eu sei falar os nomes de alguns golpes de “juijitsu” e judô, pois treinei essas artes marciais por vários anos. Minha especialidade era o “uchi mata sukashi”, vantagem dos que têm pernas compridas. Além deste, “seoi nage”, “harai goshi” e outros. No linguajar cotidiano só sei falar “It kilo tomato kudasai” que aprendi com a senhora japonesa que tinha uma banca de verduras e legumes na feira de Jacarepaguá no Rio de Janeiro.” O diretor financeiro ria da pronúncia de cada palavra que eu tentava falar em japonês e repassava para os mais próximos que também riam. - “Na nossa comitiva tem um cientista que pratica judô e não pode ficar muito tempo sem treinar, pois ele acha que fica enferrujado. Ele está interessado em conseguir um lugar para treinar. Você poderia treinar com ele?” Falei com meus botões: “Se o cientista lutador fica enferrujado em uma semana, imagino a quantidade de ferrugem que acumulei nos 10 anos que fiquei sem treinar. Mas, se ele tiver graduação baixa, uma faixinha verde, por exemplo, posso derrubá-lo com meus infalíveis “uchi mata”. Restará apenas achar uma academia em Brasília, desembrulhar meu judogi, desenrolar minha faixa preta e vencer o japonês, antes que a ferrugem me vença primeiro”.-“ Tudo bem, meu amigo comedor de farinha, gostaria de saber qual a faixa do seu colega cientista.” O diretor financeiro rapidamente foi até o seu colega lutador e falou alguma coisa que devia incluir minha indagação sobre a faixa dele. Cochicharam, pois estavam bem perto do Dr. Fukai. Meu amigo nipo-paraense voltou com a informação de que o cientista lutador era faixa-preta quinto dan de judô.  Só de saber da qualificação desse possível adversário minhas ferrugens começaram a doer e minha sensação de impotência me aconselhou a achar uma saída honrosa para o W.O. (que é quando um dos lutadores não comparece à luta). Percebi que seria possível fazer um comunicado em tom jocoso para declarar minha impossibilidade de ajudar o cientista lutador no seu “leve” exercício antiferrugem. - “Por favor, diga a seu colega que eu aceito subir no tatame contra ele, nas seguintes condições: combate livre, eu podendo levar dois revólveres calibre 38 municiados e engatilhados. Fala bem baixinho, pois é uma brincadeira.” O diretor financeiro cochichou o meu recado, mas o lutador não se conteve e soltou uma gargalhada, quebrando a liturgia da cabeceira da mesa do jantar. O Dr. Fukai quis saber do que se tratava e também não se conteve. As risadas contaminaram a todos e permaneceram até o cafezinho final. Na saída, o representante do Itamaraty me disse que tinha que cumprir as regras, mas ficou feliz quando me viu saindo da cozinha com a farinha. O diretor financeiro me mandou uma carta agradecendo pela farinha e contando que foi elogiado pela criação do clima descontraído do jantar. A Fiocruz, depois de várias etapas, concluiu com êxito a recepção da tecnologia e produziu a vacina contra o sarampo durante vários anos. E eu continuo acumulando ferrugem.

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“Há pessoas que passam na nossa vida e deixam marcas. Outras passam e deixam meias usadas e brincos.”

(Genghis Khan)

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