Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Ganhar cerca de R$ 5 mil mensais já pode colocar um brasileiro entre os 10% com maior renda do país. O dado, divulgado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), surpreende muita gente, principalmente diante do alto custo de vida enfrentado em diversas cidades brasileiras, incluindo Petrópolis.
Segundo o levantamento publicado pelo g1 com base nos dados do IBGE, o rendimento médio mensal por pessoa nos domicílios brasileiros chegou a R$ 2.264 em 2025. Já a renda média individual, considerando todas as fontes, atingiu R$ 3.367, o maior valor da série histórica.
Apesar disso, a desigualdade segue marcante no país. Os números mostram que os 10% mais ricos concentram 40,3% de toda a renda nacional, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 1,2%.
De acordo com o economista Natale Papa, doutor em Administração, a percepção popular sobre “ser rico” muitas vezes não acompanha a realidade estatística brasileira.
“Os dados do IBGE mostram uma realidade muito diferente da percepção que muitas pessoas têm sobre renda no Brasil. Isso acontece porque o país possui uma desigualdade muito elevada. Como a renda média da maior parte da população é relativamente baixa, ganhar cerca de R$ 5 mil por mês já coloca uma pessoa entre os maiores rendimentos do país. Ao mesmo tempo, existe uma sensação de que essa renda não representa ‘riqueza’, principalmente por causa do alto custo de vida, da inflação e da comparação com padrões de consumo vistos nas redes sociais e grandes centros urbanos”, explicou.
A pesquisa também mostra que metade dos brasileiros vivia, em 2025, com menos de R$ 1.311 mensais por pessoa, valor conhecido como mediana da renda. O indicador ajuda a demonstrar como os ganhos mais altos acabam puxando a média nacional para cima.
Na base da pirâmide social, os 5% mais pobres tinham renda média de apenas R$ 166 por pessoa. Já entre os brasileiros que integram o grupo do 1% mais rico, o rendimento médio mensal chegou a R$ 24.973.
Custo de vida influencia percepção de renda
Embora os números coloquem um trabalhador com salário em torno de R$ 5 mil dentro da faixa dos 10% mais ricos do país, especialistas destacam que isso não significa, necessariamente, uma vida de alto padrão.
Em cidades como Petrópolis, onde despesas com aluguel, alimentação, saúde e transporte podem ser elevadas, a renda considerada “alta” nas estatísticas muitas vezes não garante conforto financeiro.
“Em cidades como Petrópolis, especialmente em áreas centrais e turísticas, uma renda nessa faixa permite um padrão de vida mais estável, mas ainda está distante de um nível de alto poder aquisitivo. Dependendo do perfil familiar, gastos com moradia, alimentação, transporte, saúde e educação podem consumir grande parte da renda. Ou seja, estatisticamente a pessoa pode estar entre os maiores rendimentos do país, mas na prática ainda enfrenta limitações financeiras relevantes no dia a dia”, afirmou Natale Papa.
Os dados do IBGE mostram ainda que o rendimento médio dos trabalhadores ocupados no Brasil foi de R$ 3.560 em 2025, valor próximo ao rendimento médio registrado entre os 10% mais ricos da população.
Isso significa que parte desse grupo é formada por trabalhadores assalariados e não apenas por empresários ou pessoas que vivem de patrimônio e investimentos.
Outro ponto destacado pela pesquisa é que o avanço da renda não ocorreu de maneira uniforme. Pessoas brancas seguem recebendo valores significativamente maiores do que pretos e pardos, enquanto trabalhadores com ensino superior completo possuem rendimento médio mais de quatro vezes maior do que aqueles sem instrução formal.
Desigualdade segue como desafio
Mesmo com os recordes de renda registrados nos últimos anos, o Brasil continua figurando entre os países mais desiguais do mundo.
O levantamento aponta que os 10% mais ricos receberam, em média, 13,8 vezes mais do que os 40% com menores rendimentos em 2025. Embora o índice ainda esteja abaixo do período pré-pandemia, houve aumento da desigualdade em relação a 2024.
Para Natale Papa, o crescimento econômico, sozinho, não resolve os problemas estruturais do país.
“Mesmo com recordes de renda, o Brasil continua sendo um país extremamente desigual porque o crescimento da renda não acontece de forma equilibrada. Uma parcela pequena da população concentra grande parte da riqueza, enquanto milhões de brasileiros ainda possuem renda muito baixa. Esses números mostram que o desafio do país não é apenas crescer economicamente, mas também melhorar distribuição de renda, produtividade, educação e geração de empregos de maior qualidade”, concluiu.
Veja também: