- Mauro Peralta é médico e ex-vereador
No último domingo fui convidado pelo meu amigo Wasin Wafar e seus filhos a participar da 32ª convenção anual da comunidade Ahmadia do Islã no Brasil. O evento, intitulado Jalsa Salana, teve como tema “Conforto no coração” e foi realizado na Mesquita Baitul Awal, situada em belo terreno no início da Estrada da Saudade.
Em um ambiente propício à união e à reflexão, assisti a palestras proferidas por representantes de diversas tradições religiosas, como Islã, doutrina espírita, judaísmo, Igreja Batista, Umbanda, Hare Krishna, religiões de matriz africana, além da capelania da Polícia Militar e de outras autoridades, como a secretária de educação de Petrópolis. Antes da apresentação do frei Volney, da Igreja Católica, à qual pertenço, fui inesperadamente convidado a dirigir algumas palavras ao público, mais por consideração ao recente falecimento de minha esposa do que por qualquer mérito pessoal.
Confesso que levei um susto. Meu coração, ironicamente, experimentou o oposto do tema proposto. A descarga de adrenalina e cortisol provocada pela surpresa trouxe palpitações e desconforto. Como médico, pensei de forma pragmática em abordar medidas preventivas, como controle da pressão arterial, redução de peso, alimentação saudável, diminuição do consumo de sal e gorduras, abandono do tabagismo e do álcool, prática regular de exercícios, combate ao estresse e realização de check-ups periódicos.
No entanto, ao subir ao púlpito e cumprimentar aquela plateia tão diversa e atenta, percebi que isso, embora importante, era insuficiente para realmente confortar o coração humano.
Enxugando as lágrimas ainda recentes da dor da perda e amparado pela fé, mudei minha abordagem. Há algo mais profundo que sustenta o coração. A caridade, por exemplo. Como ensinou São Francisco de Assis, é dando que se recebe e é perdoando que se é perdoado. O ato de ajudar o próximo, de exercer a compaixão e a misericórdia, não apenas eleva o espírito, como também produz efeitos concretos em nosso organismo, liberando substâncias como ocitocina, dopamina, serotonina e endorfinas, verdadeiros bálsamos para o coração.
Vivemos em um mundo onde, a cada 40 segundos, uma vida se perde pelo suicídio, especialmente entre jovens. Trata-se de um cenário marcado por guerras, muitas vezes motivadas por interesses econômicos, como o controle de recursos energéticos, além de ansiedade, medo, violência, revolta e desejo de vingança cada vez mais presentes. Diante disso, torna-se inevitável a reflexão de que está faltando Deus.
Deus é amor. Todas as religiões, em sua essência, apontam para a caridade, para o bem e para o cuidado com o próximo. Em vez de nos entregarmos à reclamação, ao desânimo ou à blasfêmia, devemos assumir nossa responsabilidade individual com otimismo e fé.
A verdadeira religião precisa estar dentro de cada um de nós. Pouco importa se somos judeus, muçulmanos, cristãos ou seguidores de qualquer outra tradição que reverencie o Criador do Universo. O que importa é a prática do bem.
O conforto do coração não depende apenas de fatores físicos, mas sobretudo de nossas atitudes. Amar a Deus e fazer o bem sem olhar a quem continua sendo o caminho mais seguro para alcançar a verdadeira paz interior.
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