Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Uma sequência de ações da Polícia Federal reacendeu o debate sobre a segurança de crianças e adolescentes na internet, inclusive em Petrópolis. Na última terça-feira (7), um homem foi preso em flagrante na cidade durante a chamada Operação Tolerância Zero, após agentes encontrarem material ilegal envolvendo abuso sexual infantojuvenil em seus dispositivos. As informações foram divulgadas aqui no Diário de Petrópolis.
O caso local ocorre em meio a um cenário nacional de combate a esse tipo de crime. No dia 9 de abril, a Polícia Federal também realizou a Operação Guardião Digital IV, em João Pessoa (PB), com foco na repressão ao armazenamento de conteúdos ilícitos envolvendo menores. A ação foi publicada pela Agência Gov.
Nos dois casos, a PF reforçou que o termo mais adequado para esse tipo de crime é “abuso sexual de crianças e adolescentes”, por representar com maior precisão a gravidade das violações. A instituição também destacou a importância da prevenção, orientando responsáveis a monitorarem o uso da internet por jovens e manterem diálogo constante sobre segurança digital.
Impactos psicológicos são profundos e duradouros
Para entender as consequências desse tipo de violência, a reportagem ouviu a psicóloga Regina Nascimento Resende, formada pela Universidade Católica de Petrópolis, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Avaliação Psicológica, além de atuação em dependência química e formação em psicanálise pelo Instituto ESPE. Ela também é autora do livro Miudinha de Medo.
Segundo a especialista, os danos causados às vítimas vão muito além do momento do abuso.
“Os impactos psicológicos que podem atingir uma criança ou um adolescente vítima de abuso são devastadores. Ela pode desenvolver uma ansiedade extrema, que compromete o desenvolvimento emocional, cognitivo e até o desempenho escolar. Em muitos casos, surgem comportamentos como roer unhas, arrancar cabelos, automutilação e até doenças psicossomáticas”, explica.
A psicóloga alerta ainda que, com o tempo, esse quadro pode evoluir para depressão severa. “Essa depressão pode levar esse jovem até ao suicídio. As perspectivas são muito graves”, acrescenta.
Mudanças de comportamento são sinais de alerta
Outro ponto importante destacado por Regina são os sinais que pais e responsáveis devem observar no dia a dia. Mudanças bruscas de comportamento costumam ser o principal indicativo de que algo está errado.
“Se a criança passa a se isolar, não quer mais ir à escola, apresenta queda no rendimento ou começa a demonstrar agressividade, isso precisa ser investigado. Qualquer mudança no comportamento é um sinal de alerta”, afirma.
Ela também cita alterações como distúrbios alimentares, excesso de tempo no quarto e uso intenso da internet como fatores que merecem atenção.
Internet amplia riscos e exige supervisão constante
De acordo com a especialista, o ambiente digital potencializa a vulnerabilidade de crianças e adolescentes, principalmente quando não há acompanhamento adequado.
“A internet é como deixar uma criança sozinha na rua às duas da manhã. Muitos pais acreditam que, por estarem dentro de casa, os filhos estão seguros, mas não estão. Toda a violência do mundo externo está ali, na palma da mão”, alerta.
Regina reforça que o acesso deve ser sempre supervisionado. “Os pais precisam saber o que os filhos assistem, com quem conversam e quais grupos frequentam. Não existe segurança sem acompanhamento”, aconselha.
Diálogo é ferramenta essencial de prevenção
Além do controle, a construção de um ambiente familiar baseado no diálogo é apontada como um dos principais caminhos para prevenir situações de risco.
“O diálogo precisa ser aberto, seguro e acolhedor. A criança precisa sentir que pode contar tudo sem medo de punição. Quando o ambiente é muito rígido, ela aprende a esconder e a mentir”, explica.
A psicóloga destaca que o comportamento dos adultos também influencia diretamente. “Se os pais passam o tempo todo no celular, a criança aprende pelo exemplo. É preciso coerência,” acrescenta.
Diante dos casos recentes e do avanço dos crimes digitais, especialistas reforçam que a prevenção depende de uma atuação conjunta entre famílias, escolas e autoridades. Em Petrópolis, o alerta está dado: a proteção começa dentro de casa, com atenção, diálogo e acompanhamento constante.
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