Psicólogas apontam como mobilidade, infraestrutura, segurança e prevenção de tragédias interferem no bem-estar e na qualidade de vida dos moradores
Roberto Jones - especial para o Diário
A saúde mental de uma população não é construída apenas dentro de consultórios. A forma como as pessoas se deslocam pela cidade, o tempo gasto no trânsito, a qualidade do transporte público, o acesso ao lazer e até o medo provocado pelas chuvas e pelos riscos de deslizamentos também fazem parte da experiência cotidiana e podem interferir diretamente no bem-estar dos moradores.
A psicóloga Cristiane Cardoso explica que, em Petrópolis, onde essas questões fazem parte da realidade da população, esses fatores podem contribuir para o aumento do estresse, da ansiedade, da irritabilidade e do cansaço. "A qualidade da nossa saúde emocional também é construída através do ambiente que vivemos. Muitas vezes já saímos de casa preocupados com o tempo que vamos levar até chegar ao nosso destino. Isso reduz o tempo de descanso, de convivência familiar e de lazer, que são fatores importantes para a saúde mental", alerta.
A psicóloga e sócio-fundadora da Recriar Clínica de Terapias Integradas, Thaís Cardoso, também destaca a relação entre ambiente urbano e saúde mental. “As pessoas que residem em uma cidade com transporte público de baixa qualidade, trânsito intenso e principalmente longos deslocamentos podem, a longo prazo, desenvolver irritabilidade, ansiedade, insônia, esgotamento emocional e consequentemente uma piora na qualidade de vida, ocasionados por redução no tempo com a família, lazer e, principalmente, descanso”, afirma.
Rotinas imprevisíveis
Quando a rotina se torna imprevisível, ela pode se transformar em uma fonte constante de tensão. Para Cristiane, o cérebro lida melhor com algum grau de previsibilidade. “Quando não sabemos quanto tempo vamos levar para chegar ao nosso destino ou se vamos conseguir voltar para casa no horário previsto, permanecemos em constante estado de atenção. Essa imprevisibilidade pode aumentar o estresse e prejudicar a produtividade", afirma.
Thaís chama atenção ainda para o estado de antecipação provocado por essa rotina. “Imagina você viver em um estado de ‘preocupação constante’, sempre se organizando para vivenciar experiências que podem ‘dar errado’? Infelizmente, dentro dessa rotina disfuncional o indivíduo vive em um estado de antecipação constante e isso gera um sofrimento absurdo e consequências na vida pessoal e profissional”, pontua.
O medo que permanece mesmo sem uma tragédia
Thaís percebeu um aumento de relatos relacionados ao medo de eventos climáticos entre seus pacientes nos últimos anos. “É esperado que, em um local cercado por tantos acontecimentos climáticos, as pessoas desenvolvam uma sensação de alerta, mesmo que não tenham vivenciado diretamente uma tragédia. Tal sensação de ameaça pode ocasionar medo, preocupação excessiva consigo e com os familiares, e até ansiedade", declara.
Segundo Cristiane, esse medo pode provocar dificuldade para dormir, ansiedade e pensamentos recorrentes sobre a possibilidade de uma nova tragédia. "Em algumas pessoas esse estado de alerta pode se tornar muito intenso e interferir na rotina", acrescenta.
Nesse cenário, as psicólogas recomendam que os moradores procurem informações em fontes seguras e acompanhem os avisos dos órgãos competentes, evitando a desinformação, que pode ampliar a sensação de insegurança.
Infraestrutura também é promoção de saúde mental
Se os problemas urbanos podem contribuir para o sofrimento, melhorias na cidade também podem atuar na direção oposta. Transporte público mais eficiente, calçadas adequadas, iluminação, acessibilidade e espaços seguros de convivência não são apenas questões de infraestrutura, mas podem interferir diretamente na maneira como a população vive o cotidiano. “Com essas mudanças, passaríamos a ter mais autonomia e menos estresse no nosso dia a dia", defende Cristiane.
Thaís segue na mesma direção e afirma que uma cidade com infraestrutura adequada favorece o bem-estar e reduz o estresse. Para ela, o município também pode ampliar ações de prevenção. "A saúde mental não deve ser lembrada apenas quando existe uma patologia/crise, é preciso investir em prevenção e promoção em saúde; o município pode estar presente de diversas formas, tanto em melhorias urbanas, como no incentivo de espaços de convivência e atividades comunitárias (palestras, esportes e lazer), também seria válido a ampliação do acesso ao serviço de saúde mental (serviço clínico/ambulatorial de psiquiatria e psicologia)", elenca.
Cristiane completa: "é preciso investir em ações de promoção da saúde mental, fortalecendo a atenção básica, ampliando espaços de escuta e acolhimento psicológico, desenvolvendo ações comunitárias e trabalhando a prevenção. Saúde mental não deve ser lembrada somente quando a pessoa já está em sofrimento. Precisamos trabalhar também com prevenção e promoção de qualidade de vida".
Uma cidade emocionalmente mais saudável
Os efeitos de uma cidade mais organizada e previsível, segundo as psicólogas, não ficariam restritos ao bem-estar individual. “O impacto dessas melhorias vão além de uma projeção individual, se torna algo coletivo e influencia de forma positiva no aspecto social e econômico da cidade, afinal, quanto menor a energia para resolução de problemas e demandas, quanto menor o tempo de deslocamento, maior a disponibilidade para investir em lazer, cultura, e autocuidado. Pessoas mais saudáveis emocionalmente tendem a participar mais da comunidade”, explica Thaís.
Para Cristiane, essa relação chega diretamente ao desenvolvimento de Petrópolis. “Uma população menos estressada, com mais qualidade de vida e maior sensação de segurança tende a ter mais disposição para trabalhar, estudar e empreender".
A psicóloga resume que pensar o futuro da cidade também significa pensar em como seus moradores experimentam o cotidiano. “Investir em mobilidade, infraestrutura, prevenção de tragédias e saúde mental não é apenas um investimento no bem estar das pessoas. É também um investimento no desenvolvimento social e econômico de Petrópolis. Uma cidade saudável é aquela que não pensa apenas em onde as pessoas vão chegar, mas também em como elas vão chegar lá emocionalmente”, finaliza Cristiane.
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