Edição anterior (4116):
terça-feira, 16 de dezembro de 2025


Capa 4116

Davi conseguiu

- Ataualpa A. P. Filho

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Antes de tudo, quero lhe dizer que Davi foi o nome que escolhi para dar ao protagonista desta narrativa. Desejo relatar aqui o que presenciei, porque despertou, em mim, várias reflexões que considero importantes nesta caminhada a serviço do processo de aprendizagem que nos permite repensar as ações humanas na superação de obstáculos.

No meu ponto de vista, quando os ensinamentos partem de uma criança ganham uma riqueza maior pela espontaneidade, pela inocência, pela ludicidade que nos levam a enxergar a pureza de quem age sem dissimulações. Adotei um outro nome para me referir ao protagonista desta história em razão da liberdade que o anonimato nos proporciona.

Sinto-me fascinado pelas lições de vida colhidas no convívio com as crianças, porque sempre emergem do inesperado. Com frequência, somos surpreendidos por elas. O universo das fantasias infantis não tem limite.

Criança faz e desfaz em segundos. Para elas, o eterno é tão curto e tão efêmero como uma bolinha de sabão solta no ar.

O que presenciei no domingo (07/12) preencheu a minha semana nesta reta de final de ano em que as pautas precisam ser fechadas, listagem de notas precisam ser entregues às coordenadoras pedagógicas diante das expectativas das aprovações.

Apesar de tantos anos no magistério, ainda não consigo encarar as pautas como algo rotineiro. Não consigo finalizar um ano sem esta inquietação movida pelo questionamento sobre os critérios da avaliação da aprendizagem. Não consigo ficar restrito à questão do aferimento de conteúdo. O processo educacional é mais amplo. É necessário considerar a realidade dos educandos. Mas essa discussão, trarei em outro texto...

No referido domingo, participei de uma confraternização natalina com um grupo de amigos e amigas. Neste ano, a saudade esteve mais forte pela ausência física de dois entes muito queridos que partiram para a Casa do Pai. Criamos um vínculo de amizade fraterna que se tornou uma extensão familiar.

Já de início, por essa convivência familiar, digo-lhe que coloquei o Davi no colo em vários domingos, pois o conheço desde os seus primeiros meses de vida. Ele hoje já caminha para o quinto ano da sua existência com muitas superações.

Na celebração natalina citada, aproveitamos para fazer a comemoração dos aniversariantes do mês. Como de hábito, os parabéns comumente ocorrem em torno de um bolo. Dessa vez, não foi diferente. Quando há crianças em volta da mesa, elas dividem as atenções. Cantam juntos, assopram as velas. A atenção do Davi, naturalmente, estava sobre o bolo. Quando todos cantavam, ele enviou o dedo fura-bolo no glacê. As reações dos adultos foram vencidas. Ele foi mais rápido...

Depois do bolo partido, as fatias foram distribuídas por outra criança que se encarregou dessa missão. Todos comeram e davam-se por satisfeitos.  Mas um terço do bolo ficou sobre a mesa. Ali, sem ninguém por perto. Davi se aproximou, com o polegar e o indicador em forma de pinça, pegou a ameixa que estava na parte lateral, colocou-a na boca. E lentamente pegou a que estava em cima sem ser incomodado. Comeu-a tranquilamente. Simples assim: esperou o momento certo para agir. Depois pegou a sua aeronave, que havia aterrissado sobre o bolo em outro momento, e voltou a brincar com ela.

Eu o seguia com os olhos. Ele continuava em seu silêncio. Foi até ao fundo do quintal da casa. Não há muro, nem cerca, apenas uma pedra não drummondiana, pois não é caminho para nada. Consiste em um corte de um morro com mais de cinco metros de altura. Para subir nesse paredão só com equipamentos de alpinismo. Mas o Davi se aproximou dele: primeiro colocou o pé direito, buscando apoio, escorregou. Depois colocou o pé esquerdo, também escorregou. Fez várias tentativas, sem sucesso...

Tentou usar os dedos das mãos, buscando apoio para impulsionar o corpo. Também não obteve êxito. Isso levou, no mínimo, uns dez minutos. O tênis escorregava, as mãos não encontravam apoio. Mas ele não desistia...

Pensei: “ele vai cansar de tentar. Vai pegar o aviãozinho e voltar a brincar  com ele”.

Parou de frente para a pedra. Olhou, andou um pouco para o lado e tentou novamente. Conseguiu ficar alguns segundos com os pés, as mãos e o tronco colocados a ela. Com ar de vitória, falou para si mesmo:

Davi conseguiu! Davi conseguiu! Davi conseguiu!...

Ele percebeu que eu assistia ao seu desafio e repetiu:

Davi conseguiu!...

Vibrei com Davi. Não bati palmas. Apenas sorri...

Davi vai precisar dessa perseverança, dessa tenacidade, dessa persistência para enfrentar os obstáculos que o destino já colocou em sua vida. Mas com o apoio dos pais, dos avós, dos familiares, dos amigos, Davi vai vencer os golias dos espectros...

Davi, um herói...


Edição anterior (4116):
terça-feira, 16 de dezembro de 2025


Capa 4116

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral