Edição: domingo, 02 de agosto de 2026

De onde nasce o amanhã

- Mario Donato D’Angelo

Foto: Divulgação
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Lia um romance quando um personagem se deixou levar por uma lembrança. Fechei o livro por um instante. Não porque aquela cena me tivesse emocionado mais do que tantas outras, mas porque ela despertou uma ideia da neurociência que, desde a primeira vez que a encontrei, nunca mais me abandonou.

Hoje sabemos que o cérebro utiliza praticamente os mesmos circuitos para recordar o passado e imaginar o futuro.

Essa descoberta muda completamente a maneira de compreender a memória.

Durante muito tempo pensamos nela como um arquivo, um lugar onde ficariam guardados os acontecimentos da vida. A neurociência mostrou algo muito mais interessante. A memória não existe apenas para conservar o que passou. Ela fornece a matéria-prima com a qual o cérebro imagina aquilo que ainda não aconteceu.

Quando planejamos uma viagem, ensaiamos uma conversa, escolhemos um caminho diferente ou simplesmente imaginamos o dia de amanhã, não estamos criando a partir do vazio. O cérebro reúne fragmentos da experiência, aproxima lembranças, reorganiza acontecimentos e constrói possibilidades.

A imaginação não nasce apesar do passado.

Nasce por causa dele.

Pessoas com lesões em determinadas regiões do cérebro não apenas encontram dificuldade para recordar acontecimentos. Elas também perdem parte da capacidade de imaginar o futuro. Como desenhar um caminho quando desaparecem os elementos com que ele poderia ser construído.

A literatura percebeu isso muito antes dos laboratórios. Cada personagem que revive uma lembrança está, de algum modo, reconstruindo também o próprio amanhã. Recordar nunca foi copiar o passado. Cada lembrança é reconstruída. Ela recebe discretamente a influência do presente, das experiências acumuladas e das expectativas que temos em relação ao futuro.

O passado não permanece intacto dentro de nós.

Ele continua vivendo porque é continuamente recriado.

Essa é a razão de certas perdas nos atingirem de maneira tão profunda. Não apenas porque algo deixou de existir, mas porque, junto com essa ausência, desaparecem também inúmeros futuros que já habitávamos em silêncio.

Há perdas que retiram de nós muito mais do que uma presença.

Elas desmontam possibilidades.

Desfazem conversas que nunca acontecerão, reencontros que já imaginávamos, gestos ainda não vividos, dias que, sem perceber, já tinham encontrado um lugar dentro da nossa imaginação.

É curioso perceber que a memória realiza dois trabalhos ao mesmo tempo. Ela reconstrói aquilo que fomos e oferece ao futuro um lugar de onde partir. Sem passado, a imaginação perde seu alicerce. Sem imaginação, o passado deixa de apontar para qualquer direção.

Fechei o romance pensando que compreendemos a memória da maneira errada durante muito tempo. Ela nunca foi um museu destinado apenas a conservar o ontem.

Ela é um ateliê.

É ali que o cérebro recolhe os fragmentos da vida, aproxima experiências que pareciam distantes e, silenciosamente, começa a desenhar o amanhã.

Fechei o romance por alguns minutos. A memória me levou à neurociência. A neurociência me levou à filosofia. Quando percebi, estava muito longe da página que havia interrompido.

Abri o livro novamente.

Continuei a leitura

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