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  Artigo

Desafios e tendências do setor de saúde

 

Por: Rafael Gomes de Castro – Presidente da Unimed Petrópolis

A saúde, seja no seu aspecto técnico, social, histórico e humano, sofre constantes mudanças e evolui há milênios, desde os ensinamentos hipocráticos até as práticas dos antigos barbeiros, trazendo evolução ao cuidar humano, este que em primeiro momento sempre foi dos males do corpo quando a alma pertencia aos deuses, curandeiros e pajés, chegando hoje a uma universalidade e abrangência nunca antes encontrada na história da humanidade, onde corpo, mente e alma são tratadas com uma evolução tecnológica abrangente e próxima a perfeição, sendo exemplos a evolução das órteses/próteses e cirurgia robótica.

Há muito, também, a tecnologia vem tentando encurtar distâncias e universalizar de fato o atendimento, descentralizando práticas e atingindo lugares ermos, óbvio em consonância com a expansão e acessibilidade tecnológica de ponta. E talvez esta tenha sido a tônica do final do século 20 e início do século 21, quando a evolução e aplicação do conhecimento humano ganharam projeção geométrica, encurtando as típicas incorporações tecnológicas e de descobertas científicas da seara secular para inferior a uma década.

A saúde, a gestão dela e a incorporação tecnológica tem permitido avanços extraordinários e impensáveis. A autogestão pelo indivíduo através de vários dispositivos integrativos de avaliação de sua condição de saúde, muitos deles a um toque de distância, com monitoramento e resultado automático, sobre uma orientação adequada, salvam vidas e melhoram a condição de vida e seguimento do tratamento em curso. Mas apesar deste avanço descomunal, trazendo a baila um tema central como o acesso, temos uma sombra maior do que gostaríamos de acreditar e que por muitas vezes relutamos a enfrentar.

Tais tecnologias e avanços recentes ainda não se tornaram de acesso democrático, inclusivo, e aqui não falo somente para políticas públicas de saúde, mas também a capacidade de financiamento, ficando este cabedal a favor de uma Saúde Plena restrita a um grupamento reduzido de pessoas e da mesma forma de instituições. E o mais interessante, ainda que com impactos e cobertura distintas entre si, este não é um problema exclusivo do Brasil ou dos países menos desenvolvidos, sendo certo que quanto mais empobrecida a nação e quanto menor a capacidade de gerar mão de obra qualificada e cidadãos conscientes, maior será o abismo da acessibilidade.

Portanto, o século 21 se mostrava um foguete em alta velocidade para a Inteligência Artificial Aplicada, conectividade que se transforma em realidade geracional e a capacidade extrema de gerar dados e a partir dai, informação qualificada e precisa. Pois bem, há quase dois anos, um sistema de vida primitivo e invisível aos olhos mostrou que apesar disso tudo, a palavra que deve nortear e nos reinventar nesta escalada tecnológica e no futuro a ser construído a partir do século 21 é INTEGRAÇÃO.

 

Ainda que a origem da Pandemia de SARS COVID-19 careça de esclarecimentos, umas das teses envolve um dos 50 laboratórios no mundo com o nível mais alto de biossegurança. Não falta tecnologia e suporte, inclusive financeiro. Os sistemas de bloqueio e a realidade da mobilidade mundial humana nos mostrou que toda a tecnologia e conceitos epidemiológicos existentes e alicerçados em séculos de ciência não foram suficientes para evitar uma disseminação mundial. Porém, salvaguarda e reconhecimento seja feito, não repetimos a dramaticidade da mortalidade da Gripe Espanhola do começo do século passado. A política e os interesses econômicos nortearam a discussão das estratégias, a nível global, porém também nacional, trazendo o desconforto da desconfiança de que o bem maior que nos foi concedido, a vida, ficou em segundo plano.

Socialmente também percebemos isso, com o fenômeno tecnológico das notícias falsas (fake news), do potencial de disseminação de desinformação e influência das mídias sociais, ainda que aqui também caiba excelentes exemplos do contrário, da informação qualificada e conscientizadora praticada por muitos. Tecnologia? Tivemos e a produção em tempo recorde de vacinas foi uma prova de que a humanidade está mais preparada para enfrentar seus desafios globais e de sobrevivência, porém fomos confrontados com coisas básicas, seja por interesse escusos ou incapacidade operacional, não chegamos a tempo (visão evolutiva e comparativa com a tecnologia) até as pessoas.

Ainda temos milhões, quiçá bilhões de pessoas sem ter tomado uma dose sequer de imunizante, qualquer que seja a vacina. Um mundo tecnológico permite cada vez mais que a espécie humana se adapte, portanto, evolua e permaneça no topo da cadeia. Inteligência artificial aplicada, internet das coisas, dispositivos agregativos e substitutivos que permitem monitorar e até substituir “peças” do nosso corpo, a integração multissistêmica, o acesso (telemedicina) são fundamentais e devem não só existir como evoluir. Mas também deve coexistir. O pensamento humano e a insubstituibilidade das pessoas, do toque, das expressões faciais que nos fazem únicos no reino animal, da interação pessoal e social, são características insubstituíveis visto a evolução darwiniana pela qual chegamos até aqui.

Mas estando no setembro amarelo, movimento nacional sobre a saúde mental e prevenção ao suicídio, não poderia deixar de destacar que a mente e a alma precisam ser tratadas. Quantas das ineficiências por sobrecarga humana tivemos na não aplicação adequada do conhecimento, tecnológico ou não? Como está a nossa capacidade de interagir e fazer uma boa anamnese (história que o paciente conta sobre a sua vida, sua percepção de saúde e doença, seus hábitos, sobre as pistas que levam ao caminho do diagnóstico), quanto do olhar-sentir-avaliar estamos perdendo porque a vida ficou frenética apesar de todas as incorporações tecnológicas que deveriam nos entregar tranquilidade e solução? A pandemia nos fez refletir, frear, nos redescobrir, apesar de nos isolar. Primeiro nos descobrimos seres absolutamente sociais, visto que mesmo com toda a tecnologia da comunicação, a vida através das telas se mostrou limitada e com o tempo, sufocante. Ver o sol, o mar, o verde ou a chuva não eliminou a necessidade de sentir o calor, o molhado salgado, as cores de verdade e sem filtro, o cheiro de terra molhada.

Voltamos a ser família, escutar uns aos outros, perceber o quanto é bom sentar a mesa todos juntos e só conversar, tardes na varanda, um cochilo rejuvenescedor após o almoço. A Pandemia gerou a “legalidade” e a “legitimação" de sermos humanos, sermos nós mesmos. Percebemos, ou deveríamos, que tudo que evoluímos e construímos ao longo de milênios de existência foi para nos tornamos mais longevos com qualidade de vida e desfrutar de tudo o que ela traz para a gente.

Lembram da minha sugestão de palavra para nortear o século 21 a partir de agora?

INTEGRAÇÃO. O Santo Graal da humanidade é o equilíbrio, é somente integrando todos os avanços com o propósito maior de vida chegaremos a uma vida mais plena portanto saudável. Para aqueles que estão estranhando um artigo em que do título se espera uma dissertação sobre muito tecnicismo, convido a sairmos da teoria estéril para uma construção absoluta e sólida, além de integrativa. Despeço-me deixando a reflexão do conceito de saúde da OMS - Organização Mundial de Saúde, que data de 1946: “Saúde é a situação de um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade”.

 



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