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Desconstrução de imagens

Ataualpa A. P. Filho - professor

Foto: Pixabay
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“Ser alguém na vida”. Essa expressão, há décadas, é empregada com referência a uma carreira profissional exitosa que proporciona uma posição social de destaque, permitindo desfrutar de algum conforto. Há os que, pela vaidade, procuram ostentar os bens materiais adquiridos como indícios de sucesso e prestígio.

Outro termo bastante usado é “Zé Ninguém”, que fica na outra ponta do “ser alguém na vida”. Geralmente é empregado para designar pessoas sem poder aquisitivo, que não alcançaram destaques sociais. Vivem no anonimato, não desfrutam de nenhuma regalia das elites. A expressão “não tem onde cair morto” comumente é usada para tachar quem é considerado “Zé Ninguém”.

O “alguém” e o “ninguém” estão na base desta nossa reflexão. Por princípio, tendo ou não cadastro de pessoa física (CPF), todo vivente humano é alguém. E ninguém nasceu para morrer de fome.

Perante as leis vigentes no país, todos devem ser tratados igualmente sem distinção. Partindo dessa premissa, é possível evidenciar as desigualdades que emergem em uma sociedade, quando se constata que alguém recebeu um tratamento diferenciado em função da posição social que ocupa e/ou do poder aquisitivo que ostenta. E outros são tratados sem nenhuma deferência por não ocupar cargo de destaque. As cenas que revelam as discriminações são identificadas tanto no setor público, quanto privado. Diante desses fatos, questionam-se os valores que regem uma sociedade, tendo como base princípios éticos, morais e os direitos humanos.

Na quinta-feira passada (19/02), uma notícia rodou o mundo: a prisão de um ex-príncipe do Reino Unido sob suspeita de má conduta em cargo público e por envolvimento em crimes de abusos sexuais, orquestrados pelo financista Jeffrey Edwar Epstein (1953-2019). Pelo volume de provas já levantadas, tem-se a notícia de que esse financista estadunidense seria julgado no Estado em que morava por lenocínio, crime que se caracteriza por facilitar, induzir ou explorar a prostituição para obter ganhos financeiros e influências políticas. Em síntese, era um adepto do proxenetismo. E envolvia várias pessoas que se comportavam como estivessem acima do bem e do mal, em razão da fama, do poder aquisitivo e do tráfico de influência.

Ainda há milhões de arquivos que precisam ser analisados, por isso existe uma grande expectativa sobre o que estar por vir, uma vez que personalidades de diversos países estão comprometidas por atos criminosos.

O ex-príncipe não era um “Zé Ninguém”. Teve um berço nobre, teve a oportunidade de desfrutar de uma educação qualificada. Mas, ao conduzir a própria vida, trilhou por um caminho que o excluiu dos ares da nobreza.

No Brasil, estamos também diante de uma perplexidade, vendo o desdobramento do caso do Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central. O número de prisões já efetuadas, o número de pessoas envolvidas, tanto no âmbito econômico quanto político, apontam para um escândalo de grandes proporções que pode abalar o sistema financeiro do país. Estão sendo constatados crimes praticados por pessoas com alto padrão econômico e com destaques no meio social.

Qual o mérito da edificação de um patrimônio por meios ilícitos?...

Com tristeza, assistimos ao desmoronamento de personalidades que se apresentavam como defensores da ética, da moral, da exaltação da Pátria e da família. Estão sendo desvelados falsos perfis de hombridade que se ergueram sobre pilares que usurpam a boa fé do povo, explorando-a em benefício próprio.

A queda pela decepção pode provocar danos irreversíveis. Embora seja raro, ainda há quem valorize os princípios morais. É admirável ver alguém construindo uma trajetória de vida fundamentada na ética, na honestidade, no respeito ao outro, sem uso de meios ilícitos para ter um “lugar ao Sol”. É possível erguer-se sem puxar tapetes e sem esconder nada debaixo deles.

Nas diversas camadas da pirâmide social, há pessoas boas e pessoas com má índole. Sempre penso nessa “gente honesta, boa e comovida/ Que caminha para a morte pensando em vencer na vida”, citada na canção “Pequeno Perfil de um Cidadão Comum” de Belchior, porque essa “gente honesta, boa e comovida” acredita no amor sem medida, mas questiona a medida das coisas para ter a sua missão cumprida.

Tanto para a “Sua Excelência” como para o “Zé Ninguém”, a Justiça tem que ser exercida com o mesmo rigor.

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