Mercado de trabalho brasileiro registra 5,3% de desocupação e recorde de pessoas ocupadas; economista explica o que os números podem representar para Petrópolis
Jamis Gomes Jr. - estagiário
O mercado de trabalho brasileiro alcançou um dos melhores resultados desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, mas os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (27) mostram que a queda do desemprego não conta sozinha toda a história. Para o economista Natale Papa, o cenário é positivo, mas precisa ser analisado também sob a ótica da informalidade e da remuneração dos trabalhadores.
A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor índice registrado para esse período desde o início da Pnad Contínua, em 2012. Em comparação com o trimestre encerrado em abril, quando a taxa estava em 5,8%, houve redução de 0,5 ponto percentual. No mesmo período de 2025, o indicador era de 5,6%.
De acordo com dados do Caged, Petrópolis registrou 452 novos postos de trabalho em junho deste ano. Foram 2.695 admissões e 2.243 demissões. No ano, o município acumula 1.037 vínculos, 15.810 admissões e 14.773 desligamentos. O estoque atual é de 71.166 empregos formais.
Para Papa, o resultado demonstra que o mercado de trabalho permanece aquecido e que a economia continua absorvendo trabalhadores.
“A taxa de 5,3% mostra um mercado de trabalho bastante aquecido, com o desemprego em um dos menores níveis da série histórica. Isso indica que a economia continua gerando oportunidades e absorvendo trabalhadores. Ao mesmo tempo, é importante observar não apenas a quantidade de empregos, mas também sua qualidade, remuneração e grau de formalização.”
Mais brasileiros estão trabalhando
Outro recorde registrado pela pesquisa reforça a percepção de um mercado de trabalho fortalecido. O número de pessoas ocupadas chegou a 103,3 milhões, maior contingente já registrado pela Pnad Contínua.
O total de empregados com carteira assinada, excluindo trabalhadores domésticos, também atingiu o maior nível da série, com 39,4 milhões de pessoas.
Na avaliação do economista, o aumento da população ocupada é um indicativo importante, mas precisa ser observado em conjunto com outros indicadores.
“O recorde de ocupação é um sinal bastante claro de fortalecimento do mercado de trabalho. Mais pessoas estão trabalhando e a população ocupada atingiu um patamar histórico. Porém, esse aquecimento precisa ser analisado junto com a informalidade e os rendimentos para entendermos se estamos diante apenas de mais empregos ou também de empregos melhores.”
Queda do desemprego vem acompanhada de alta da informalidade
Apesar do avanço da ocupação, um dado chama atenção: a taxa de informalidade subiu de 37,2% para 37,5% no trimestre.
O número de trabalhadores sem carteira assinada chegou a 13,8 milhões, crescimento de 3,6% em relação ao trimestre anterior. Segundo os critérios do IBGE, entram nessa categoria trabalhadores sem carteira, além de autônomos e empregadores sem CNPJ.
A informalidade representa uma parcela significativa do mercado de trabalho e pode significar menor proteção para quem está trabalhando, já que esses profissionais não contam, da mesma forma, com direitos como férias, 13º salário e seguro-desemprego.
Para Natale Papa, o movimento merece atenção justamente porque mostra que parte das novas oportunidades está sendo criada fora do mercado formal.
“Isso mostra que a queda do desemprego não significa necessariamente que todas as novas oportunidades sejam formais. Parte da absorção de trabalhadores está ocorrendo pela informalidade. Não é necessariamente um sinal negativo isoladamente, mas merece atenção porque empregos informais normalmente oferecem menor proteção trabalhista, maior instabilidade e menor previsibilidade de renda.”
Rendimento médio recua
Outro ponto da pesquisa que merece acompanhamento é o rendimento médio real do trabalhador, que ficou em R$ 3.762, uma redução de 0,7% em relação ao trimestre encerrado em abril. O IBGE considera a variação estatisticamente estável.
O economista, entretanto, ressalta que uma redução pontual não significa necessariamente uma piora estrutural.
“É um ponto que merece acompanhamento, mas não necessariamente um sinal de deterioração. É importante olhar o dado em perspectiva: o rendimento pode oscilar no curto prazo conforme muda a composição dos trabalhadores ocupados. Se a renda permanecer pressionada enquanto a informalidade aumenta, aí teremos um sinal mais preocupante sobre a qualidade do crescimento do emprego.”
Efeito pode chegar a Petrópolis
Embora os dados da Pnad sejam nacionais, o desempenho do mercado de trabalho pode produzir efeitos em cidades como Petrópolis, principalmente por meio do consumo.
Segundo Papa, o aumento da quantidade de pessoas trabalhando e recebendo renda tende a movimentar setores diretamente ligados ao consumo das famílias.
“Petrópolis tende a sentir os efeitos positivos de um mercado de trabalho nacional mais forte, principalmente por meio do aumento do consumo das famílias. Mais pessoas empregadas e com renda significa maior circulação de dinheiro no comércio e nos serviços. O efeito, entretanto, dependerá também da dinâmica própria da economia do município.”
Na cidade, atividades como comércio, turismo, alimentação e prestação de serviços podem estar entre as áreas favorecidas caso o cenário de emprego e renda continue contribuindo para o aumento do consumo.
“Comércio e serviços tendem a ser os principais beneficiados, porque são atividades muito relacionadas ao consumo das famílias. Turismo, alimentação, hotelaria, transporte e serviços pessoais também podem ganhar força. A construção civil pode se beneficiar caso a melhora da renda e do emprego estimule investimentos e demanda por imóveis e reformas.”
Cenário positivo, mas sem garantia de continuidade
O número de pessoas desocupadas também apresentou queda. O contingente chegou a 5,8 milhões, 503 mil pessoas a menos que no trimestre anterior, uma redução de 8%.
A população desalentada, formada por pessoas que desistiram de procurar emprego por acreditar que não conseguiriam uma vaga, também recuou 9,7%, para 2,3 milhões.
Apesar dos números positivos, o economista pondera que o atual nível de desemprego não deve ser tratado como permanente. Juros elevados e uma eventual desaceleração econômica podem reduzir o ritmo de novas contratações.
“A tendência ainda é de um mercado de trabalho relativamente forte, mas existe espaço para alguma acomodação. Juros elevados e uma eventual desaceleração da economia podem reduzir o ritmo de contratação. Portanto, é possível que o desemprego continue baixo, mas dificilmente devemos interpretar os atuais 5,3% como um nível garantidamente permanente.”
O menor desemprego já registrado pela Pnad Contínua ocorreu no último trimestre de 2025, quando a taxa chegou a 5,1%. Na outra ponta, o maior índice foi de 14,9%, observado nos trimestres encerrados em setembro de 2020 e março de 2021, durante a pandemia de Covid-19.
Assim, o retrato atual é de um mercado de trabalho brasileiro em um momento favorável, com recordes de ocupação e desemprego em patamar historicamente baixo. Para entender a qualidade desse crescimento, porém, será necessário acompanhar nos próximos meses se a formalização e os rendimentos conseguem acompanhar o avanço do número de trabalhadores ocupados.
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