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Discurso de Posse na Academia Petropolitana de Poesia - Guilherme Lopes

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Por Guilherme Lopes

Professor, escritor e advogado


Cadeira nº 39

Ocupar esta tribuna não é apenas cumprir um rito institucional; é, para mim, parte de um ciclo poético e de um compromisso vital com a memória cultural de Petrópolis.

Gostaria de iniciar expressando minha mais profunda gratidão a Deus pelas oportunidades concedidas, em especial pela de ter nascido em uma família em que o amor sempre foi o alicerce. E, evocando a lembrança do precioso convívio que tive com poetas e amigos que forjaram o espírito desta cidade, é em nome deles que estendo meus mais sinceros e afetuosos cumprimentos a todos que me honram com a presença.

Minha narrativa nesta noite é cronológica, mas é também, e sobretudo, afetiva. Ela não começa comigo, mas com aqueles que abriram o caminho e que, de certa forma, ocupam esta cadeira comigo hoje.

Minha chegada à Cadeira nº 39 me coloca sob a égide de Vicente Amorim. Ao mergulhar em sua história, compreendo a responsabilidade que agora repousa sobre meus ombros. Amorim, nascido em Vitória, no Espírito Santo, em 1873, mas petropolitano por escolha e por alma, foi o que podemos chamar de um "jornalista nato". Sua trajetória na Secretaria da Presidência da República e sua atuação contínua em prol de Petrópolis revelam um homem de espírito público e de olhar cirúrgico.

Vicente Amorim escreveu crônicas que comoveram a nossa "Rainha das Serras". Ele entendia que a identidade de um povo se constrói no detalhe, no registro miúdo do cotidiano que o tempo implacável insiste em apagar. Em sua historiografia, ele nos alertava que, para conhecer a vida da antiga Petrópolis por meio de seus ancestrais, não deveríamos buscar apenas nas origens remotas de que nos falava Darwin, mas sim nos habitantes de carne e osso que construíram esta "Serra Acima”, a partir do decreto de Dom Pedro II.

Ocupar a cadeira de um homem chamado "o grande amigo de Petrópolis" é um convite para que minha poesia e minha produção intelectual também sirvam a esta cidade. Se Amorim usou a pena para informar, eu pretendo usá-la para perpetuar o lirismo que ainda respira entre estas montanhas.

Diz o protocolo que tenho um patrono oficial, a quem acabo de reverenciar. Mas peço licença para subverter levemente a rigidez acadêmica e declarar que, no coração, sou herdeiro de dois patronos. O segundo é meu avô materno, o professor e poeta José Hamilton Lopes, cujo patrono, aliás, era Arthur Barbosa, na Cadeira nº 9 desta mesma casa.

Minha vertente literária não nasceu em bibliotecas frias, mas no calor de um ambiente familiar profundamente artístico. Meu avô, também pianista, acordeonista e docente em cultura brasileira, influenciou de forma indelével minha trajetória como músico, compositor e escritor, além da de docente e cientista.

Estivemos juntos aqui, onde estamos neste momento, com razoável frequência. Ainda jovem, tive a oportunidade ímpar de conviver no ambiente dos poetas, graças à forte ligação do meu avô com a comunidade artística petropolitana. Foi observando esse convívio que aprendi o que era o antigo "Silogeu". Confesso que, no início, absorvi essa palavra em automatismo, mas logo ela se tornou, para mim, o sinônimo perfeito de um encontro fraternal diferente. Eram pessoas mais velhas do que eu, de estilos distintos, portadoras de ideias complexas e jocosas que me deixavam "encaficado" com as palavras difíceis. Até hoje me recordo de como eu ficava intrigado ao tentar decifrar os "faunos na pupila" de Raul de Leone.

É com profunda reverência que registro aqui meu respeito aos fundadores e pilares desta confraria, com os quais compartilhei momentos ora como atenta audiência, ora como ávido aluno. Refiro-me aos mestres Joaquim Eloy, André Heidman e Fernando Costa, cujas vozes, ensinamentos e posturas ainda ecoam como balizas na minha lembrança.

Nesse mesmo resgate de afetos, saúdo, in memoriam, as amizades que já partiram, mas deixaram marcas luminosas na história desta casa e na minha própria formação. Começo lembrando dos queridos Roberto Gulino, Ilka Canelas, Roberto Francisco, Fernando Py, Edith Marlene, Roger Ferraudi e Farid Felix. A saudade que sentimos deles é a prova inconteste da grandeza de suas passagens por este plano.

E, se o passado me traz essa saudade reverente, o presente me enche de alegria ao celebrar o convívio com os acadêmicos de hoje, que mantêm acesa a chama literária sob este teto. Saúdo, com muito entusiasmo e carinho, os amigos de longa data Luana Lacreca, Ataualpa Filho, Fernando Costa e Vera Bade. É uma honra sentar-me entre vocês.

Foi essa "verve" construída entre grandes nomes, atrelada ao olhar do meu avô que lia e comentava avidamente meus primeiros escritos de adolescente que me deu coragem para ser orador nas formaturas escolares, muito antes de ter a oportunidade de elaborar minutas de discursos para ministros de Estado. Eu sabia que, em casa, tinha o privilégio da atenção do melhor dos revisores.

A poesia e a música impulsionaram a minha sensibilidade artística. Nos anos 80 e, principalmente, a partir dos anos 90, no ambiente público, fui cantor em diferentes projetos musicais de nossa cidade. Em especial, guardo no coração os tempos no Coral dos Canarinhos, no Coral da Universidade Católica de Petrópolis e no Coral Municipal. Ali, a voz se fez instrumento coletivo.

No ambiente privado, entretanto, fui evoluindo em um "esboço de poeta", calibrando a pena e assistindo de perto à evolução de nossa cultura. Participei, com uma visão privilegiada, da transformação desta academia em "Brasileira" de Poesia em 2006. Vi a parte burocrática em movimento e aprendi que as instituições precisam de sonhadores, mas também de construtores.

Minhas primeiras experiências como escritor foram na poesia, em publicações como Argila e outras, nas quais as palavras publicadas brilhavam com emoção e ficção, em meio a desejos e sofrimentos oníricos. Eram o fruto direto da arte e brotavam ao sabor da topografia da vida.

Hoje, a vida me exige outras roupagens. Como se incentivam os professores universitários a que sejamos produtores de conhecimento, tenho outras produções literárias, mas científicas. Textos em chave direta, hermética, estreita e denotativa. Uma arquitetura muito diferente daquelas primeiras prosas e versos que me acompanham desde a juventude.

Contudo, a arte nunca nos abandona; ela apenas nos aguarda. Entrar nesta Academia Brasileira de Poesia hoje é, para mim, o reencontro do cientista com o sonhador. É o momento de honrar o legado do patrono Vicente Amorim, a saudade dos amigos que partiram, a força dos confrades presentes e, acima de tudo, o sorriso de incentivo do meu avô, José Hamilton Lopes.

Em cada verso que eu redigir ou defender nesta casa, haverá o rigor de quem estuda a palavra, mas, sobretudo, a alma de quem aprendeu a amar a poesia ouvindo histórias nas serras de Petrópolis. Agradeço aos meus confrades pela acolhida generosa. Agradeço à minha família, meu porto mais seguro. E agradeço a esta cidade, eterna inspiradora dos nossos melhores sentimentos.

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