Ataualpa A. P. Filho - professor
Quando a simplicidade anda de mãos dadas com a humildade, o servir transpira empatia. O trabalho estabelece laços, cria vínculos afetivos quando não se limita ao ganho salarial. O trabalho escreve história...
Hoje estou aqui, em gesto de gratidão, para dizer publicamente “muito obrigado” a Dona Maria. Uma colega de trabalho, uma servidora pública com quem trabalhei por mais de 30 anos. Aposentou-se no dia 08/06/2026. É mais uma saudade que terei que carregar no coração...
A presença dela, mesmo com poucas palavras, marcava uma personalidade forte com senso de justiça pautado na verdade. Possui o dom de falar sem meias palavras. Para alguns alunos matriculados na escola em que trabalhamos, era a “Tia da Merenda”. Mas com a convivência, eles logo aprendiam a chamá-la de Dona Maria. Os filhos e as filhas dos alunos e alunas, dos professores e professoras, dos funcionários e funcionárias da equipe de apoio também logo entendiam que ali estava a Dona Maria, a senhora do servir a merenda.
A dedicação ao que se faz é uma assinatura que personifica o trabalho. Trabalhei em várias escolas da rede pública e da rede privada ao longo da minha vida docente, sempre percebi o carinho das merendeiras, das senhoras e dos senhores que atuavam nas cantinas das escolas. Eles e elas assimilam uma linguagem afetiva que revelam um fino trato para lidar com crianças e adolescentes.
A Dona Maria, que merecidamente se aposentou, preparou-se para requerer a aposentadoria, pois o trabalho da escola era parte integrante da sua vida. Não foi assim no de repente. Fomos nos familiarizando com a ideia da aposentadoria dela.
O tempo traz resiliência. Ele indica os momentos em que os ritmos devem ser diminuídos. Há o momento em que temos que desfrutar do que se edificou. Ela já poderia ter requerido a aposentadoria, mas esperou o momento mais adequado. Obrigado, Dona Maria, por mais essa lição de vida...
Sei que você também conhece uma Dona Maria assim, senhora na simplicidade. Não posso lhe dizer quantas crianças ela colocou no colo enquanto as mães faziam provas. Também não posso lhe dizer quantos cafezinhos ela serviu durante essas décadas em que foi servidora pública. Mas lembro um fato marcante: um senhor já bem posicionado profissionalmente, filho de um saudoso professor que trabalhou conosco, levou o filho dele para conhecê-la. Carinhosamente falou:
Essa é a Dona Maria que dava lanche pra gente quando eu vinha aqui pra escola com o seu avô...
O silêncio também guarda lembranças. No acolhimento, guardam-se segredos. A dívida de gratidão não se monetiza. Ela se desdobra em afeto, em carinho. Dona Maria, biologicamente, só tem uma filha e uma neta, contudo os momentos maternos que vivenciou são incontáveis. Disseminava cuidado de mãe, de avó, de tia, de amiga, de conselheira, tudo pela experiência de vida...
Vou lhe contar aqui apenas um episódio no qual fui personagem no período pós-pandemia, quando se falava do “novo normal”, período este em que eu estava como diretor-adjunto dessa unidade escola:
O turno da noite já caminhava para o seu final, eu teria que fechar a escola. Ela chegou à minha mesa com um copo cheio de café e, com um jeitinho delicado, falou:
Professor, o senhor vai ter que tomar esse café. O café tá caro. É um pecado jogar fora. Os professores que tão aí, não gostam de café. Eu preciso esvaziar a garrafa pra lavar e deixar limpa pra amanhã...
Deixe aqui, Dona Maria, aos pouquinhos, ele vai sumir...
Os argumentos dela me convenceram: café caro, desperdiçar, jogar fora, ela precisava adiantar o serviço. Tomei o café sem sacrifício, mas aos poucos. O último gole estava quase gelado...
Naquele dia, bati o meu recorde. Bebi mais de 300ml de café. Isso entre o final da tarde e início da noite. Na manhã, já tinha tomado alguns...
Há uma satisfação imensurável em abraçar alguém pela gratidão, assim para dizer “muito obrigado”! Há uma satisfação incontida em ver, sobre o tempo, uma longa estrada percorrida com tantos obstáculos vencidos. Quando se trabalha com amor, a vitória vem para coroar os sacríficos com a glória do dever cumprido...
Essa Dona Maria de quem lhe falo, não é a Dona Maria da I.A, ela é de carne e osso, tem nervos de aço, não anda pelo TikTok, é uma das Marias espelhadas nos versos da canção do Milton Nascimento, uma dessas Marias que a realidade talha na luta pela sobrevivência:
“Maria, Maria é um dom, uma certa magia/ Uma força que nos alerta/ Uma mulher que merece viver e amar/ Como outra qualquer do planeta/ (...) Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça/ É preciso ter sonho sempre/ Quem traz na pele essa marca/ Possui a estranha mania de ter fé na vida.”
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