Mauro Peralta - médico e ex-vereador
Nada mais atual do que o poema “José”, escrito pelo grande Carlos Drummond de Andrade em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.
“A festa acabou.
A luz apagou.
O povo sumiu.
A noite esfriou.
E agora, José?”
Esses pequenos trechos da magnífica obra do poeta mineiro parecem ter sido escritos para os dias atuais. Mesmo após 84 anos, suas palavras continuam surpreendentemente atuais.
Hoje, somos um país dividido, com uma parcela significativa da população mais instruída e consciente dos problemas nacionais perplexa diante da vitória, pela quarta vez, do presidente descondenado. De forma aparentemente milagrosa, contrariando as expectativas de todas as pesquisas e modelos matemáticos, Lula conseguiu aumentar sua votação em mais de 10 milhões de votos de um turno para o outro, mesmo com os candidatos de direita e centro-direita da terceira via, cujos eleitores, segundo as pesquisas, migrariam majoritariamente seus votos para Flávio Bolsonaro, tendo somado cerca de 9 milhões de votos. Um fenômeno eleitoral que, aparentemente, jamais conseguiremos explicar.
O pacote de benesses eleitorais prometido dificilmente será entregue em sua totalidade, seja pela falta de recursos, seja pela própria inviabilidade econômica de algumas propostas. Canetas emagrecedoras, como o Mounjaro, no SUS; Pix de 5 mil reais para MEIs; Pé-de-Meia para universitários; vales disso e daquilo. A conta, como sempre, chegará.
A redução da jornada de trabalho para o modelo 5x2, sem os devidos ganhos de produtividade e sem a desoneração da folha de pagamento, inevitavelmente pressionará os custos das empresas, com reflexos nos preços e no mercado de trabalho.
Os programas do tipo Desenrola continuarão, mas sem desenrolar o verdadeiro problema: o endividamento de 82% das famílias brasileiras. Os juros permanecerão nas alturas, na tentativa de conter a inflação, para a felicidade dos banqueiros e a infelicidade de milhões de brasileiros.
O SUS e a educação pública continuarão enfrentando os mesmos problemas de sempre, obrigando as famílias com melhores condições financeiras a fazer um esforço adicional para contratar planos de saúde e matricular seus filhos em escolas particulares, muitas vezes em busca de um atendimento mais eficiente, menos greves e melhor qualidade de ensino.
Um verdadeiro programa de pacificação nacional dificilmente sairá do papel. A mudança no perfil das indicações ao Supremo Tribunal Federal, tão necessária para recuperar a confiança de parte da população nas instituições, também parece distante. Possivelmente, condenações contra opositores do regime continuarão fazendo parte da realidade nacional, enquanto a corrupção na política e nos altos escalões do poder seguirá desafiando a paciência dos brasileiros.
E agora, Brasil?
Só nos resta rezar.
Só nos resta sonhar.
Só nos resta persistir.
Só nos resta acordar.
A noite, por mais longa que seja, um dia termina. E o sol, mais cedo ou mais tarde, voltará a raiar.
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