Paciente de 77 anos com quadro cardíaco grave teve procedimento cancelado após falha no equipamento; OAB afirma que caso confirma riscos já apontados à Prefeitura
Jamis Gomes Jr. - estagiário
Um problema estrutural que já vinha sendo alvo de alertas formais voltou ao centro das preocupações na rede pública de saúde de Petrópolis. Uma paciente internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal Nelson de Sá Earp (HMNSE) teve um procedimento cardíaco adiado após a interrupção do funcionamento do elevador da unidade, equipamento utilizado para o deslocamento de pacientes até o Hospital Santa Teresa.
O caso envolve Rosa Gomes de Lima, de 77 anos, que aguardava a realização de um cateterismo cardíaco. Segundo informações obtidas pela reportagem, o exame não pôde ser realizado porque o elevador responsável pelo transporte entre os hospitais estava inoperante no momento da transferência.
De acordo com relatório médico, a paciente apresenta estenose aórtica grave sintomática, doença que pode comprometer significativamente a circulação sanguínea. O documento também descreve episódios recorrentes de dores irradiadas para pescoço e garganta, sensação de sufocamento, palpitações e agravamento progressivo do quadro clínico.
Ainda segundo o relatório, a idosa possui elevado risco de descompensação cardiovascular, arritmias e outros eventos cardíacos graves, além de histórico de hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia e fibrilação atrial.
Prefeitura afirma que elevador já foi consertado
Procurada pelo Diário de Petrópolis, a Prefeitura informou que o problema foi causado por uma falha técnica e que o equipamento voltou a funcionar após reparos.
“A Secretaria de Saúde informa que o elevador apresentou um problema técnico e o procedimento da paciente precisou ser adiado temporariamente. O equipamento, no entanto, já foi consertado e já está em operação. O município busca recursos para reforma e modernização do elevador da unidade”, informou a administração municipal em nota.
A Prefeitura não respondeu aos demais questionamentos enviados pela reportagem, entre eles o tempo total de paralisação do equipamento, o número de pacientes impactados e quais protocolos foram adotados para minimizar os efeitos da interrupção do serviço.
Alerta já havia sido feito pela OAB
O episódio ocorre meses após a Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB Petrópolis ter encaminhado recomendações formais alertando para os impactos provocados pela paralisação do elevador.
Na ocasião, a comissão apontou prejuízos ao fluxo hospitalar, dificuldades para realização de exames, transferências internas, admissões de pacientes e procedimentos cirúrgicos.
Para a vice-presidente da comissão, Andréa Carius, o caso registrado nesta semana reforça preocupações que já haviam sido apresentadas aos gestores públicos.
“Infelizmente, sim. O episódio reforça exatamente a preocupação que motivou a atuação da Comissão. O problema deixa de ser apenas uma questão estrutural e passa a produzir consequências concretas na assistência aos pacientes, com potencial impacto na realização de exames, procedimentos e na própria dinâmica de funcionamento do hospital”, afirmou Andréa Carius em entrevista ao Diário de Petrópolis.
A advogada ressalta que a interrupção de procedimentos por falhas estruturais pode ter reflexos diretos na garantia do atendimento adequado.
“Sem dúvida, trata-se de uma situação extremamente preocupante. Quando uma falha estrutural impede ou adia um procedimento necessário, especialmente em uma paciente de alto risco, pode haver comprometimento do direito fundamental à saúde. A eventual responsabilização do poder público dependerá da apuração dos fatos e das circunstâncias concretas, mas é evidente que a infraestrutura hospitalar deve garantir condições mínimas para a continuidade da assistência”, destacou.
Risco vai além do equipamento
Segundo Andréa Carius, os impactos da falta de funcionamento adequado do elevador ultrapassam a questão da manutenção do equipamento.
“A OAB pode continuar acompanhando a situação, dialogando com os gestores públicos, encaminhando representações aos órgãos competentes e cobrando providências para garantir a segurança dos pacientes. O papel da instituição é atuar na defesa dos direitos da população e contribuir para que problemas estruturais que afetem a assistência sejam solucionados com a urgência necessária”, afirmou.
A comissão também chama atenção para outro fator considerado crítico: a inexistência de uma rampa de acesso ao segundo pavimento do hospital, onde funcionam o Centro de Recuperação de Adultos (CRA) e a UTI.
Na avaliação da entidade, uma eventual necessidade de evacuação emergencial, como em situações de incêndio ou outro incidente, poderia dificultar significativamente a remoção de pacientes graves, que dependem de equipamentos de suporte à vida ou possuem mobilidade reduzida.
Além da questão relacionada à segurança, a OAB aponta reflexos na ocupação dos leitos da rede municipal. Isso porque atrasos em exames, procedimentos, transferências e até altas hospitalares podem prolongar internações, reduzindo a disponibilidade de vagas para novos pacientes.
Enquanto isso, o caso da paciente que teve o cateterismo adiado reaviva o debate sobre a necessidade de investimentos na infraestrutura hospitalar da cidade e sobre os impactos que problemas aparentemente simples podem provocar no atendimento de pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Veja também: