Jamis Gomes Jr. - estagiário
Um município de pouco mais de 4 mil habitantes no interior de São Paulo saiu de índices sociais abaixo da média nacional para alcançar o topo do ranking brasileiro de qualidade de vida. O salto de desenvolvimento de Gavião Peixoto, na região de Araraquara, ganhou destaque após a cidade aparecer em primeiro lugar no Índice de Progresso Social (IPS) de 2026, indicador que avalia aspectos como segurança, educação, saneamento e oportunidades.
O avanço da cidade está diretamente ligado à chegada da fabricante aeronáutica Embraer, que instalou no município uma unidade voltada ao setor militar no início dos anos 2000. Até então, a economia local era baseada principalmente na agricultura, com forte presença da produção de cana-de-açúcar e laranja.
Dados do Atlas do Desenvolvimento Humano mostram que, em 2000, Gavião Peixoto registrava Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,597, abaixo da média nacional da época. Dez anos depois, o índice subiu para 0,710. Já em 2026, o município alcançou nota 73,1 no IPS, liderando o ranking nacional.
O crescimento econômico também impressiona. Segundo dados divulgados no levantamento, o município teve PIB per capita de R$ 369 mil em 2023, um dos maiores do estado de São Paulo.
Para o economista Tiago Velloso, o caso evidencia como empresas de alto valor agregado conseguem transformar economias locais de pequeno porte.
“Quando a Embraer instala uma operação desse porte, existe um efeito multiplicador na economia local. A empresa demanda fornecedores, serviços, logística, comércio, construção civil, mão de obra qualificada e infraestrutura”, explicou.
Segundo ele, a diferença está na qualidade dos empregos gerados. “Uma indústria como a Embraer não gera apenas emprego, ela gera emprego com alto grau de remuneração e produtividade. Quando a produtividade sobe, a renda tende a subir também, fazendo aumentar a arrecadação municipal e dando mais capacidade para a prefeitura investir em saúde, educação e infraestrutura”, afirmou.
O especialista destaca que o desenvolvimento não depende apenas da presença de uma grande empresa, mas também da capacidade do poder público em converter arrecadação em políticas públicas eficientes.
“Ela cria a oportunidade. Para isso virar qualidade de vida, o poder público precisa conseguir transformar arrecadação em serviço público de qualidade”, acrescentou.
O modelo de desenvolvimento observado em Gavião Peixoto também pode servir de referência para cidades da Região Serrana, como Petrópolis, que buscam fortalecer setores ligados à inovação, tecnologia e serviços especializados.
Para Velloso, o principal aprendizado está na busca por atividades econômicas mais sofisticadas e sustentáveis.
“A principal lição para Petrópolis e outras cidades da Região Serrana é que desenvolvimento econômico não vem só de atrair qualquer empresa, vem de atrair atividade de maior valor agregado”, avaliou.
Ele lembra que Petrópolis possui diferenciais importantes, como tradição industrial, potencial turístico, instituições de ensino e qualidade de vida, fatores que podem favorecer investimentos em áreas como tecnologia, software, economia criativa e serviços especializados.
“Hoje empresa não escolhe cidade só pelo imposto. Ela olha mão de obra, logística, segurança, conectividade e qualidade de vida”, destacou.
Apesar do avanço econômico, o economista faz um alerta: aumento de arrecadação, sozinho, não garante melhora nos indicadores sociais.
“O Brasil tem exemplos de cidades que arrecadaram muito, mas não transformaram isso em desenvolvimento sustentável. Para crescimento virar qualidade de vida, é preciso investir em educação, saúde, saneamento, qualificação profissional e planejamento urbano”, concluiu.
No fim, a transformação de Gavião Peixoto acabou se tornando símbolo de como indústria, tecnologia e gestão pública podem alterar o perfil econômico e social de uma cidade em poucas décadas.
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