Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário
O alto nível de endividamento das famílias brasileiras acendeu um alerta no governo federal, que estuda medidas para reduzir os juros e facilitar o pagamento de dívidas. A preocupação ganhou força após dados recentes apontarem que mais de 80% dos lares no país possuem algum tipo de débito, cenário que já impacta diretamente cidades como Petrópolis.
A avaliação do Palácio do Planalto é que o comprometimento da renda com dívidas tem limitado o consumo, fazendo com que muitas famílias cheguem ao fim do mês sem dinheiro disponível. Atualmente, cerca de 29% dos ganhos estão sendo destinados ao pagamento de contas, o que reduz a circulação de recursos na economia.
Entre as propostas em análise estão a redução dos juros do crédito rotativo do cartão e do consignado privado. A ideia é tornar os empréstimos mais acessíveis e aliviar o orçamento das famílias, embora a medida enfrente resistência do setor financeiro.
Durante agenda recente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o objetivo não é impedir o acesso ao crédito, mas torná-lo mais sustentável. Segundo ele, o desafio é evitar que as dívidas ultrapassem a capacidade de pagamento das famílias, além de incentivar a educação financeira.
Reflexos no comércio local
Em Petrópolis, os efeitos desse cenário já são sentidos no dia a dia do comércio e os números ajudam a dimensionar o problema. Atualmente, o município soma 138.508 pessoas inadimplentes, com um total de 503.029 dívidas ativas, que juntas chegam a aproximadamente R$ 885 milhões.
Na prática, isso representa um ticket médio de R$ 6.389,90 por consumidor inadimplente e cerca de R$ 1.759,45 por dívida, valores que ajudam a explicar a redução no poder de compra da população.
Segundo o engenheiro e consultor de negócios Mairom Duarte, o endividamento tem impacto direto no consumo.
“As famílias com dívidas em cartão de crédito e cheque especial acabam entrando no SPC e deixam de comprar. O que recebem passa a ser usado para quitar essas dívidas, e o consumo diminui”, explica.
Para ele, uma eventual redução dos juros pode ajudar a reaquecer a economia local ao longo do tempo. “Com juros menores, não só o preço das mercadorias diminui, mas também o valor das dívidas. Isso permite que, aos poucos, volte a sobrar dinheiro para o consumo”, afirma.
O especialista também chama atenção para outro problema: a falta de educação financeira. “Não é só cautela. Muitas vezes, o consumidor não tem dinheiro mesmo. Com tantas opções de compra, acaba gastando mais do que pode, principalmente no cartão de crédito”, completa.
Mudança no comportamento do consumidor
A percepção de quem está na linha de frente do comércio confirma essa realidade. Presidente do Sicomércio Petrópolis, Marcelo Fiorini afirma que o setor acompanha a tendência nacional.
“Os empresários percebem quando o volume de vendas não acompanha o esperado. O endividamento da população influencia diretamente esse resultado, embora datas comemorativas ainda ajudem a impulsionar o consumo”, destaca.
Segundo ele, qualquer medida que alivie o bolso da população tende a refletir positivamente nas vendas. “Quando há mais acesso ao crédito, aumento de renda e perspectiva positiva, o consumidor volta a comprar e isso fortalece o comércio local”, explica.
Além disso, Fiorini observa uma mudança clara no perfil do consumidor. “As pessoas estão pesquisando mais, comparando preços e avaliando se vale mais a pena parcelar ou pagar à vista. O comércio precisa se adaptar a esse novo comportamento”, diz.
Consumo mais seletivo
A contadora Carolina Licht, representante do Conselho Regional de Contabilidade do Rio de Janeiro (CRCRJ) em Petrópolis, reforça que o consumo não desapareceu, mas mudou de perfil.
“O impacto não é uma queda brusca, mas uma mudança no comportamento. O consumo ficou mais seletivo, mais concentrado no essencial, e o comércio sente isso na desaceleração das vendas e na maior sensibilidade a preço”, analisa.
Ela avalia que a redução dos juros pode ser um fator importante para a retomada. “Juros altos travam decisões. Juros menores destravam o consumo. Isso melhora o acesso ao crédito e também permite que empresas invistam mais, o que ajuda a movimentar a economia”, afirma.
Desafios para empresários
Diante desse cenário, comerciantes da cidade têm buscado alternativas para manter o fluxo de caixa. Estratégias como promoções, facilitação de pagamentos e antecipação de recebíveis têm sido adotadas, embora nem sempre sejam suficientes para compensar a queda no consumo.
Para especialistas, o momento exige mais do que aumento nas vendas. “Hoje, o desafio é vender melhor, com controle financeiro e estratégia. Quem tem uma gestão mais eficiente consegue atravessar esse período com menos impacto”, conclui Carolina.
Enquanto o governo busca soluções para reduzir o peso das dívidas no orçamento das famílias, o comércio de Petrópolis segue se adaptando a uma nova realidade, em que o consumidor compra menos por impulso e cada gasto é cada vez mais planejado.
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