Instituições que atuam com a terceira idade destacam importância da prevenção, convivência, acolhimento e de uma rede de cuidados para um envelhecimento mais saudável
Roberto Jones - especial para o Diário
Envelhecer com saúde envolve muito mais do que acompanhar doenças. Para a população idosa, manter a autonomia, cultivar vínculos, participar de atividades e ter acesso a cuidados que considerem as necessidades individuais são fatores que também contribuem para a qualidade de vida. Em Petrópolis, instituições que trabalham diretamente com essa população apontam que o cuidado precisa começar antes das situações de maior dependência e envolver família, profissionais de diferentes áreas e toda a sociedade.
No Lírio Residencial Sênior, essa proposta se traduz em uma rotina que busca cuidar do corpo, da mente e das relações. As moradoras contam com acompanhamento de médico geriatra, enfermeira, psicóloga, fisioterapeuta, nutricionista, arteterapeuta, músico e cuidadores 24 horas.
Atividades como música, dança, artesanato e jardinagem também fazem parte do cotidiano. “Acreditamos que promover um envelhecimento saudável é cuidar do corpo e da mente”, explica Eulília Rangel, proprietária e psicóloga do residencial. Segundo ela, a proposta é oferecer um ambiente acolhedor e seguro, mas também ativo, respeitando as características e preferências de cada moradora.
Mais do que estimular diferentes capacidades, essas atividades também são vistas como ferramentas de socialização e bem-estar. A proposta é que a rotina das moradoras inclua momentos de prazer, convivência e participação, evitando que o cuidado seja limitado às necessidades básicas.
Cuidar também é preservar a autonomia
Para Eulília, um dos principais desafios relacionados ao envelhecimento está no acolhimento. “Muitas famílias precisam de apoio para lidar com as mudanças que acompanham o envelhecimento e, muitas vezes, não sabem onde encontrar um cuidado qualificado e humanizado. Nossa proposta é justamente oferecer esse acolhimento, buscando também manter uma relação próxima com as famílias”, elenca.
Aniversários, festas e outros momentos de convivência fazem parte dessa aproximação, enquanto as moradoras são incentivadas a participar das atividades e das decisões do dia a dia dentro de suas possibilidades. “A participação da família é fundamental. O cuidado profissional é importante, mas não substitui os vínculos afetivos”, destaca Eulília.
A preservação da autonomia também aparece como um dos pontos centrais no trabalho do Hospital Santa Teresa. Segundo o cardiologista e intensivista Bernardo Camargo, mesmo quando o atendimento acontece em um contexto hospitalar, é importante olhar para o paciente de forma integral, considerando não apenas a condição de saúde que levou à busca por atendimento, mas também sua rotina e independência. “O envelhecimento não deve ser tratado apenas como uma questão de saúde, mas como uma questão social, urbana e de qualidade de vida”, afirma.
Na prática, o hospital trabalha com uma abordagem multidisciplinar, envolvendo profissionais de diferentes áreas de acordo com as necessidades de cada paciente, além de medidas como avaliação global, revisão de medicamentos, mobilização e planejamento da continuidade do cuidado.
Para Bernardo, esse equilíbrio também precisa estar presente dentro das famílias. “A família deve atuar como apoio, e não necessariamente como substituta da autonomia. Isso é especialmente importante porque, muitas vezes, existe uma tendência de proteger excessivamente o idoso, o que pode acabar contribuindo para perda de independência”, explica.
Prevenção antes da doença
A promoção de um envelhecimento saudável, segundo o especialista, precisa começar antes de qualquer necessidade hospitalar. O acompanhamento das doenças crônicas, vacinação, alimentação adequada, atividade física, prevenção de quedas, atenção à saúde mental e manutenção das capacidades funcional e cognitiva fazem parte desse processo. “Não devemos perguntar apenas ‘qual doença esse paciente tem?’, mas também ‘qual é a sua capacidade funcional, quais são seus objetivos e o que podemos fazer para que ele mantenha sua independência pelo maior tempo possível?’”, destaca Bernardo.
No Lírio, a prevenção também está presente na rotina por meio do acompanhamento multidisciplinar, da manutenção da mobilidade, da estimulação cognitiva, do cuidado emocional e da alimentação. A convivência e as atividades também ajudam a manter as moradoras ativas e participativas.
Uma cidade preparada para envelhecer
A necessidade de pensar no envelhecimento para além dos serviços de saúde aparece nas duas instituições. Para Eulília, Petrópolis precisa ampliar espaços de convivência, acolhimento e atendimento especializado, especialmente para os idosos em situação de maior vulnerabilidade. “Uma cidade preparada para o futuro é aquela que oferece não apenas assistência, mas também segurança, convivência, acessibilidade e qualidade de vida”, afirma.
Bernardo também defende uma mudança na forma como a cidade estrutura seus serviços. Para ele, hospitais, atenção primária, reabilitação, assistência social e atendimento domiciliar precisam estar conectados para acompanhar o idoso em diferentes momentos da vida. “Precisamos criar uma rede de cuidado que acompanhe o idoso antes, durante e depois de uma eventual hospitalização”, explica.
O desafio, portanto, não está apenas em ampliar os serviços destinados à terceira idade, mas em construir uma cidade onde envelhecer também possa significar continuar participando, convivendo e fazendo escolhas. “O idoso não deve ser visto apenas como alguém que precisa de cuidados, mas como uma pessoa que pode continuar ativa, produtiva, participativa e autônoma”, resume Bernardo.
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