Edição: sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Esclerose múltipla não é sentença: especialista explica sinais e tratamento da doença

Dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla será celebrado no domingo (30); diagnóstico precoce pode ajudar a preservar a autonomia dos pacientes

Foto: Reprodução
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Jamis Gomes Jr. - estagiário

Neste domingo (30), o Brasil celebra o Dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla, data criada para ampliar o conhecimento sobre uma doença que ainda é cercada de dúvidas e estigmas. Embora o diagnóstico possa causar preocupação, os avanços no tratamento têm permitido que muitos pacientes mantenham uma rotina ativa e com qualidade de vida.

A esclerose múltipla é uma doença autoimune e inflamatória que afeta o sistema nervoso central. Segundo o neurologista e neuroimunologista Victor Hugo Gomes, professor do curso de Medicina da Unic Beira Rio, o sistema imunológico passa a atacar estruturas do próprio organismo, especialmente a bainha de mielina, responsável por revestir os neurônios e auxiliar na comunicação entre eles.

“Então a esclerose múltipla é uma doença autoimune do sistema nervoso central onde nós temos a produção de anticorpos que serão dirigidos e direcionados contra uma célula, uma estrutura que é responsável por revestir os neurônios, por revestir a comunicação entre os neurônios chamada de bainha de mielina.”

Esse processo inflamatório pode provocar diferentes manifestações neurológicas. Entre os sintomas estão formigamentos, perda de força, alterações urinárias e intestinais, perda visual e alterações nos movimentos dos olhos.

A variedade de sinais, entretanto, pode dificultar a identificação da doença. Alguns sintomas também aparecem em outras condições e, por isso, nem sempre o diagnóstico é realizado rapidamente.

Sintomas podem ser confundidos com ansiedade

De acordo com Victor Hugo Gomes, a esclerose múltipla também pode provocar sintomas que acabam sendo associados inicialmente a problemas emocionais ou psicológicos.

Além das manifestações relacionadas diretamente às lesões no sistema nervoso, a doença inflamatória crônica pode provocar fadiga intensa, dificuldade de raciocínio e uma sensação conhecida como “brain fog”, caracterizada por uma espécie de lentificação do pensamento. Cefaleia também pode aparecer.

“Não é incomum que a esclerose múltipla hoje em dia ainda seja muito confundida com outras doenças que sejam um tanto quanto mais comuns.”

Por isso, a combinação e a recorrência de sintomas neurológicos são fatores que merecem atenção e avaliação médica especializada.

Quem pode desenvolver a doença?

Embora a esclerose múltipla possa atingir diferentes pessoas, existe um perfil mais frequentemente observado. Segundo o especialista, a doença acomete principalmente mulheres jovens, especialmente entre os 20 e 40 anos.

Os homens também podem desenvolver a condição. A proporção, segundo Victor Hugo, é de aproximadamente duas a duas vezes e meia mais mulheres para cada homem diagnosticado.

A doença também não está restrita a um único grupo étnico. A população brasileira, marcada pela miscigenação, apresenta casos em diferentes grupos.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico não depende de um único exame. O médico considera a história clínica do paciente, a evolução dos sintomas e os resultados de diferentes exames complementares.

Um dos pontos analisados é a ocorrência de sintomas neurológicos que podem durar mais de 24 horas e menos de 30 dias e voltar em diferentes momentos, caracterizando os chamados surtos.

A investigação pode incluir exames de imagem, como a ressonância magnética, capazes de identificar lesões características da doença em regiões como cérebro, tronco encefálico, medula e nervo óptico.

Também podem ser utilizados exames como o potencial evocado visual e a tomografia de coerência óptica. Em situações nas quais ainda existem dúvidas, a análise do líquido cefalorraquidiano, conhecido como líquor, pode auxiliar na identificação de sinais de inflamação no sistema nervoso central.

Diagnóstico precoce pode mudar evolução

Para o neuroimunologista, um dos pontos mais importantes atualmente é evitar que o diagnóstico aconteça somente depois que a doença já provocou danos significativos.

“Quanto mais cedo nós diagnosticarmos hoje existe um conceito muito importante em esclerose múltipla. Quanto mais cedo feito o diagnóstico, mais rápido nós iremos instituir uma terapia de alta eficácia.”

A esclerose múltipla ainda não possui cura, mas existem medicamentos capazes de reduzir a atividade da doença, diminuir a ocorrência de surtos e ajudar a evitar o acúmulo de incapacidades ao longo dos anos.

Segundo Victor Hugo, a compreensão sobre o objetivo do tratamento também mudou. Se anteriormente a preocupação estava principalmente em evitar novos surtos, atualmente a estratégia busca também impedir ou reduzir a progressão da incapacidade.

“Quanto antes nós fizermos o diagnóstico, antes nós iniciaremos uma terapia de alta eficácia, consequentemente nós reduziremos e mitigaremos o risco desse paciente ter um acúmulo de incapacidades a longo prazo.”

Tratamento vai além dos medicamentos

O acompanhamento não se resume ao uso de medicamentos. Mudanças no estilo de vida e terapias de reabilitação também podem fazer parte do cuidado, de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Atividade física, alimentação equilibrada e abandono do tabagismo e do consumo excessivo de álcool são apontados pelo especialista como medidas importantes. Em alguns casos, também podem ser necessários profissionais como fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

“Tudo isso é de extrema importância associado às terapias de reabilitação naqueles pacientes que necessitam como, por exemplo, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional associado ao tratamento medicamentoso.”

Esclerose múltipla não significa abandonar a rotina
Um dos principais pontos destacados pelo especialista é a necessidade de combater o estigma relacionado à doença.

O diagnóstico não significa automaticamente que o paciente perderá a capacidade de caminhar, trabalhar, viajar ou realizar atividades de lazer. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitas pessoas conseguem manter uma rotina ativa.

“E sim, o paciente que tem esclerose múltipla ele pode praticar atividade física, ele pode ter momentos de lazer com a sua família, ele pode viajar, ele pode trabalhar, ele pode fazer aquilo que ele desejar e o que lhe convém.”

A condição também não impede necessariamente planos pessoais e familiares. Mulheres com esclerose múltipla podem engravidar e, dependendo da situação clínica e da medicação utilizada, podem amamentar, sempre com planejamento e acompanhamento médico.

O especialista ressalta que cada caso precisa ser individualizado, principalmente quando a doença apresenta maior gravidade.

“Esclerose múltipla não é uma sentença”

Para Victor Hugo Gomes, mudar a forma como a sociedade enxerga a doença também faz parte da conscientização.

“Os principais mitos que precisam ser quebrados são esses daquele paciente que é incapacitado. Esclerose múltipla hoje não é mais isso.”

A possibilidade de planejamento e acompanhamento ao longo dos anos também ganhou espaço com a evolução das terapias disponíveis. O paciente pode discutir com o neurologista questões relacionadas ao trabalho, viagens, atividade física, maternidade e outras escolhas pessoais.

“Esclerose múltipla não é uma sentença. Esclerose múltipla é uma doença que sim precisa ser tratada. Precisa ser reconhecida.”

O especialista defende que a informação seja utilizada para aumentar a autonomia dos pacientes e estimular a procura por atendimento diante de sintomas suspeitos.

“Tudo que eu desejo hoje para os pacientes com esclerose múltipla neste agosto laranja é autonomia. Autonomia de você poder escolher o seu tratamento, autonomia de você poder fazer o que você bem desejar.”

A conscientização neste 30 de agosto reforça, portanto, que receber o diagnóstico não significa necessariamente abrir mão de projetos, trabalho, viagens, atividade física ou convivência social. Com acompanhamento especializado e tratamento adequado, o objetivo é controlar a doença e preservar, pelo maior tempo possível, a autonomia e a qualidade de vida.

Edição: sexta-feira, 28 de agosto de 2026




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