Tecnologia desenvolvida na França analisa padrões de marcha e atenção simultânea e já mostra potencial para identificar doenças neurodegenerativas anos antes do diagnóstico clínico
Jamis Gomes Jr. - estagiário
Uma nova tecnologia desenvolvida por cientistas da Universidade de Caen, na França, pode mudar a forma como doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson são detectadas. Trata-se de uma esteira ergométrica equipada com inteligência artificial e sensores avançados capaz de identificar sinais precoces dessas condições antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas perceptíveis.
O equipamento, ainda em fase de aprimoramento, combina análise de movimento, desempenho cognitivo e processamento de dados em tempo real para mapear alterações sutis no comportamento motor e mental dos pacientes. Nos testes iniciais, os pesquisadores afirmam que a ferramenta conseguiu triplicar a capacidade de prever o desenvolvimento dessas doenças.
O avanço chama atenção por atacar justamente um dos maiores desafios da neurologia atual: o diagnóstico tardio. Em muitos casos, quando Alzheimer ou Parkinson são identificados, já houve perda significativa de funções cerebrais, o que limita as possibilidades de intervenção.
O funcionamento da esteira vai além do simples registro de caminhada. O sistema conta com plataformas de força que medem como o peso do corpo é distribuído a cada passo. Esses dados permitem identificar alterações quase imperceptíveis na marcha, que não seriam detectadas a olho nu.
Ao mesmo tempo, o paciente é submetido a tarefas cognitivas durante o exercício, como identificar cores ou palavras. Essa dupla exigência avalia a capacidade de dividir atenção, uma das primeiras funções cognitivas a apresentar declínio em doenças neurodegenerativas.
Além disso, câmeras e sensores captam ângulos das articulações, tempo de reação e até padrões vocais. Todas essas informações são processadas por algoritmos de inteligência artificial, que cruzam os dados para gerar um perfil locomotor individual. Qualquer desvio em relação ao padrão considerado saudável pode indicar risco aumentado.
A tecnologia ainda está em fase experimental, mas já passa por adaptações para uso clínico mais amplo. Uma das versões em desenvolvimento utiliza três smartphones posicionados estrategicamente para registrar o paciente caminhando por cerca de cinco minutos, reduzindo custos e complexidade do equipamento original.
A expectativa dos pesquisadores é que o sistema seja testado em larga escala nos próximos anos em hospitais franceses e possa chegar a consultórios médicos em até dois anos. Os próprios desenvolvedores estimam que até 75% das doenças neurodegenerativas poderiam ter impacto reduzido quando detectadas precocemente.
Apesar do otimismo, especialistas reforçam que o método ainda não substitui diagnósticos clínicos tradicionais, funcionando como uma ferramenta complementar de triagem e alerta precoce.
Para o médico geriatra e professor do curso de Medicina da Uniderp, Marcos Blini, o diagnóstico antecipado de doenças como Alzheimer e Parkinson pode representar uma mudança significativa na forma como pacientes e famílias lidam com essas condições.
“Praticamente todas as doenças neurodegenerativas é interessante que a gente tenha um diagnóstico mais precoce por dois motivos principais. O primeiro é que algumas dessas doenças têm tratamentos que quanto antes forem introduzidos melhor a evolução do quadro clínico do paciente. E o segundo é a questão de planejamento da família, tanto para os cuidados quanto para o tratamento não medicamentoso”, explicou.
Segundo ele, grande parte do manejo dessas doenças depende menos de medicamentos e mais de intervenções multidisciplinares.
“Esses tratamentos incluem exercícios, fisioterapia, musculação, pilates, funcional, psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional. No paciente com doença mais leve é muito mais fácil aderir às terapêuticas e também ter uma evolução mais amena do quadro do que quando o diagnóstico é tardio”, afirmou.
Questionado sobre fatores que podem ajudar a prevenir ou retardar o avanço das doenças, o especialista destacou a importância da chamada reserva funcional e cognitiva.
“Isso é uma coisa muito interessante. Existe até um certo preconceito de que essas doenças não têm muito o que ser feito em relação à prevenção. Mas isso não é verdade”, disse.
Ele explica que manter o cérebro ativo ao longo da vida pode fazer diferença na forma como a doença se manifesta.
“Quanto mais ativo o paciente tiver em todas as questões, maior vai ser a reserva funcional e cognitiva dele. E quando a gente consegue aumentar essa reserva, menor vai ser a chance de impacto dessas doenças. E se vier a ter, a progressão tende a ser mais lenta”, completou.
O avanço das tecnologias de diagnóstico precoce também se conecta a um desafio maior: o envelhecimento da população. Para o geriatra, o sistema de saúde e o planejamento urbano precisam se adaptar a essa nova realidade.
“O envelhecimento populacional está chegando no Brasil com uma velocidade rápida e não temos muita reserva financeira para isso. Vai demandar planejamento de recursos e organização dos sistemas de saúde”, avaliou.
Ele também destacou a importância de políticas públicas voltadas à qualidade de vida.
“Precisamos de áreas de convívio, mobilidade adequada, parques e incentivo à atividade física. Isso melhora a qualidade de vida e também reduz custos para o sistema de saúde, porque o idoso mais saudável gera menos demanda assistencial”, afirmou.
A combinação entre inteligência artificial e neurologia reforça uma tendência crescente na medicina: a busca por sinais silenciosos de doenças antes que elas se tornem irreversíveis.
Embora ainda em fase de testes, a esteira inteligente desenvolvida na França representa um avanço importante na tentativa de antecipar diagnósticos e ampliar as chances de intervenção precoce em doenças que afetam milhões de pessoas em todo o mundo.
O desafio, segundo especialistas, será transformar essa tecnologia em acesso real nos sistemas de saúde, garantindo que o diagnóstico precoce não seja apenas um avanço científico, mas uma ferramenta efetiva na prática clínica.
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