Acende alerta sobre saúde mental nessa faixa etária
Jaqueline Gomes
A juventude costuma ser uma época feliz na vida da maioria das pessoas, mas, um estudo internacional conduzido pelas universidades de Harvard e Baylor, nos Estados Unidos, que ouviu mais de 200 mil jovens entre 18 e 29 anos, em 22 países, mostra que eles vivem uma "crise de felicidade". Os níveis de alegria e bem-estar pararam de crescer e, em alguns casos, estão até caindo em comparação com gerações anteriores. Redes sociais, pressão profissional e incertezas sobre o futuro podem influenciar os jovens da chamada Geração Z.
Segundo Chrystina Barros, especialista em Ciência da Felicidade pela Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), a juventude é um momento em que as pessoas estão formando sua personalidade e as mudanças no mundo, em geral, atualmente estão sendo muito rápidas. "Hoje está saindo o relatório anula da felicidade da ONU e sem dúvida nenhuma existe um desafio muito grande da felicidade na juventude né? Quando a gente fala da Geração Z a gente está falando de quem tem de 14 a 29 anos, é quando se está formando a sua personalidade, vivendo a sua adolescência, a sua infância, nesse contexto de muita instabilidade econômica, um contexto que o mundo digital traz mudanças muito rápidas, no mercado de trabalho, rápidas nas guerras, nas incertezas na pandemia, na crise climática. Então, isso tudo, gera transtornos de ansiedade e depressão, principalmente entre os jovens”, explica.
Outra questão preocupante levantada pela especialista é a busca por perfeição, no corpo, nos bens materiais, nas profissões que as redes sociais acabam impondo aos jovens, que pode causar adoecimento.
"As comparações aumentam sim a frustração, aumentam sim a inadequação, porque quando a gente está comparando, a gente está comparando com alguma coisa que foi produzida e isso acaba sendo uma condição real. A gente compara alguma coisa imaginária tomando aquilo como um alvo, inclusive para o corpo. Então a própria identidade de corpo, o que a gente vê hoje com tantos procedimentos estéticos. Eles vão para além da autoestima, procedimentos que tem colocado as pessoas quase todas com a mesma boca, com a mesma testa, com o mesmo rosto, então. isso realmente coloca a gente numa condição de adoecimento mental, mais até do que frustração, sendo bem direta, adoecimento mental", ressalta Chrystina.
Ela completa dizendo que “os mais jovens acabam com uma grande expectativa e, por verem muito esse mundo ideal, se cobram muito e, isso, às vezes, está desconectado da sensação real gerando uma grande tristeza, frustração e infelicidade", constata.
De acordo com a especialista em Ciência da Felicidade, as gerações anteriores escaparam da rapidez de transformação que as novas tecnologias trouxeram. “As gerações anteriores tinham mais tolerância porque não havia uma mudança tão rápida de modelos e a felicidade não era vendida como uma expectativa, alguma coisa que você tem que ter, o último lançamento, então, as pessoas viviam mais todo o processo de construção. Então, se por um lado a gente pode ter mais consciência com as informações que chegam rápido, o grande problema é que o que nos chega não é vida real, são modelos formatados pra consumo, e isso está mudando a nossa relação interpessoal e também o que é felicidade.
A orientação que ela dá aos jovens da Geração Z, e também aos mais velhos que hoje convivem com tanta tecnologia, é trazer regras para o ambiente digital. “A gente precisa trazer limites, como as escolas já limitam as crianças a usar celulares e as faculdades estão começando a trazer essa regra, inclusive nos horários do recreio, do intervalo, porque a gente precisa de interações. A gente precisa conscientizar famílias que o momento do almoço, da comemoração, não é momento de cada um estar na sua tela. Deixa pra fazer uma foto só no final. A gente precisa falar mais de humanidade, de fragilidades, trazer regulamentações, cuidar do ambiente da família, não expor até a adolescência essa criança, esse jovem ao mundo digital, começando da nossa conscientização. E, lembrando que as doenças relacionadas a transtornos da ansiedade e depressão já são o primeiro lugar de afastamento pelo INSS, sem dúvida nenhuma, isso tem a ver com digital”, analisa.
Chrystina Barros conclui dizendo que “a gente precisa ver mais a luz natural do que as telas brilhosas, que estimulam hormônios e que geram vício, que por sua vez levam a gente ao fundo do poço, à depressão. É um caminho que, pelo menos agora, está sendo bastante discutido de maneira aberta, mas a gente precisa de mais relações humanas pra conviver com essa tecnologia que, em excesso, pode ser veneno muito mais do que remédio”.
Veja também: