Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Um levantamento recente tem chamado a atenção ao sugerir que fatores sociais podem influenciar diretamente a saúde. De acordo com dados divulgados pelo site The News, um estudo publicado na revista científica Cancer Research Communications indica que pessoas solteiras têm maior probabilidade de desenvolver câncer ao longo da vida quando comparadas às que são ou já foram casadas.
A pesquisa analisou mais de 100 milhões de indivíduos nos Estados Unidos, entre 2015 e 2022, e cerca de 4 milhões de casos da doença. Os resultados mostram que homens que nunca se casaram apresentam risco até 70% maior de desenvolver câncer. Entre as mulheres, esse número pode chegar a 85%.
Apesar da associação, especialistas ressaltam que o casamento em si não é um fator protetor direto, mas sim os hábitos e o contexto social que costumam acompanhá-lo, como maior cuidado com a saúde, realização de exames preventivos e presença de uma rede de apoio.
Rede de apoio faz diferença no tratamento
Na prática clínica, a presença de familiares ou acompanhantes pode impactar diretamente a forma como o paciente enfrenta a doença. É o que observa Júlia Pereira da Silva, enfermeira formada pelo Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto e pós-graduanda em enfermagem oncológica.
“Pacientes acompanhados apresentam um perfil de segurança. Iniciar a infusão de quimioterapia sabendo que tem alguém te esperando do lado de fora faz diferença. É a sensação de importância, de pertencimento familiar”, explica.
Ela destaca que o tratamento oncológico pode ser longo e desgastante, o que torna o suporte emocional ainda mais relevante.
“Às vezes o paciente chega às 8h e só vai embora às 15h ou 16h. É um ambiente que traz medo, com pessoas debilitadas, e a presença de um acompanhante ajuda no cuidado e na atenção às necessidades básicas”, afirma.
Segundo a enfermeira, quando esse apoio não existe, a equipe de saúde precisa assumir um papel ainda mais ativo.
“A gente reconhece essas fragilidades e o cuidado interdisciplinar ganha ainda mais importância, com atuação do enfermeiro, psicólogo e assistente social para oferecer essa sensação de acolhimento”, completa.
Diagnóstico tardio e impactos emocionais
Outro ponto observado na rotina hospitalar é a demora na busca por atendimento entre pacientes sem suporte familiar. Júlia ressalta que isso pode afetar diretamente o prognóstico.
“Pacientes com fragilidade familiar enfrentam desafios adicionais. Além dos efeitos físicos, surgem questões emocionais, como ansiedade, depressão e isolamento, que impactam negativamente no tratamento”, explica.
Ela também chama atenção para dificuldades práticas durante o tratamento.
“A quimioterapia pode afetar memória e raciocínio. Um paciente sozinho pode ter mais dificuldade em lembrar orientações e seguir corretamente o tratamento, o que compromete a adesão e os resultados”, diz.
Hábitos de vida pesam mais que estado civil
Para o cirurgião geral e oncológico Dr. Thiago Kloh, professor da UNIFASE/FMP, o estado civil não deve ser interpretado como causa direta para o desenvolvimento da doença.
“O estado civil por si só não tem impacto direto no risco de câncer. O que realmente pesa são os hábitos de vida e o autocuidado”, afirma.
Ele explica que comportamentos como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e alimentação inadequada estão entre os principais fatores de risco.
“Bons hábitos de vida, como evitar bebidas alcoólicas, não fumar, praticar exercícios físicos, manter uma alimentação saudável e um padrão adequado de sono, são fundamentais na prevenção”, destaca.
O médico também reforça a importância do acompanhamento médico regular.
“Os exames de rotina não evitam o câncer, mas permitem um diagnóstico precoce, o que aumenta significativamente as chances de cura e a eficácia do tratamento”, pontua.
Sinais de alerta não devem ser ignorados
Independentemente do estado civil, alguns sintomas exigem atenção e devem ser investigados o quanto antes.
“Emagrecimento sem causa definida, sangramentos vaginais ou intestinais e anemia sem explicação são sinais importantes”, alerta Kloh.
Ele também reforça o papel da rede de apoio no enfrentamento da doença.
“Fatores sociais e uma rede de apoio bem estruturada estimulam o cuidado com a saúde, aumentam a confiança do paciente e ajudam na adesão ao tratamento”, conclui.
Diante disso, especialistas reforçam que, mais do que o estado civil, o que realmente faz diferença é o conjunto de hábitos e o suporte social ao longo da vida, elementos que podem influenciar tanto na prevenção quanto no tratamento do câncer.
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