Pesquisa da NYU Langone Health identifica marcador inflamatório no hemograma associado ao desenvolvimento de demências; especialista reforça importância do controle de doenças crônicas na prevenção
Jamis Gomes Jr. - estagiário
Um exame de sangue simples, já amplamente utilizado na rotina clínica, pode ajudar a identificar pessoas com maior risco de desenvolver Alzheimer e outras formas de demência anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas. A descoberta é de um estudo conduzido por pesquisadores da NYU Langone Health, nos Estados Unidos, que analisou dados de quase 400 mil pacientes em dois grandes sistemas de saúde.
Publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia, o trabalho aponta que um marcador inflamatório presente no hemograma, exame básico solicitado em consultas de rotina, pode estar associado ao risco futuro de declínio cognitivo. O achado reforça a crescente atenção da medicina para a relação entre inflamação e envelhecimento cerebral.
Neutrófilos entram no radar da neurologia
O foco da pesquisa está nos neutrófilos, células de defesa do organismo que fazem parte do sistema imunológico e atuam no combate a infecções e processos inflamatórios. Quando há uma ativação do sistema imune, a quantidade dessas células pode aumentar rapidamente, alterando o equilíbrio com outros componentes do sangue.
Esse equilíbrio é medido pela chamada razão neutrófilo-linfócito (NLR), um índice calculado a partir do hemograma completo, exame rotineiro utilizado para avaliar infecções e o estado geral do sistema imunológico.
Segundo os pesquisadores, níveis mais altos desse marcador foram consistentemente associados a maior probabilidade de desenvolvimento de Alzheimer e outras demências, tanto no curto quanto no longo prazo.
O estudo reuniu dados de cerca de 285 mil pacientes atendidos em hospitais da NYU Langone e outros 85 mil indivíduos do sistema de saúde de veteranos dos Estados Unidos. Para garantir maior precisão, os cientistas analisaram a primeira medição válida do NLR em cada participante, realizada a partir dos 55 anos e antes de qualquer diagnóstico de demência.
Associação com risco, não diagnóstico
Apesar dos resultados, os autores fazem uma ressalva importante: o NLR não deve ser interpretado como um teste diagnóstico de Alzheimer. O marcador, segundo eles, funciona como um possível indicador de risco aumentado e não como ferramenta definitiva de detecção da doença.
“Nossa pesquisa é a primeira investigação em larga escala a mostrar que métricas de neutrófilos estão associadas a um risco aumentado de demência em humanos A elevação dos neutrófilos ocorre antes de qualquer evidência de declínio cognitivo, o que reforça a necessidade de investigar se eles estão contribuindo ativamente para a progressão da doença”, afirmou o cientista de dados Tianshe (Mark) He, da Escola de Medicina Grossman da NYU.
Outro pesquisador envolvido, o professor Jaime Ramos-Cejudo, destacou que os resultados podem ter duas implicações principais: auxiliar na identificação de pacientes que precisam de acompanhamento mais próximo e aprofundar a compreensão do papel dos neutrófilos no desenvolvimento da doença.
“Esses e futuros estudos mostrarão se os neutrófilos são apenas um marcador da doença de Alzheimer ou se estão causando ativamente a progressão da demência, caso em que poderiam se tornar um alvo terapêutico relevante”, afirmou.
Inflamação pode estar ligada ao envelhecimento cerebral
Os pesquisadores também observam que o envelhecimento pode agravar esse processo, já que o organismo perde eficiência na eliminação de neutrófilos mais antigos. Estudos anteriores já haviam identificado sinais de inflamação associados a essas células no cérebro de pacientes com Alzheimer, além de evidências em modelos animais sugerindo aceleração da progressão da doença.
Ainda assim, não há comprovação de relação direta de causa e efeito. A hipótese atual é de que a inflamação possa atuar como um fator associado, e não necessariamente como origem da doença.
Especialista reforça importância da prevenção clínica
Para o médico geriatra e professor do curso de Medicina da Uniderp, Marcos Blini, o avanço de estudos como esse reforça a importância do acompanhamento clínico contínuo de pacientes acima dos 55 anos, especialmente no controle de doenças crônicas.
“Quando a gente entra nessa questão de prevenção das demências, principalmente associadas a exames de sangue e doenças crônicas, a gente precisa olhar muito para a demência vascular, que é a demência por micro AVC. Ela é muito associada a fatores de risco cardiovascular como hipertensão, diabetes, tabagismo e obesidade”, explicou.
Segundo ele, embora o Alzheimer ainda não tenha um marcador laboratorial definitivo, o controle de condições metabólicas pode reduzir significativamente o risco de diferentes tipos de demência.
“O paciente que faz acompanhamento adequado, trata hipertensão, diabetes e colesterol alto diminui muito o risco de demência vascular de forma bastante significativa”, afirmou.
Inflamação crônica ainda é tema em estudo
Sobre o papel da inflamação no envelhecimento cerebral, o especialista alerta para a necessidade de cautela na interpretação de exames isolados.
“Inflamação é um termo muito genérico e ainda pouco definido do ponto de vista técnico. O que a gente sabe é que doenças crônicas mal controladas e hábitos não saudáveis estão associados a um estado inflamatório do organismo”, disse.
Ele reforça que fatores como obesidade, sedentarismo e má alimentação contribuem para esse processo.
“O ideal é o paciente cuidar da saúde como um todo, com atividade física, alimentação adequada e controle de doenças crônicas. Isso é o que realmente ajuda a reduzir inflamação no corpo ao longo dos anos”, completou.
Exame pode ganhar papel complementar no futuro
Na avaliação de Blini, ainda não é possível utilizar marcadores como a razão neutrófilo-linfócito como ferramenta isolada de rastreio para demências na prática clínica.
“Não existe nenhum exame específico que determine risco de Alzheimer. O que fazemos é avaliar a saúde geral do paciente e o controle de fatores de risco. Esses marcadores ainda não têm aplicação direta como diagnóstico ou previsão individual”, afirmou.
Caminho para diagnósticos mais precoces
Apesar das limitações, os pesquisadores da NYU Langone Health acreditam que o NLR pode se tornar uma ferramenta complementar no futuro, ajudando a identificar pacientes que precisam de acompanhamento mais rigoroso ou intervenções precoces.
Enquanto isso, os estudos continuam para entender se os neutrófilos são apenas um marcador associado à doença ou se têm participação ativa no processo de degeneração cerebral.
A resposta a essa questão pode abrir novas portas para tratamentos e estratégias de prevenção em uma das doenças mais desafiadoras da medicina contemporânea.
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