Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Apesar de quase todas as gestantes brasileiras realizarem pelo menos uma consulta de pré-natal, uma em cada cinco não consegue completar o acompanhamento mínimo recomendado pelo Ministério da Saúde. O alerta foi divulgado em estudo da Universidade Federal de Pelotas, com base em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados em 2023 e repercutido pelo The News.
Segundo a pesquisa, a cobertura da primeira consulta chega a 99,4%, mas cai para 78,1% quando se observa a sétima consulta, número considerado essencial para o monitoramento adequado da gestação.
O pré-natal é responsável por acompanhar o desenvolvimento do bebê e a saúde da mãe ao longo da gravidez, permitindo a identificação precoce de doenças como hipertensão, diabetes gestacional e infecções, além de avaliar crescimento fetal, possíveis malformações e riscos que podem comprometer o parto e o pós-parto.
Sem esse acompanhamento regular, aumentam as chances de parto prematuro, baixo peso ao nascer, pré-eclâmpsia e até mortalidade materna.
Desigualdade no acesso ainda chama atenção
O estudo também revela diferenças importantes entre os grupos sociais. Entre mulheres com maior nível de escolaridade, 86,5% conseguem completar as sete consultas recomendadas. Já entre mulheres sem escolaridade, esse número cai para apenas 44,2%.
No recorte racial, a situação mais delicada aparece entre gestantes indígenas: apenas 51,5% concluem o ciclo mínimo de pré-natal, enquanto entre mulheres brancas o índice chega a 84,3%.
A desigualdade também aparece entre adolescentes. Entre gestantes com menos de 20 anos, somente 67,7% realizam o acompanhamento completo.
Regionalmente, a menor cobertura está na Região Norte, com 63,3%, enquanto o melhor índice foi registrado no Sul, com 85%.
Acompanhamento pode evitar complicações graves
A pediatra Dra. Teresa Cristina Maia Lemos, médica cooperada da Unimed Petrópolis, reforça que o pré-natal vai muito além de consultas de rotina e pode ser decisivo para a saúde da criança ainda antes do nascimento.
“O pré-natal é importante para a prevenção de doenças como hipertensão, diabetes e infecções, sejam elas viróticas ou bacterianas. Também permite observar o bom desenvolvimento, crescimento e malformações, o que nos dá a opção de tratar o que é tratável e, em alguns casos, redirecionar a gestante para centros especializados para melhor condução do problema”, explica.
Segundo a médica, diversas situações que levam à prematuridade e ao baixo peso do bebê podem ser identificadas e até prevenidas durante esse acompanhamento.
“Quando se acompanha a gestante no pré-natal, acompanhamos o desenvolvimento do bebê pelo exame físico e ultrassom. Temos algumas situações que pioram esse quadro, como cigarro, drogas, bebida alcoólica, hipertensão arterial e infecções, como urinária, sífilis e toxoplasmose, que são situações que podem ser preveníveis”, afirma.
Ela ainda alerta para os impactos da prematuridade.
“A prematuridade pode causar problemas respiratórios graves”, destaca.
Reflexos também aparecem após o nascimento
De acordo com a pediatra, a ausência de um pré-natal adequado pode trazer consequências que acompanham a criança por meses ou até por toda a vida.
“Com certeza um bom pré-natal pode significar mais saúde para o bebê. Falando da prematuridade, podemos ter problemas respiratórios graves e isso pode atrapalhar o desenvolvimento motor e intelectual”, explica.
Ela também cita infecções que podem deixar sequelas permanentes.
“Temos infecção urinária, que pode dar sepse neonatal, toxoplasmose, que pode causar cegueira e crises convulsivas, e a sífilis congênita, que pode provocar deficiência intelectual, surdez e malformações ósseas. A diabetes também pode levar a malformações cardíacas”, completa.
Para a especialista, a conclusão é clara: “um bom pré-natal é essencial”.
Mesmo com o avanço no acesso à primeira consulta nas últimas décadas, especialistas reforçam que a continuidade do acompanhamento é o que realmente garante mais segurança para mãe e bebê durante toda a gestação.
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