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Feminicídio

Ataualpa A. P. Filho - professor

Foto: Pixabay
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“Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!” Essa frase, que utilizo para iniciar este texto, veio de uma crônica do escritor Lima Barreto, publicada em 27/01/1915, no jornal “Correio da Noite”, com o título “Não as matem”.

A Lei 13.104, que estabeleceu o feminicídio como um crime hediondo, foi promulgada somente em 2015. Isso evidencia o enraizamento do machismo estrutural que, por muitos séculos, mantém-se vivo em diversas partes do mundo.

A inaceitável ideia de que o gênero masculino deve ser concebido como superior e, por essa razão, as mulheres devem ser subjugadas como inferiores e frágeis já era para ser suplantada pelo próprio processo evolutivo da humanidade, uma vez que competências e habilidades femininas estão explícitas em todos os segmentos profissionais. Por isso não é possível silenciar diante de tantas atrocidades. A violência contra a mulher é inadmissível em todos os planos. Em síntese, a violência não pode ser assimilada como algo normal nas relações cotidianas. Portanto, precisa ser denunciada sempre.

Muito se falava que, “em briga entre marido e mulher, não se mete a colher”. Hoje já se tem a consciência de que se deve “meter a colher” e denunciar o agressor. O silêncio conivente pode levar a consequências letais.

Uma das funções do Estado consiste em manter a segurança dos cidadãos e cidadãs. Leis protetivas podem ser criadas, porém tornam-se inócuas se não forem colocadas em práticas. Está comprovado que a violência presente em nosso país se encontra em um gráfico crescente pela omissão do Estado, pela inoperância de órgãos públicos que deveriam cuidar da segurança pública.

Na crônica citada, Lima Barreto já expressara a banalização das agressões sofridas pelas mulheres. Ele disse:

“Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é vontade dos outros.”

O fato de considerar a mulher como um “objeto de posse” leva a ignorar a vontade dela. A liberdade da mulher tem que ser respeitada plenamente, não pode, nem deve ser subjugada à vontade e aos caprichos dos homens. Como ser humano dotado de livre arbítrio, como ser independente, como cidadã, tem o pleno direito de expressar espontaneamente a sua vontade.

O não aceitar o fim de um relacionamento revela, entre outros fatores, a face de um amor fingido. O amor não tem algemas. O amor aflora na liberdade. O amor brota por si e em si.  O ciúme é erva daninha.

A estupidez do machismo é tão grotesca que chega a agredir os próprios homens, limitando-os nas manifestações emotivas. A frase “homem não chora” é insana. O choro não está restrito às lágrimas.  Quantas vezes se chora sem lágrimas?!...

O feminicídio revela o descontrole emocional de homens que sofrem por reprimir os sentimentos. O feminicídio não vem pelo amor verdadeiro que cultua o bem. Vem pelo ódio que neutraliza o viver. O amor é plantado na artéria aorta que leva o sangue para ser distribuído por toda parte do corpo. O amor pulsa o coração...

A masculinidade tóxica também foi descrita por Lima Barreto na mencionada crônica:

“Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.”

A vida é o “mais sagrado”. E é consagrada pelo amor. O matrimônio é uma consagração. A união voluntária só existe a partir da ausência de coerção. Quando o mestre Lima Barreto apela “pelo amor de Deus”, reflete essa nossa impotência diante de assassinatos tão brutais. Pelo ódio obsessivo, os feminicidas não pensam nos filhos. Muitas crianças encontram-se sem o carinho das mães, porque elas foram assassinadas pelos pais dos filhos delas.

São também inaceitáveis as agressões de uma mulher que se vê na condição de “patroa” e passa a agredir outra por considerá-la subalterna. Em suma, nenhuma forma de violência deve haver entre os seres humanos. O diálogo ainda é a melhor via para dirimir conflitos. O amor abre a porta da paz.

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