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Fiandeira

Ataualpa A. P. Filho professor

Foto: Pixabay
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A vida tecida pelo fio das palavras. Maternalmente cantada, contada com a ternura de quem coloca o filho no colo e acalenta-o para sonhar. “Senhora Dona de Casa”. Orgulhosamente se apresentou. Teceu, teceu, teceu, em prosa e versos, o vivido, entrelaçando tristezas e alegrias. Deu asas à realidade para superar obstáculos e seguir com o sorriso erguido.

Vitória é apenas uma consequência da superação dos próprios medos. Vitoriar-se por dentro é o primeiro grito de liberdade.

Reunir forças para suportar as dores sem transferir responsabilidades.

Assinar a sina e registrá-la com arte requer não somente coragem, mas também humildade para assimilar as lições de vida. Carregar o passado na lembrança consiste em preservar raízes. Do espaço em que estão plantadas, vem a agulha imantada da bússola que aponta o norte magnético que conduz o viver.

A Dona de Casa, a escritora, a fiandeira de quem lhe falo tece belas histórias para crianças. Os adultos que ainda carregam as lembranças da infância dentro de si embarcam na garupa do tapete mágico da arte que ela produz. O imaginado pelas vias das fábulas evidencia um processo reflexivo por um raciocínio lógico diante da necessidade de um comportamento social que respeita as diferenças sem exclusões. A ludicidade presente na condução das narrativas dela possibilita a abordagem de sérios problemas sem perder a leveza terna das histórias contadas por mãe antes do sono chegar.

A fiandeira escritora, a escritora fiandeira tece a linguagem por um fluxo melódico que favorece a leitura oral, porque não carrega vocábulos rebuscados. As palavras acompanham o fio da imaginação e espelham a espontaneidade que há no diálogo entre mãe e filho. Pelo que já havia guardado nas gavetas, descobriu-se escritora antes da publicação de seus livros. Os filhos, quando crianças, orgulhavam-se por ter uma escritora em casa. Depois de publicados, as obras ganharam o mundo. Andam por aqui, por aí, por ali, por lá, por não sei onde. São trinta livros editados e muitos ainda por editar. Andam pelas escolas, pelas mãos de educadoras e educadores. Em síntese, estão com os cordões umbilicais cortados, conduto, por onde passam regam a semente da esperança planta por ela: é possível vencer...

Sim. Falo de uma mãe específica, de uma escritora específica. Conheci primeiro os livros dela, depois é que a conheci pessoalmente. E aqui a cito como exemplo de quem soube compartilhar a experiência de vida que permite uma reflexão coletiva.

Na quinta-feira passada (30/04), estive em uma roda de conversa em que ela expôs, sobre a mesa, vários livros de sua autoria para que fossem degustados. Sentada à cabeceira, teceu, com elegância, o fio da realidade pelo tear da vida. Orgulha-se das superações da menina que ouvia as histórias contadas pelo pai. Conduziu a roda de conversa como se estivéssemos na varanda de casa, em um fim de tarde, em um encontro informal com parentes e amigos.

É preciso ter coragem para caminhar pelo passado, revisitar o tempo vivido e expor as mãos calejadas, mas sem perder a alegria exposta no sorriso, sem esconder as lágrimas em lenços de papel. Enquanto ela falava, eu respirava fundo: as mães, as operárias, as comerciárias, as bancárias, as fiandeiras, as bordadeiras, as cozinheiras, as tecelãs, as educadoras, em suma, as mulheres precisam de momentos assim para expor as suas lutas, para compartilhar experiências, para expor suas conquistas...

Sei que a palavra “provocação” tem sido muito ventilada em palestras e conferências com o objetivo de promover debates. Mas aqui quero apenas externar um pensamento que tive enquanto a ouvia falar:

No mês de maio, em que se comemora o Dia das Mães, deveria ter mais reflexões assim, em que as mulheres teriam mais oportunidade de expor as suas lutas para que a realidade ficasse mais exposta e revelada pela arte que produzem, para que o mês das mães não ficasse apenas voltado para as ofertas de consumo anunciadas pelas vias publicitárias.

Sei que são infindáveis as tarefas que as mães exercem no decorrer do dia. Contudo, acho que o contar história para o filho ou para a filha, antes de dormir, consiste em um momento lúdico. As histórias contadas para as crianças nesses momentos que antecedem o sono, geralmente, ficam gravadas no universo imaginário delas.

A literatura nossa de cada dia é gestada continuamente, não dissocia da realidade, nem rejeita o colo materno. A palavra tem o poder de tocar a alma. Escrever é sina que o destino assina.

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