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Fome, irritação e ansiedade: estudo explica por que o humor muda quando ficamos muito tempo sem comer

Foto: Magnific
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Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis

Quem nunca ficou irritado, impaciente ou sem concentração depois de passar horas sem se alimentar? O comportamento, popularmente conhecido como “hangry”, junção das palavras inglesas “hungry” (faminto) e “angry” (bravo), vem sendo cada vez mais estudado pela ciência. Pesquisadores tentam entender por que a fome interfere diretamente no humor e no comportamento das pessoas.

Um estudo publicado neste ano na revista científica The Lancet eBioMedicine apontou que a irritabilidade causada pela fome vai além da simples queda da glicose no sangue. Segundo os pesquisadores, a reação emocional depende também da forma como o cérebro percebe e interpreta os sinais de fome.

De acordo com o neurocientista Nils Kroemer, um dos autores da pesquisa, o organismo aprende ao longo da vida a associar mudanças de humor à necessidade de se alimentar. A percepção consciente da fome seria, portanto, um mecanismo importante de regulação emocional.

A endocrinologista Cynthia Valerio, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), ressaltou que o estudo ainda precisa ser ampliado para outros grupos de pacientes, especialmente pessoas com obesidade ou transtornos alimentares. Mesmo assim, os resultados ajudam a compreender melhor como alimentação, cérebro e emoções estão conectados.

Além da glicemia, o estudo introduz o conceito de “interocepção”, capacidade do corpo de perceber sinais internos, como fome, sede e saciedade. Pessoas que conseguem identificar melhor esses sinais tendem a apresentar menor instabilidade emocional.

Na prática clínica, o tema já é percebido há bastante tempo por profissionais da área da saúde. A nutricionista Rafaela Cogliatti, formada pela Faculdade Arthur Sá Earp (FASE), explica que longos períodos sem alimentação afetam diretamente o funcionamento do cérebro.

“Quando passamos muitas horas sem comer, ocorre uma queda nos níveis de glicose no sangue, que é a principal fonte de energia do cérebro. Isso pode gerar sintomas como irritação, impaciência, dificuldade de concentração, cansaço e até alterações de humor”, afirmou.

Segundo Rafaela, fatores emocionais também influenciam, principalmente em pessoas submetidas a rotinas intensas e estressantes.

“Claro que fatores emocionais e comportamentais também influenciam, principalmente em pessoas que já vivem sob estresse, ansiedade ou rotina intensa. Mas a alimentação inadequada e os longos períodos em jejum acabam potencializando essas reações emocionais”, destacou.

Em cidades como Petrópolis, onde muitas pessoas conciliam trabalho, trânsito e rotina acelerada, a falta de organização alimentar pode impactar diretamente produtividade e bem-estar.

“Quando o organismo fica muito tempo sem receber energia, o corpo entra em um estado de alerta, aumentando o estresse fisiológico. O resultado pode ser queda de rendimento, irritabilidade, dificuldade de foco, compulsão alimentar no fim do dia e escolhas alimentares mais impulsivas”, explicou Rafaela.

A nutricionista Kenya Farnum também reforça que a irritabilidade associada à fome possui relação direta com a alimentação, embora fatores emocionais e ambientais tenham influência importante.

“Quando ficamos muitas horas sem comer, o corpo começa a perceber que está faltando energia, principalmente glicose, que é uma das principais fontes de combustível do cérebro. Nesse momento, aumentam hormônios ligados ao estresse, como cortisol e adrenalina. Isso pode fazer a pessoa ficar mais irritada, impaciente, cansada e ansiosa”, afirmou.

Segundo Kenya, o padrão alimentar atual, baseado em alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar, contribui para oscilações rápidas de energia e fome ao longo do dia.

“O ideal é priorizar proteínas, fibras, vegetais e alimentos menos ultraprocessados, porque eles ajudam a manter a energia mais estável e aumentam a saciedade por mais tempo”, orientou.

As especialistas também destacam que hábitos simples podem ajudar a reduzir episódios de irritação e compulsão alimentar. Entre as recomendações estão evitar longos períodos em jejum, manter refeições equilibradas, beber água regularmente e investir em alimentos que promovam maior saciedade, como frutas, castanhas, ovos, iogurtes e fibras.

Além da alimentação, sono de qualidade, atividade física e atenção aos sinais do próprio corpo também aparecem como aliados importantes para manter o equilíbrio entre saúde física e emocional.

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