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Galeria Berê inaugura no MUHCAB com mostra que celebra ancestralidade

Novo espaço idealizado pela arquiteta Gisele de Paula, reafirma o compromisso com a valorização da arte afro-brasileira no Rio de Janeiro

Aryson Heráclito
Aryson Heráclito

Foi inaugurado em 19 de novembro de 2025, pela arquiteta Gisele de Paula, um novo marco na cena cultural carioca: a Galeria Berê, no Museu de História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no Rio de Janeiro. O espaço nasce com a missão de ampliar a visibilidade da produção artística afro-brasileira e das expressões estéticas que emergem das periferias urbanas, reafirmando o compromisso do Instituto com a diversidade, a equidade e o fortalecimento da arte brasileira. O MUHCAB é um equipamento cultural da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro.

A exposição propõe uma imersão em poéticas que evocam o poder da ancestralidade, o legado das mulheres e a força transformadora dos sonhos. A curadoria é assinada por Marcelo Campos, que reuniu obras e artistas cujas produções dialogam com o tempo, a memória e o afeto como formas de resistência e criação. Entre eles estão Heitor dos Prazeres, Nelson Sargento, Nádia Taquary, Ayrson Heráclito, Thais Iroko, Guilherme Kid, Tia Lúcia, Mercedes Baptista, Bárbara Copque, Caio Luiz, entre outros. “O Instituto Berê é um projeto bastante ambicioso, revolucionário, de pensar junto a Secretaria de Cultura, um espaço tão importante, tão histórico quanto o MUHCAB, para poder trazer artistas de várias gerações, mas sobretudo o estímulo a jovens artistas, sobretudo artistas cariocas. E ao mesmo tempo ter a Gisele de Paula como essa grande organizadora de tudo. Na exposição inaugural eu trabalho a ideia do próprio nome da avó: Berê. A mostra é pensada a partir desse vínculo com as avós. Eu escrevo um texto sobre essa avó, claro que ela vira também uma avó da fábula, afinal ela é todas as nossas avós, ela não é somente a avó da Gisele, da Rejane, mas pensemos então esse Brasil e esse Rio de Janeiro, muitas vezes criados pelas avós”, destaca Marcelo Campos, curador da Galeria Berê.

Depois de assinar a expografia da 36ª Bienal de São Paulo e realizar exposições em Marseille, na França, e na Philadelphia, nos Estados Unidos, a arquiteta Gisele de Paula enfrenta um desafio grandioso na sua própria cidade. “Mais do que um novo espaço, a abertura da Galeria Berê representa a consolidação de uma trajetória que une arte, território e identidade. O MUHCAB está localizado na região da Pequena África, por isso, honrar nossas raízes e nossos antepassados é a principal premissa deste projeto”, destaca a arquiteta que homenageou a avó ao dar seu nome à galeria.

Como parte do Instituto Berê, nasce a Galeria Berê, da vontade de estabelecer diálogos e conexões dedicados à arte afro-brasileira. Mais do que uma galeria, é um território vivo de trocas, escuta e criação um lugar onde o passado e o futuro se encontram através da força transformadora da arte. O Instituto surge como uma homenagem à Berê, mulher cuja trajetória foi marcada pela generosidade, pela sensibilidade e pela capacidade de transformar tudo o que tocava em cuidado e beleza. Inspirado por essa energia, o espaço se dedica a promover visibilidade, reconhecimento e oportunidades para artistas afro-brasileiros, fortalecendo a representatividade e a pluralidade no campo das artes visuais.

Com a Galeria Berê, o Instituto amplia seu alcance e se firma como um importante agente na construção de novos imaginários para a arte afro-brasileira contemporânea, criando pontes entre artistas, comunidades e o público em geral. Antes mesmo da inauguração oficial, em 15 de novembro, a Galeria Berê recebeu o ator e escritor Lázaro Ramos para o lançamento de seu novo livro. Intitulada “Descobrindo a minha história”, a obra aborda, de forma sensível e contundente, temas como identidade, afeto, pertencimento e resistência. Além da sessão de lançamento, Lázaro conduziu uma roda de conversa com o público e percorreu os espaços da galeria.

Quem foi Berenice Santos de Paula?

Berenice Santos de Paula, a Berê, nasceu em 1º de abril de 1937, em Divina Pastora, Sergipe. Mulher negra de origem simples e trabalhadora, veio para o Rio de Janeiro aos 14 anos, acompanhada das irmãs, em busca de uma vida melhor. Analfabeta na infância, decidiu estudar já adulta, movida pelo desejo de ler a Bíblia. Vaidosa, perfumada e de presença doce e firme, Berê representava a força silenciosa de uma geração de mulheres negras que sustentaram famílias e sonhos com dignidade e fé. Faleceu em 2012, aos 74 anos, deixando um legado de amor e ancestralidade que inspira o nome e o propósito do instituto e da Galeria Berê.

O Instituto Berê

Além das exposições, o Instituto desenvolverá projetos educativos e programas de residência artística, voltados à formação e profissionalização de artistas periféricos, ampliando suas possibilidades de inserção no circuito cultural e institucional. Essas ações visam consolidar o Instituto Berê como um centro de referência para a arte contemporânea afro-brasileira, atuando com compromisso ético e social.

MUHCAB

O Museu de História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), localizado na histórica região da Pequena África, no Rio de Janeiro, desempenha um papel fundamental na preservação, promoção e valorização da história e da cultura afro-brasileira. Situado em um território que abriga marcos emblemáticos, como o Cais do Valongo reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade , o MUHCAB se dedica a  narrar as histórias de resistência, adaptação e transformação da população negra no Brasil. Sua atuação conecta passado e presente, promovendo reflexões profundas sobre o impacto da cultura afro-brasileira na formação da sociedade brasileira e na luta por equidade.

Desde sua fundação em 2017, por meio do Decreto Municipal nº 43128/2017, o MUHCAB consolidou-se como um marco da museologia social e da preservação da memória histórica. O edifício onde está instalado carrega sua própria trajetória:  construído no final do século XIX, já abrigou a Escola de Santa Rita, a Escola José Bonifácio e a Biblioteca da Gamboa. Na década de 1980, transformou-se no Centro Cultural José Bonifácio, firmando-se como referência na valorização das narrativas e expressões culturais afro-brasileiras.

Hoje, o MUHCAB é um espaço central para a preservação e difusão do patrimônio material e imaterial da cultura afro-brasileira. Parte integrante da Rota Histórico Interpretativa do Circuito da Herança Africana, o Museu conecta 15 lugares de memória, entre eles o Cais do Valongo e a Pedra do Sal, que evocam as histórias de diáspora,  resistência e construção da identidade negra no Brasil. Esses espaços oferecem importantes reflexões sobre as lutas por liberdade e a riqueza cultural que moldaram o país.

Mais do que um guardião da história, o MUHCAB afirma-se como um espaço vivo e dinâmico de acolhimento e promoção cultural. Por meio de exposições, oficinas,  debates, eventos artísticos e atividades comunitárias, o Museu celebra a vitalidade das expressões culturais afro-brasileiras, promovendo o diálogo entre memória, identidade e contemporaneidade.

O papel do MUHCAB como espaço de encontro e celebração cultural vai ao encontro dos fundamentos da museologia social, ao ressignificar as práticas museológicas que preservam objetos e a memória do passado enquanto se conecta às demandas e expressões do presente, garantindo que histórias de luta e resistência sejam contadas e vividas de forma contínua. Reconhecer e valorizar as vivências, vozes, experiências e tradições que perpetuam e transformam o legado negro no Rio de Janeiro é um compromisso essencial para contar essas narrativas.

Galeria Berê

Visitação: de terça a domingo 10h às 17h entrada gratuita

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