Edição anterior (2513):
sábado, 25 de setembro de 2021
Ed. 2513:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2513): sábado, 25 de setembro de 2021

Ed.2513:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
Gastão Reis
COLUNISTA

    

 

 
 
ANALFABETISMO FUNCIONAL, STEVE JOBS E CRIATIVIDADE           
                                                                                                                                                                                                                                                                       
                                                                                                                                       
      O INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional aborda a questão da alfabetização no país indicada por faixas: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente. No nível proficiente, de 2015 para 2018, houve um aumento de 8 para 12%, o que significa pessoas capazes de elaborar textos de diferentes tipos e de interpretar tabelas e gráficos. Se incluirmos a faixa intermediário, de 25%, atingimos 37%, pouco mais de um terço.  Mas a faixa intermediária de 25% não reflete amplo domínio da língua: ler, entender e escrever com desenvoltura.
      Uma interpretação mais rigorosa do analfabetismo funcional, aquela pessoa que até consegue ler, entende com deficiências um texto e tem dificuldade de se expressar por escrito (indicador que mede a capacidade de pensar de moto próprio), vamos bater numa situação dramática. Apenas cerca de um em cada quatro brasileiros pode se situar na categoria de funcionalmente alfabetizado, a despeito de o INAF nos fornecer um percentual de 71% em 2018 por incluir no grupo a faixa elementar (34%), com sua evidente insuficiência. Somos um país que funciona 3/4 abaixo de seu potencial, ou 2/3 abaixo, se aceitarmos a definição menos rigorosa. Uma situação precária na exigente sociedade do conhecimento, como a definiu o famoso Peter Drucker.
      Em artigo publicado no saudoso Jornal do Brasil (JB), em 17/09/2007, intitulado “O Cacoete Gramatical”, eu criticava o excesso de gramática nas aulas de português em detrimento da análise e interpretação de textos com destaque para redação, um exercício que habilita o aluno a pensar por si mesmo. O caso de Machado de Assis é emblemático. Praticamente não teve educação formal. As questões gramaticais não eram seu xodó, mas ler e escrever, sim, quer dizer, interpretar e pensar. “Eu aprendo investigando” era o mote de sua (luminosa) criatividade literária. Hoje é considerado um dos grandes escritores da humanidade.    
       Dizia eu então: “Tomemos uma aula de inglês num filme americano ou inglês. Os professores estão sempre debatendo um texto com os alunos, focados em sua análise e interpretação. Ou estão discutindo as redações feitas por eles. Eu não me lembro de uma cena nesses filmes dedicada ao estudo da gramática inglesa. O inglês é uma língua quase simplória em sua gramática quando comparada, por exemplo, à complexidade gramatical do português. O fato de a melhor gramática em língua inglesa ter sido escrita por um holandês (informação dada por um professor meu da Cultura Inglesa nos idos de 1965) dá bem a medida do apreço de americanos e ingleses por sua gramática”.
       É uma meia verdade afirmar que sem ler muito não se escreve bem. Para Simone de Beauvoir, “escrever é um ofício que se aprende escrevendo”. Ler muito não é suficiente. Nessa linha, podemos afirmar que pensar é um ofício que se aprende exercitando o pensamento. E nada melhor do que escrever para pôr em prática esse mandamento do saber escrever. Afinal, como já foi dito, escrever bem é pensar bem.
       É aqui que entra o Steve Jobs de um modo que não é exatamente aquele de seus grandes êxitos: imac, ipod, itunes, macbook, iphone, ipad etc. Trata-se de um efeito colateral positivo no Brasil. É verdade que a boa notícia não é mérito exclusivo dele. Tem muito a ver com a atual idade da Tecnologia da Informação (TI) e toda sua parafernália eletrônica, em especial o celular.
      Ainda me lembro bem, ao longo de minha vida, desde jovem, do pequeno número de pessoas em nossas conduções coletivas lendo um livro ou jornal. E assim o foi por muito tempo. Até que, nos últimos anos, passei a notar a quantidade de pessoas, jovens e adultos, com o celular nas mãos não só lendo, mas também escrevendo. Um crítico exigente vai contra-argumentar que teria muita bobagem e fofoca. Confesso que discordo. Ler e escrever no celular nos coletivos deveria ser motivo de celebração. Eu me explico.
      Nos tempos iniciais da Petrópolis-Tecnópolis, de que participei ativamente como Conselheiro e presidente da Regional Serrana da FIRJAN, o tema da convergência das mídias era central na área de TI. Na prática, a proposta era dotar o celular de múltiplas funções como busca instantânea de informação, possibilidade de fotografar, transmitir textos, gravar vídeos, filmar e diversos outros recursos que hoje estão disponíveis nos smartphones.
      Sabemos que Steve Jobs teve um papel fundamental nesse processo de colocar num celular essas mídias diversas ao simples toque de nossos dedos. Coisa que parece mágica para quem nasceu no século passado como eu. Não só isso. A despeito das fake news, o celular permitiu à população ter acesso a informações que a grande mídia não veiculava por conveniência nem sempre a serviço do interesse público ou da verdade factual. A desculpa de que buscava filtrar a veracidade das informações a serem repassadas não a impedia de as transmitir por vezes com viés informacional. Ou seja, criar no(a) leitor(a) ou no público que ouvia rádio e assistia TV uma visão distorcida dos fatos, que é uma variante do que hoje denominamos fake news.
      O celular tem um apelo lúdico que o jornal e o livro não dispõem na mesma intensidade e mais a facilidade de levá-lo no bolso. Ele nos permite assistir um vídeo ou transmiti-lo após filmar uma cena familiar ou de rua; ler um livro que está em sua memória; ou até acompanhar um debate sem incomodar o vizinho usando um dispositivo como o earphone (fone de ouvido).
      Minha aposta vai na direção do aumento significativo, nos próximos anos, (entre 2015 e 2018, já foi de 8 para 12%!) do público definido como proficiente em função do treino de ler e escrever no celular diariamente. Exatamente o que a escola pública no ciclo do ensino básico não conseguiu realizar em função de sua baixa qualidade. E aqui cabe um agradecimento a Steve Jobs e aos vivos ou mortos que contribuíram nessa façanha de inventar uma ferramenta que nos leva a pensar investigando, que é o caminho da criatividade, bem ao jeito de Machado de Assis.   
           
(*)Autor de “Revele-se Empreendedor” e de “A Falência da Res Publica” dispo-níveis em versão digital na internet ou impressa em vendas@linodigi.com.br
         
Contatos:                                                .                                   
E-mails: gastaoreis@smart30.com.br// ou gastaoreis2@gmail.com
 


Edição anterior (2513):
sábado, 25 de setembro de 2021
Ed. 2513:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2513): sábado, 25 de setembro de 2021

Ed.2513:

Compartilhe:

Voltar: