Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Caen, na França, pode representar um avanço importante no diagnóstico precoce de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. O sistema utiliza inteligência artificial acoplada a uma espécie de esteira ergométrica para identificar alterações sutis na caminhada e no comportamento cognitivo dos pacientes antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos.
Segundo os cientistas, a ferramenta conseguiu triplicar as chances de prever o desenvolvimento dessas doenças durante os testes iniciais. A proposta é criar uma “janela de oportunidade” para intervenções precoces e acompanhamento médico antecipado.
O equipamento funciona por meio de plataformas de força instaladas na esteira, capazes de medir a distribuição do peso corporal a cada passo. Enquanto caminha, o paciente também realiza tarefas cognitivas simultâneas, como identificar palavras e cores, permitindo avaliar a capacidade do cérebro de dividir atenção, uma das primeiras funções afetadas nas doenças neurodegenerativas.
Além disso, sensores e câmeras analisam tempo de reação, movimentos articulares e até padrões vocais. Todas as informações são interpretadas por algoritmos de inteligência artificial, que criam um perfil individual da marcha do paciente.
Especialista pede cautela
Apesar do potencial da novidade, o neurologista Dr. Carlos Augusto Nunes, médico cooperado da Unimed, avalia que ainda é cedo para afirmar que a tecnologia será decisiva na prática clínica.
“Eu desconheço esse trabalho especificamente, mas acredito que isso ainda precise ser melhor estudado, com uma escala maior de pacientes, para avaliar se realmente haverá um benefício prático no diagnóstico precoce dessas doenças”, explicou.
O especialista destaca que, atualmente, os sinais mais importantes para detecção antecipada continuam sendo os chamados sintomas premonitórios, que podem surgir muitos anos antes das manifestações mais conhecidas.
Sinais podem aparecer até uma década antes
No caso do Parkinson, Dr. Carlos afirma que alguns sintomas podem surgir de 10 a 12 anos antes do diagnóstico.
“Uma constipação intestinal persistente sem causa aparente, perda do olfato e alterações no sono são exemplos importantes. Existe um distúrbio comportamental do sono REM que é altamente sugestivo de desenvolvimento futuro da doença de Parkinson”, afirmou.
Já em relação ao Alzheimer, os sintomas iniciais costumam ser mais discretos.
“Muitas vezes o paciente começa a perceber dificuldades de memória, mas os exames ainda não mostram alterações. Esse déficit cognitivo subjetivo pode anteceder o diagnóstico em alguns anos”, explicou o neurologista.
Desafio passa pela conscientização
Embora novas tecnologias avancem no exterior, especialistas apontam que o maior desafio para cidades como Petrópolis ainda é ampliar a conscientização da população sobre os sinais iniciais dessas doenças.
“A melhor maneira de fazer diagnóstico precoce é orientar a população sobre os sintomas iniciais, para que as pessoas procurem assistência médica mais cedo. Quando detectadas precocemente, muitas vezes conseguimos retardar ou atenuar a evolução dessas doenças”, destacou Dr. Carlos Augusto Nunes.
A expectativa dos pesquisadores franceses é que a tecnologia passe a ser testada em larga escala nos próximos anos. Uma versão simplificada do sistema, utilizando apenas smartphones para captar imagens da caminhada dos pacientes, também está em desenvolvimento.
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