Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário
Ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina de estudantes, profissionais e empresas. Em poucos segundos, plataformas como ChatGPT, Gemini e Claude conseguem escrever textos, resumir conteúdos, organizar pesquisas e até sugerir ideias criativas. Mas, enquanto a tecnologia avança e se populariza, cresce também a preocupação de pesquisadores e profissionais da saúde sobre os possíveis impactos do uso excessivo dessas ferramentas na capacidade de pensar, memorizar e criar.
Estudos recentes publicados internacionalmente apontam que a dependência exagerada da inteligência artificial pode afetar habilidades cognitivas importantes, como criatividade, pensamento crítico, concentração e memória. Especialistas comparam o fenômeno ao que já ocorreu com outras tecnologias ao longo dos anos: o GPS, por exemplo, reduziu o hábito das pessoas de memorizar caminhos, enquanto os mecanismos de busca diminuíram a necessidade de guardar informações na memória.
Agora, pesquisadores acreditam que a inteligência artificial pode provocar um novo tipo de “terceirização mental”, em que parte do esforço intelectual é transferida para máquinas.
O professor de neurociência Adam Greene, da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, explica que o cérebro precisa ser constantemente estimulado para manter determinadas habilidades ativas. Segundo ele, quando o indivíduo deixa de exercitar certos tipos de raciocínio, essa capacidade tende a enfraquecer com o tempo.
A preocupação ganhou força após pesquisas apontarem que usuários frequentes de ferramentas de IA apresentaram desempenho inferior em testes de pensamento crítico. Outros estudos também indicam que o excesso de respostas prontas pode reduzir o esforço mental necessário para desenvolver ideias próprias e soluções criativas.
Apesar disso, especialistas destacam que a tecnologia não deve ser vista apenas como vilã. Para o neuropsicólogo Jared Benge, da Universidade do Texas, o impacto depende diretamente da forma como a inteligência artificial é utilizada. Segundo ele, se usada de maneira equilibrada, a ferramenta pode ajudar a aliviar tarefas repetitivas e permitir maior foco em atividades mais relevantes.
Ainda assim, o crescimento acelerado do uso da IA tem levantado discussões importantes também em cidades como Petrópolis, onde estudantes, profissionais e empresas estão cada vez mais conectados e dependentes de tecnologia no cotidiano.
A psicóloga clínica Regina Nascimento Resende, formada pela Universidade Católica de Petrópolis, avalia que o uso indiscriminado dessas plataformas pode trazer consequências principalmente para crianças e jovens em fase de desenvolvimento cognitivo.
“O uso excessivo de IA para trabalhos escolares, trabalhos acadêmicos e até profissionais, porque já existem advogados, jornalistas e professores fazendo uso dela, provavelmente vai deixando o cérebro mais preguiçoso, porque o cérebro não se percebe sendo desafiado. Uma coisa é você sentar, fazer uma pesquisa, consultar periódicos e livros para desenvolver um pensamento crítico, uma resenha crítica sobre algum assunto. Outra coisa é você colocar numa forma e a resposta vir pronta para você. Então, a capacidade de concentração, de memória e a criatividade, né? Essas funções cognitivas, que são muito importantes para o ser humano, vão sendo menos utilizadas e, consequentemente, menos desenvolvidas. Então, se um jovem ou uma criança, desde cedo, já começa a agir dessa forma, a ter suas questões pedagógicas resolvidas dessa maneira, como essa criança vai chegar ao ensino médio ou à faculdade tendo um pensamento crítico e uma capacidade de resolução de problemas sem uma resposta pronta? Ela não vai saber como fazer isso, ela não vai ter as ferramentas necessárias. Antigamente, gente, eu sou do tempo da Barsa, em que quem não tinha uma Barsa em casa tinha que ir à biblioteca pública para fazer pesquisa. Depois veio o computador, que facilitava muito, mas mesmo assim você ainda tinha que abrir muitas abas para encontrar o que queria. Depois veio o Ctrl C, Ctrl V e agora, para piorar, a IA, entendeu? Isso vai realmente fazendo com que as funções cognitivas das quais o cérebro precisa para estar sempre em desenvolvimento, criando mais sinapses, criando mais conexões e sendo cada vez mais esperto, entre aspas, sejam menos estimuladas.”
A título de informação, a Barsa, mencionada no comentário acima, é a mais famosa enciclopédia brasileira, que funcionava como um "Google de papel" antes da popularização da internet.
Além da perda de concentração e da diminuição do pensamento crítico, outro ponto que preocupa especialistas é a dificuldade crescente em lidar com processos mais lentos, que exigem paciência e esforço mental.
Pesquisas recentes sugerem que o acesso instantâneo a respostas pode tornar as pessoas menos tolerantes ao tempo necessário para aprender, refletir e amadurecer ideias. Segundo estudiosos, isso pode impactar principalmente adolescentes e jovens adultos, acostumados à lógica da rapidez e do imediatismo digital.
Regina Resende observa que essa mudança já pode ser percebida no comportamento cotidiano.
“Sim, o excesso de respostas prontas vai deixando a pessoa mais intolerante em relação ao tempo. Tudo tem que ser para ontem, tudo tem que ser muito rápido. Tudo precisa estar muito claro, sem muito esforço, é a lei do menor esforço. E isso pode realmente comprometer a paciência, a tolerância, o desenvolvimento mental e o desenvolvimento cognitivo das crianças, dos jovens e até dos adultos. Antes de dormir, a pessoa lia um livro; hoje, ela fica navegando no celular, o que prejudica muito um sono saudável. E, quando o sono não é saudável, compromete o dia seguinte, né? Então, o que acontece? É um círculo vicioso muito negativo, em que você está sempre diante de uma tela, o tempo todo resolvendo tudo, recebendo tudo pronto, estando refém do algoritmo. Isso não é positivo. Não sabemos que tipo de geração está sendo desenvolvida. A história não se faz no momento presente, né? A história é contada a posteriori. No futuro saberemos o quanto tudo isso impactou o desenvolvimento e o crescimento da humanidade como um todo. Só no futuro vamos saber. Hoje já não está bom, né? Hoje já não está bom. Nós percebemos os jovens muito menos pacientes e muito mais estressados em relação a esperar que o tempo cumpra o seu papel no amadurecimento. A tendência é que esses jovens sejam adultos assim também. E as conexões já estão muito comprometidas, porque existem coisas que demandam tempo. Você não pode apressar o rio. Você não pode apressar o amadurecimento do ser. Mas, se você vê jovens e crianças de seis anos já expostos às telas, como essa criança estará desenvolvendo uma maturidade minimamente conectada com a criatividade, com a descoberta e com o encantamento diante da vida, se está tudo pronto ali na tela? Está tudo pronto. Ela não precisa pensar em nada, porque tudo é oferecido para ela.”
Outro aspecto discutido por especialistas envolve o impacto social desse excesso de conexão digital. Em Petrópolis, cidade marcada por clima mais frio e hábitos tradicionalmente mais reservados, profissionais da saúde mental alertam que a substituição das interações presenciais pelas telas pode intensificar o isolamento social.
Segundo Regina, o avanço da inteligência artificial também modifica relações humanas, hábitos de convivência e formas de aprendizado coletivo.
“A indicação é o isolamento, né? Petrópolis já é uma cidade que, até por conta do clima e da forma como foi fundada, tem pessoas mais reservadas. E, quando a inteligência artificial, as telas e o algoritmo substituem, de alguma forma, o contato olho no olho, em que as pessoas podem trocar informações, trocar afetos e estarem ligadas umas às outras, isso vai impactar a saúde mental da população como um todo. Veja um exemplo: antigamente, nós íamos ao cinema. Depois, as pessoas passaram a ir menos ao cinema, que era um programa em que elas se encontravam, estavam ali num ambiente coletivo participando de um mesmo lazer. Aí, as pessoas passaram a ficar mais em casa. Depois tivemos a pandemia, e as pessoas ficaram ainda mais em casa. Agora tem a inteligência artificial. Então, o que acontece? Sabe aquela atividade de reunir os jovens para fazer um trabalho em grupo? Cada um faz na sua casa e envia para um que fica incumbido de organizar aquele material. Os jovens não se reúnem mais para fazer um trabalho em grupo, entendeu? E isso vai deixando as pessoas cada vez mais isoladas. Isso fere a ideia de sociedade. Sociedade, a pólis, sabe? O conviver, o estar junto. A sociedade foi fundada a partir desse princípio. E isso está se perdendo, de alguma maneira.”
Apesar das preocupações, especialistas ressaltam que o caminho não é abandonar a inteligência artificial, mas aprender a utilizá-la de forma mais consciente e equilibrada. Entre as recomendações estão evitar aceitar respostas prontas sem questionamento, exercitar a escrita e a criatividade sem auxílio imediato da tecnologia, fazer leituras completas sem recorrer apenas a resumos automáticos e reservar momentos do dia longe das telas.
Pesquisadores defendem que o esforço mental continua sendo essencial para o desenvolvimento do cérebro humano, especialmente em um momento em que pensar de forma original pode se tornar justamente o maior diferencial das pessoas diante das máquinas.
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