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José Luiz Alquéres

CIDADE – ESPAÇO DA DIVERSIDADE E DA TOLERÂNCIA

As cidades que atingem certo porte se caracterizam pela diversidade entre seus habitantes. São pessoas de diferentes origens étnicas, profissões, idades, ocupações, horários de trabalho. Pessoas que vivem em família ou sozinhas. Pessoas que vivem dramas pessoais por causas de doenças ou problemas financeiros. Pessoas alegres, namorando, casando, praticando esportes. Algumas no início da vida demandando serviços e comércio de um tipo totalmente diferente de outras de perfil mais idoso, por exemplo.

A densidade de ocupação característica das cidades, ou seja, a proximidade em que as pessoas vivem umas das outras, seja em casas, comunidades, conjuntos habitacionais ou condomínios, expõe tal diversidade a um duro teste: Há que se conviver com “inconvenientes” tipo choro de crianças, irritação de adolescentes, música alta, bisbilhotice da vizinha, inveja do sucesso alheio, etc.

Mesmo em família pode ser difícil viver, às vezes. São pessoas diferentes, embora ligadas por laços de sangue e, desejavelmente, de amor. Ainda assim, pode vir a ser complicado quando tal proximidade obriga a convivência entre aqueles de perfil muito distintos entre si. No trabalho os relacionamentos são mais disciplinados, mas, quando se vai para casa, imagina-se que se vai para um território próprio, mais livre onde se possa ser o que se queira ser.

Não são poucas as questões que afloram, décadas após o processo de urbanização acelerada no Brasil. Condomínios e comunidades apertados, sem áreas de lazer, muitas vezes em condições sub-humanas de vida. A legislação nacional e sua profusão de leis e, adicionalmente, as próprias convenções reguladoras de condomínios e loteamentos até tentaram dar uma certa ordem nisso. Mesmo assim, abundam as causas judiciais que tratam de conflitos de relacionamento em ambiente urbano.

Nos anos 50, quando a nossa urbanização ensaiava decolar, o programa cômico de maior audiência do rádio brasileiro chamava-se "Balança mas não cai", apelido de um edifício de muitos apartamentos no Rio de Janeiro. O programa explorava os malentendidos, briguinhas, anedotas da nova vida em comum dos moradores. Agora imaginem o desafio da vida comum em uma cidade moderna com toda a sua complexidade. Horários, usos dos espaços públicos, funcionamento dos serviços e tudo mais. Será que pode haver uma maneira racional de contentar plenamente a todos?

Creio que não, mas, ainda assim, há uma maneira de fazer da vida nas cidades algo que pode ser bem agradável para todos. Ela se chama o exercício da tolerância, o respeito à diversidade de opiniões e o compromisso maior com o bem comum e coletivo – o que exige certa renúncia à pequenas conveniências pessoais.

A maior dificuldade para haver esta tolerância vem de um caráter muito humano de se entender dono da verdade. Esta “posse da verdade”, na realidade, tem origem em questões ideológicas que, não raramente, remete a uma questão religiosa: “Um Deus único, uma verdade única. Se estou com Ele, então estou certo. Logo, quem não crê está errado”. De certa forma somos levados a este dilema: uns “certos” e outros “errados”. E os “errados”, quando em minoria, costumam ser perseguidos ou discriminamos pelos “certos”.

Algumas religiões exacerbam este caráter exclusivista da verdade. A ferro e fogo. Isso é primitivo! Olhem as terríveis guerras de religião ou genocídios étnicos pelo mundo. O catolicismo tem procurado através do seu líder, o Papa, unir em uma espiritualidade (alguns dirão, em um humanismo – ou no exercício maior da caridade cristã) os homens de boa vontade em torno do amor ao próximo. Muitos outros líderes políticos como Mandela ou Obama ou religiosos como o Dalai Lama tem feito o mesmo. Isto parece ser essencial atualmente, quando, novamente, temos visto em escala crescente homens perseguindo uns aos outros por razões de etnia, religião, nacionalidade, posse de bens, etc.

O mundo de guerras por uma verdade única imposta na marra, que parecia realmente enterrado neste processo de globalização que coloca em contato povos com as mais variadas tradições dá mostras de querer reaparecer. As redes sociais e sua divulgação intensa de informações verdadeiras e falsas, tudo misturado, andam a criar o mundo da “pós-verdade”, onde mentiras fazem um enorme estrago antes de serem substituídas por outras mentiras ou verdades, que nunca terão o dom de compensar os erros da mentira anterior. Caminhamos assim para o que poderíamos chamar o mundo da “poliverdade”, o mundo da verdade de cada um.

Acredito que este seja um estágio que vai predominar nos tempos atuais: a pluralidade das opiniões. Em nenhum lugar ela é exercida mais contundentemente do que nas cidades. E isso se reflete na avaliação que temos que fazer dos nossos homens públicos.

Viver bem exige TOLERÂNCIA. Entendermos todos que não somos donos da verdade, que nossos vizinhos, colegas de trabalho ou aqueles que se dedicam à vida pública são merecedores não apenas de nossa crítica mas, fundamentalmente, da nossa ajuda e contribuição.

Para o habitante da cidade, participar da vida pública é uma obrigação que exige que se saiba conviver com as verdades alheias em prol do bem comum. Isto se dá, justamente, por meio do exercício da tolerância.

Os processos de planejamento participativo são a maneira civilizada de incorporar estes diferentes enfoques e pontos-de-vista em políticas públicas e projetos. É a forma que viabiliza o atendimento à multiplicidade de enfoques e aspirações promovida pela diversidade cultural nas cidades.



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