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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

 

PISANDO NO ACELERADOR

Os primeiros 100 dias de um presidente da república no poder são sempre esperados como um período crítico, quando ele deve mostrar a que veio.

Não se sabe de onde saiu esta expectativa. Talvez dos 100 dias entre a volta de Napoleão Bonaparte do seu exílio na ilha de Elba e sua derrota em Waterloo. Talvez dos revolucionários primeiros 100 dias de Roosevelt na presidência dos Estados Unidos, onde pegou um país quebrado - com os veteranos da 1ª Guerra Mundial acampados no Mall para reclamar seus soldos atrasados enquanto os efeitos da Grande Depressão grassavam por todo país - e enfrentou a situação com um pacote de leis que reformaram o sistema bancário, lançaram um programa de desenvolvimento regional e da infraestrutura, criaram leis de governança e do mercado de capitais, promoveram a eletrificação rural e, no conjunto, mudaram a face do país.

Ao completar 100 dias no governo na semana passada, redimindo os Estados Unidos da pífia atuação ambiental nos anos Trump, o Presidente Biden anunciou para 40 chefes de Estado por ele reunidos em Washiungton, compromissos relevantes com o ambiente para prevenir o agravamento das mudanças climáticas. Ele propôs a redução das emissões americanas em 50% até 2030 e as ações para que as emissões líquidas de gases de efeito estufa sejam zeradas até 2050. Xi Jinping, líder chinês, hoje o país maior emissor, anunciou que a China chegaria a este objetivo em 2060. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em mudança da política que vinha praticando, anunciou que o Brasil reduziria igualmente suas emissões a zero em 2050 e protegeria de modo mais eficaz a Amazônia. Índia e Rússia igualmente se comprometeram, sem citar números, em implantar ambiciosos e desafiadores programas para ambos, visto suas respectivas dependências ao carvão e ao gás natural.

Os efeitos de tais anúncios ainda estão sendo digeridos, tanto por sua magnitude quanto pelo risco à credibilidade dos presidentes presentes. Algo é fora de dúvida: o mundo vai começar a mudar mais rápido.

Além de todas as mudanças que já experimentamos pelo progresso das telecomunicações, digitalização, automação, urbanização e outros fatores, vamos viver a maior mudança energética que o mundo já sofreu. E num curtíssimo espaço de tempo, desta vez, felizmente, para chegarmos a um mundo melhor, mais sustentável e mais fraternal.

Negócios desaparecerão e novos negócios surgirão. As grandes empresas terão que se reinventar adotando os protocolos de "ESG", ou seja, padrões elevados de respeito ao meio-ambiente, sustentabilidade econômica e social e governança. Esta evolução será inevitável e causará aumento expressivo da competitividade no mundo. O Brasil, desde já, deveria atuar para pular na frente deste processo. Liderá-lo, sacudindo a lentidão de decisões, as discussões espúrias e o negacionismo ao desenvolvimento científico.

As medidas que os Estados Unidos estão listando para cumprir esta meta mostram a escala da mudança. Elas compreendem ações como: não iniciar a construção de qualquer usina de geração a carvão ou a gás (salvo capturando a integralidade das emissões, o que muito as encarece); eletrificar todo o transporte terrestre e usar combustíveis limpos (hidrogênio e etanol) onde necessário; eletrificar os novos edifícios e converter para eletricidade o aquecimento e os fogões nas residências antigas; promover a eficiência energética pelo uso de materiais que não sejam intensivos em emissão de carbono em sua fabricação; adotar o uso de eletrodomésticos e equipamentos industriais mais eficientes; produzir hidrogênio de origem na hidrólise da água ou via osmose reversa do gás natural; converter as. práticas atuais para se ter uma agricultura sustentável com redução da pegada hídrica e de carbono via uso racional de fertilizantes e outras. As fontes de energia para isso serão a solar, a eólica e a nuclear.

A abrangência dessas medidas e o curto horizonte de tempo, até 2030, para que estejam disseminadas, fazem deste o desafio do século. O objetivo é interromper o aumento de temperatura médio na superfície terrestre que vem crescendo cerca de um grau centígrado a cada 10 anos, o que resultará, se nada for feito, em tragédias demográficas e ambientais.

Os chefes de Estado voltarão a se reunir na cidade de Glasgow, em novembro deste ano. Espera-se a presença de 193 países, e não os mesmos 40. Todos os países do mundo. Como um programa desses só se viabiliza com adesão generalizada, e os maiores países estão comprometidos, é de se esperar retaliações fortes, comerciais e financeiras, aos países que não aderirem a esta agenda. Para isso, um dos segmentos mais ativos é o setor financeiro e de seguros. Ele já está criando restrições que fazem empresas se desfazer de seus ativos ambientalmente não sustentáveis como muitas do setor de produção de petróleo.

Os órgãos reguladores e os tribunais de justiça de vários países também ameaçam tomar medidas, imputando responsabilidades a dirigentes empresariais que ponham em risco os compromissos de segurança e sustentabilidade.

O Brasil deve com urgência conhecer e praticar as medidas desta agenda ambiental. Embora não seja um dos maiores emissores, sua inserção no mundo global vai exigir a criação de uma visão positiva com relação à sua atuação na proteção da Amazônia e da qualidade de vida do nosso povo.



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