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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

 

Of Mice and Men

Esta crônica bem poderia ter o título do livro de Steinbeck, que pode ser traduzido como Sobre Ratos e Homens.

Nos tempos que a química apenas começava a se livrar da pecha de bruxaria, o químico e teólogo inglês Joseph Priestley (1733/1804), realizou uma experiência que deixou a todos pasmos, mas que até hoje pode nos ensinar o básico sobre certos fenômenos que nos preocupam.

Ele colocou em um recipiente de vidro, hermeticamente fechado e cheio de dióxido de carbono ( sinônimo de gás carbônico, na época denominado ar fixo) uma pequena planta e a expôs à luz. Verificou que a planta se desenvolvia, caule e folhas. Processo mais tarde denominado fotossíntese. As plantas são compostas basicamente por carbono, o elemento constituinte do carvão vegetal, que elas capturam em grande parte do dióxido de carbono. Carbono é vida atual ou vidas passadas e a parte da química que estuda seus compostos, por isso chama-se Química Orgânica.

Priestley repetiu a experiência colocando no recipiente , igualmente cheio do dióxido do carbono, um ratinho, que naturalmente. morreu asfixiado..

O mais surpreendente ocorreu quando colocou no mesmo recipiente a planta e outro ratinho e ambos sobreviveram.

Na época já se sabia do papel dos pulmôes nos mamíferos, transformando o sangue venoso em arterial, pela sua aeração. Assim, foi intuído que o rato, ao inalar o ar do ambiente, retinha o oxigênio no seu sangue e exalava, como produto da queima de energia do seu corpo, o gás que alimentava a planta. Priestley anos depois conseguiu isolar o elemento oxigênio, tão vital para a vida, como constatamos agora pela sua criminosa falta em Manaus durante a pandemia, coisa de ratos e não de homens.

A discussão de mudanças climáticas pode se beneficiar desta singela experiência bicentenária ao elucidar o importante papel das florestas e do reflorestamento na captura do gás carbônico. Se mantivéssemos uma cobertura vegetal adequada para a renovação do oxigênio, a sustentabilidade da vida seria muito beneficiada.

O problema está quando, rompendo este ciclo natural, passamos a retirar do subsolo, quantidades apreciáveis de petróleo, carvão e gás natural e o consumimos em nossas residências, na indústria e no transporte. Hoje,de petróleo, no mundo inteiro, são 100 milhões de barris por dia. Não há floresta que chegue para absorver todo o dióxido de carbono que resulta desta utilização, e pior, estes gases da combustão vão para a atmosfera onde criam uma camada que deixa a luz do sol entrar, mas não deixa o calor da Terra se dissipar. A Terra então vem se aquecendo sem parar o que está provocando mudanças climáticas (secas, inundações, alagamento de planícies costeiras, extinção de geleiras e de espécies de microorganismos e animais ,mais sensíveis), afetando a cadeia de sobrevivência da nossa espécie, a saúde dos oceanos e do ar que respiramos. .

Decididamente não queremos perecer como os ratos da experiência. Nem que as nossas florestas e biomas, como Amazonia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, continuem desaparecendo para proveito de uns madeireiros criminosos acobertados por parceiros aboletados em alguns ministérios, outra vez, coisa de ratos e não de homens.

Temos que usar nosso conhecimento científico para substituir a queima de combustíveis fósseis por alternativas que não aumentem a concentração de gases na atmosfera - energias limpas a exemplo da eólica ou solar - ou, caso sejam queimados, os gases sejam capturados, transformados quimicamente e o carbono enterrado o que ainda requer processos bem caros.

Não há outra maneira para se evitar o desastre climático. Lógico que isso tem um custo. Mas este custo é o da nossa sobrevivência e ele o que é? São despesas com equipamentos, matérias primas e outros insumos que resultarão em empregos e meios de vida para muita gente.

Essa é a nova economia, a economia verde também chamada de economia de baixo carbono para a qual o mundo está acordando neste ano de 2021. Em 2020 o consumo de petróleo se reduziu em 13%. Neste ano deve cair mais 5%. Isso provou que se pode viver com menos energia produzida de forma mais limpa. As maiores empresas de energia já estão investindo nisso, forçadas pela Justiça ou pelos seus acionistas,como é o caso da Shell, da Exxon, e da Chevron. Países produtores de petróleo como o Kuwait e a Arabia Sauditaanunciam grandes projetos de transformação da energia solar em hidrogênio e em eletricidade, formas limpas de utilização de energia.

Temos no Brasil abundância de condições para nos destacarmos neste novo cenário energético. Precisamos formar gente boa e valorizar a ciência, o que começa nas famílias e nas escolas e segue pelas empresas. E, é claro, recompor a competência e a meritocracia no âmbito do Governo que parece ignorar tudo isso. E vamos tirar os ratos do caminho.

 



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