- Mauro Peralta - médico e ex-vereador
O luto é um dos sentimentos mais profundos da experiência humana. Surge como um período de imensa tristeza após uma grande perda, geralmente a morte de alguém amado. Para Carl Jung, o luto não é apenas uma reação à perda, mas parte essencial do processo de transformação pessoal. É no sofrimento que encontramos a possibilidade de incorporar valores e significados deixados por quem partiu. Já Sigmund Freud o define como uma resposta natural à perda de um objeto de amor, exigindo um intenso trabalho psíquico. Não se trata de esquecer, mas de, aos poucos, realocar o afeto e permitir que a vida siga seu curso.
Mas, para além das definições acadêmicas, há o luto vivido, aquele que não cabe em teorias. Como ensinava Johann Wolfgang von Goethe, só conseguimos compreender verdadeiramente aquilo que experimentamos. Antes disso, tudo não passa de uma ideia distante, quase abstrata. A dor, quando chega, deixa de ser conceito e se torna presença.
À noite, para mim, é a parte mais triste do dia. Chego em casa, tiro os sapatos, coloco os chinelos na área de serviço, abro a porta, acendo a luz e não a encontro. Os minutos parecem horas e o silêncio dói nos ouvidos.
Quando vou dormir, abraço o travesseiro dela e choro como uma carpideira da Malásia. Sinto falta do entrelaçar das suas pernas, de abraçar suas costas, de apertar seu corpo contra o meu e depois beijar seus lábios. Não precisava dizer “eu te amo, Maria”, pois os batimentos acelerados do meu coração já diziam o necessário.
Não sei se a tristeza piora à noite pela queda do cortisol ou pela impossibilidade de ouvir sua voz dizendo “Maurinho, vem dormir”. Talvez seja um pouco de tudo. Talvez seja apenas a saudade. Sei, porém, onde busco amparo. Em Deus encontro compreensão e consolo. Como diz o salmo, o Senhor é meu pastor e nada me faltará.
Foram 51 anos de companheirismo, meiguice e amor. Um amor que não termina com a morte, mas permanece vivo na memória, nos gestos e em tudo aquilo que fomos. Muito obrigado.
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