O CERRE vai funcionar como um laboratório a céu aberto em Silva Jardim. Área de 130 hectares será restaurada e usada em pesquisas científicas. Espaço também é voltado à capacitação de estudantes, técnicos e trabalhadores rurais em metodologias de restauração
A Mata Atlântica do Rio de Janeiro acaba de ganhar o Centro de Referência em Restauração Ecológica (CERRE), um marco na história da proteção deste importante bioma. O espaço, em Silva Jardim, foi inaugurado na sexta-feira (17) pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) com a presença de representantes de órgãos ambientais municipais, estaduais e federais, além de pesquisadores, proprietários rurais e entidades parceiras.
O CERRE está localizado na Fazenda Perdida, que é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, chamada de RPPN Parque do Mico II. No local, 130 hectares de área serão restaurados com o apoio dos projetos Floresta Viva, GEF Áreas Privadas e investidores nacionais e internacionais. O processo de restauração poderá ser acompanhado pela comunidade acadêmica e proprietários rurais, já que o Centro será berço de novas pesquisas científicas, funcionando como um laboratório a céu aberto.
A iniciativa resulta ainda de uma ampla aliança com instituições de pesquisa, como universidades e o PELD Rede (Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração), viveiristas e simpatizantes do programa de conservação do mico-leão-dourado.
“O CERRE é um marco, e é importante deixar isso bem claro. É um centro de referência que reúne um histórico de pesquisa muito antigo - de 30 e 40 anos - da botânica, geologia, ecologia. Ele é um marco pois vai permitir que a gente faça estudos agora para olhar a longo prazo, em vários temas. E é referência construída, ela não foi dada, graças a esse histórico da Associação Mico-Leão-Dourado, da UFRRJ, UENF, PUC Rio, de várias universidades que fazem estudos aqui. Isso permitiu com que hoje nasça esse Centro, que como o nome diz, é uma referência, uma luz que vai iluminar novos estudos sobre o tema", ressalta Jerônimo Sansevero, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e coordenador do PELD Rede (Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração).
No local ocorrerá a capacitação de pesquisadores, estudantes, técnicos e trabalhadores rurais em metodologias de restauração e monitoramento da biodiversidade.
“Esse espaço será extremamente útil para nós da academia, principalmente para o treinamento e a formação dos nossos alunos e técnicos. Como o próprio nome já diz, é um centro de referência que vai proporcionar a oportunidade de observar as técnicas, o manejo e todo o processo que envolve uma restauração ecológica, além de disponibilizar para a comunidade acadêmica uma estrutura que contribui muito para o trabalho de campo: alojamento, apoio de laboratório e a área de plantio em si, que passa a funcionar como um laboratório de campo. Ou seja, teremos as áreas que a associação vem restaurando como possibilidade de estudo. Um processo de restauração envolve muitos recursos, portanto, ter acesso a essas áreas facilita bastante nossas pesquisas e permitirá que contribuamos com o conhecimento gerado. É uma via de mão dupla”, disse Marcelo Trindade Nascimento, chefe do Laboratório de Ciências Ambientais da UENF e curador do Herbário UENF.
A ideia é que o compartilhamento das experiências e aplicação dos conhecimentos adquiridos fortaleçam ainda mais a economia sustentável e o processo de restauração ecológica na Bacia do Rio São João, como explicou Carlos Alvarenga, engenheiro florestal da AMLD que coordena as atividades do CERRE.
“O objetivo do CERRE é disseminar experiências e ser um amplificador, com a ajuda de proprietários rurais, de práticas eficientes de restauração. O Centro quer treinar os estudantes, num laboratório a céu aberto. Haverá oficinas, workshops, simpósios, cursos, tudo para incentivar as melhores práticas com o solo e agroecológicas, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs). O Centro vai mostrar que a restauração pode gerar renda e fortalecer a cadeia produtiva da região”, disse.
Além de Carlos Alvarenga e Jerônimo Sansevero, participaram da roda de conversa ocorrida na inauguração do CERRE Felipe Drummond, coordenador de Restauração Ecológica na Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS/RJ); Flávio Valente, representante do Instituto Estadual do Ambiente (Inea); Gustavo Luna, representante do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); e Luiz Fernando Moraes, vice-presidente do conselho da AMLD e da Embrapa Agroecologia.
“O CERRE vem cumprir um papel essencial, diante do principal desafio, que é engajar as pessoas, principalmente os proprietários rurais, nesse esforço de restauração. Porque a restauração, no sentido de melhorar a oferta de serviços ecossistêmicos na paisagem rural, envolve uma mudança de paradigma, que é o proprietário rural compreender que é necessário usar o solo e a área de forma mais sustentável. Então, a restauração é esse convite para um engajamento maior, para que a construção de formas mais sustentáveis de uso do solo ocorra de forma coletiva, com a compreensão e com o interesse dos proprietários. É importante construir esse objetivo com eles”, lembrou Luiz Fernando Moraes.
A cerimônia foi conduzida por Luís Paulo Ferraz, secretário executivo da AMLD, que explicou sobre a aquisição da fazenda onde fica o CERRE e de que forma a restauração na área será estratégica para a conexão do habitat do mico-leão-dourado.
“É uma iniciativa da Associação Mico-Leão-Dourado que tem o apoio de diversos parceiros tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista técnico, para compartilhar o processo de restauração ecológica de uma fazenda, seja com os setores da academia, transformando este processo também em conhecimento, em ciência, seja com ecoturistas, escolas, visitantes que vêm conhecer o nosso trabalho para promover a restauração e compartilhar os desafios que ela nos traz. Nós queremos também incentivar outros proprietários rurais a fazerem o mesmo, compartilhando informações, técnicas e ideias que possam ajudá-los a fazer um melhor manejo de suas propriedades”, explicou Luís Paulo Ferraz.
Além de conferir exposição interna e ao ar livre com painéis informativos sobre a restauração ecológica, o público realizou o plantio de mudas nativas da Mata Atlântica e visitou a Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável, lançada durante o evento, em uma propriedade parceira. No local serão aplicadas técnicas para o melhor manejo da pastagem, visando o aumento da produção impulsionado por práticas integradas à proteção e recuperação dos recursos naturais.
Na ocasião, o zootecnista Alisson Rodrigues Jordão tirou dúvidas sobre o trabalho desenvolvido no local, falou dos desafios e dos resultados promissores.
“Um dos desafios da pecuária hoje, principalmente nessa relação que ela tem com a questão ambiental, é desmistificar alguns preconceitos, um deles é de que meio ambiente, pecuária e agronegócio estão em trincheiras opostas. Quando se pensa numa pecuária moderna, produtiva, eficiente e economicamente viável, é justamente o contrário desse conceito. Dá para produzir muito mais nas áreas que a gente já tem consolidadas sem necessidade alguma de supressão vegetal, mas com adoção das tecnologias e fazendo os investimentos certos. A gente entende que o produtor rural tem a necessidade de ver acontecer para ele poder acreditar e querer apostar. Então, a ideia dessa Unidade Demonstrativa, junto com outros parceiros, é trazê-lo e mostrar que é possível produzir bem, mais e com qualidade, conservando adequadamente todos os recursos naturais e fazendo o uso eficiente deles”, explicou Alisson Rodrigues, zootecnista e professor do IFF em Bom Jesus do Itabapoana.
O Centro de Referência em Restauração Ecológica da Mata Atlântica é hoje uma realidade graças ao apoio de financiadores no âmbito do Projeto Floresta Viva (SEAS, BNDES, Funbio e Aegea) e do Projeto GEF Áreas Privadas (IIS, UNEP, SBIO e MMA), além dos parceiros ExxonMobil, Irène M. Staehelin Foundation e Save the Golden Lion Tamarin.
“É um prazer muito grande dar esse pontapé inicial aqui no projeto de restauração, uma vez que a gente está conseguindo interiorizar o recurso da restauração florestal. E aqui é uma área extremamente estratégica. Estamos falando de uma área de proteção do mico-leão-dourado, e esperamos que a restauração com o dinheiro da parceria entre o BNDES, SEAS, Funbio e Aegea possa ser capaz de melhorar a qualidade ambiental da região, e que esse seja o primeiro de muitos passos para ampliar a situação de proteção da região”, contou Felipe Drummond, coordenador de Restauração Ecológica.
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