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Mobilidade social

- Ataualpa A. P. Filho

Foto: Pixabay
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Nos últimos dias, a expressão que mais ouvi foi esta: “mobilidade social”. Quem andou acompanhando as críticas feitas ao comentário efetuado por um apresentador de televisão de uma emissora de grande audiência no país sobre o “Programa Bolsa Família”, que consiste em um auxílio econômico dado pelo Governo Federal a famílias em situação de extrema pobreza com o propósito de garantir uma renda mínima e promover o acesso a direitos básicos como saúde, educação e assistência social, deve ter se deparado com essa discussão sobre a questão da ascensão social.

Não venho aqui criticá-lo, pois acredito que ele já ouviu o suficiente para entender a importância desse programa. Várias pessoas usaram as redes sociais para dar testemunho dos benefícios que receberam pelos programas governamentais e hoje encontram-se em uma situação mais confortável, ou seja, com o auxílio recebido tiveram a oportunidade de estabelecer uma mudança de vida.

A opinião que o apresentador externou sobre o “Programa Bolsa Família” é compartilhada por parcelas da sociedade, isto é, o que ele disse revela o pensamento de muitos que são contra esse programa. Portanto, não vi nenhuma novidade no que ele falou.

Existem os que pensam como ele, mas sem analisar dados concretos. Usam casos isolados, pontuais, para desqualificar o programa sem olhar os benefícios que são gerados. É preciso que se diga que, para participar do Bolsa Família é preciso que as crianças tenham frequência escolar, o cartão de vacinação em dia, além do acompanhamento pré-natal.

O Banco Mundial considera esse programa como uma das políticas sociais mais eficientes do mundo. E só consome 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).  Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado no ano passado na revista científica “The Lancet Public Health”, o Bolsa Família evitou 8,2 milhões de internações e 713 mil mortes entre 2004 e 2019. E constatou uma queda de 31% nas hospitalizações.

Para se ter uma noção de que não há uma acomodação generalizada das famílias que recebem esse auxílio do Governo Federal, basta observar que, em torno de 61% dos beneficiários de 2014 a 2025 deixaram o programa. Isso porque alçaram uma condição de vida melhor. Nem todos que recebem esse auxílio permanecem estagnados, desestimulados sem procurar alternativa que possa proporcional um melhor estágio social. Ninguém, em sã consciência, quer permanecer na miséria.

Dizem que veio lá da China o seguinte provérbio: “não dê o peixe, ensine a pescar.” Mas como aprender “a pescar” corroído pela fome e sem condições para o exercício da aprendizagem? Muitas famílias saíram da extrema pobreza via Bolsa Família. Por isso que as reações críticas contra as declarações do apresentador foram tão severas.

Sim, é preciso dar o peixe hoje a quem necessita. Capacitá-lo para que possa gerir o seu próprio sustendo, para não mais depender dos benefícios sociais. A criação de emprego, a qualificação da mão de obra são alguns fatores que favorecem a ascensão social. Mas é preciso que se diga que a mobilidade nem sempre é ascendente. Há também a descendente. Há um empobrecimento provocado por crises econômicas que resultam da perda do poder aquisitivo. Isso também tem se observado em nosso país. Os reflexos das falcatruas no sistema financeiro, e da busca do lucro, do ganho fácil, por meio do capital especulativo que não produz emprego, também contribuem para o aumento da pobreza.

E nesse contexto, tem vindo à tona, por meio de escândalos, a descendência moral de várias pessoas que se apresentavam como honestas, éticas e que chegaram ao topo da pirâmide econômica, mas com a moral na lama. O enriquecimento ilícito torna-se evidente pela ostentação de um patrimônio incompatível com os rendimentos declarados.

Esse empobrecimento moral tão evidenciado em gestões políticas da Nação é que tem levado o povo a ficar nessa dependência dos benefícios sociais. Com maior investimento em educação, na saúde, na criação de emprego, na qualificação da mão de obra, não seria tão necessário o Bolsa Família.

Inquestionavelmente o capital humano é o mais precioso. Por isso que a valorização dele se faz necessária para que haja mais autonomia e menos dependência das políticas assistencialistas que são usadas na manipulação de votos em período eleitoral. Os benefícios oferecidos a quem exerce um cargo político vão bem além do que uma mãe recebe pelo Bolsa Família.

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