Edição anterior (4269):
domingo, 17 de maio de 2026


Capa 4269

Modelos de cuidado com a saúde mental no país são questionados

Divulgação - médica psiquiatra Ana Caroline Santana
Divulgação - médica psiquiatra Ana Caroline Santana

Jaqueline Gomes

Nesta segunda-feira (18) é celebrado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, data que reforça o debate sobre saúde mental, direitos humanos e os modelos de cuidado no Brasil. O movimento questiona práticas de isolamento e defende abordagens mais humanizadas e integradas à comunidade. Especialistas destacam avanços e desafios na rede de atenção psicossocial, incluindo acesso, estrutura e continuidade do tratamento. Pacientes e familiares trazem relatos sobre inclusão, autonomia e estigma. O tema ganha relevância diante do aumento das demandas por cuidado em saúde mental.

De acordo com a médica psiquiatra Ana Caroline Santana, o movimento antimanicomial representou uma virada histórica na forma como o Brasil passou a pensar o sofrimento psíquico. “A Reforma Psiquiátrica brasileira, consolidada juridicamente pela Lei nº 10.216/2001, foi uma conquista real: redirecionou o modelo assistencial em saúde mental, deslocando o eixo do isolamento para o cuidado em liberdade, reconhecendo a pessoa com transtorno mental como sujeito de direitos e oferecendo base normativa para a construção de uma rede substitutiva ao hospital psiquiátrico”, comemora.

A especialista reforça que, “do ponto de vista de uma psiquiatria comprometida com direitos humanos, cuidado territorial e reabilitação psicossocial, essa mudança de paradigma é necessária e civilizatória. Nenhum modelo centrado no confinamento produz recuperação sustentável; historicamente, o que ele produziu foi cronificação, ruptura de vínculos, exclusão social e violação de dignidade”.

No entanto, apesar do avanço, a médica psiquiatra alerta para as dificuldades para o tratamento de pessoas com doenças mentais.

“Mas, é preciso avaliar essa evolução com honestidade: avançamos na legislação e na concepção de cuidado, mas a implementação segue profundamente desigual. Há regiões com CAPS bem estruturados, equipes comprometidas e articulação territorial; e há territórios especialmente nas periferias e no interior onde a rede é insuficiente ou praticamente inexistente. A psiquiatria precisa se posicionar não apenas como especialidade clínica, mas também como agente ético e político nesse debate, defendendo financiamento, formação, continuidade das políticas públicas e cuidado em liberdade com responsabilidade assistencial”, analisa Ana Caroline.

Entre os desafios para um tratamento digno, a psiquiatra enumera alguns:

“Os desafios são estruturais, e precisamos nomeá-los sem eufemismo. O primeiro é o subfinanciamento crônico: a saúde mental historicamente recebe uma fatia desproporcional do orçamento do SUS, o que se traduz em CAPS com equipes incompletas, alta rotatividade de profissionais e dificuldade de manter continuidade terapêutica. O segundo desafio é a fragmentação da rede: o cuidado em saúde mental exige articulação entre CAPS, UBS, SAMU, assistência social e habitação e essa articulação, na prática, é frequentemente precária. O terceiro é o estigma, que opera dentro e fora do sistema: pacientes que chegam à UPA em crise são frequentemente mal acolhidos, e famílias que buscam apoio encontram portas fechadas ou encaminhamentos circulares. Por fim, muitos profissionais da atenção básica ainda se sentem despreparados para o cuidado em saúde mental, o que sobrecarrega os serviços especializados e deixa casos graves sem identificação precoce”.

Para Ana Caroline, a resposta está na construção de uma rede que realmente sustente a vida fora do hospital. “Isso significa CAPS com capacidade clínica de fato, não apenas acolhimento, mas acompanhamento longitudinal, manejo de crise, suporte à família e articulação com outros serviços. Significa Residências Terapêuticas para quem perdeu os vínculos familiares após anos de internação. Significa Centros de Convivência, geração de renda, inclusão social, porque saúde mental não se constrói apenas com medicação e consulta. A internação psiquiátrica tem lugar na rede, mas deve ser curta, voluntária sempre que possível, e integrada a um projeto terapêutico que continue depois da alta. Quando a internação se torna recorrente para o mesmo paciente, isso é um sinal de que algo na rede de base está falhando, não de que o paciente é irrecuperável”, conclui a médica.

Em Petrópolis os atendimentos a pessoas com doenças mentais são feitos nos seguintes endereços:

Ambulatório Central de Saúde Mental
Rua Barão de Teffé, 63 - Centro
Horário de funcionamento: 2ª à 6ª feira 8h às 17h


Ambulatório de Saúde Mental de Itaipava
Rua Maria Joaquina Felix, 67 - Itaipava
Horário de funcionamento: 8h às 17h


CAPS AD III
Rua Monsenhor Bacelar, 492 - Centro
Horário de funcionamento: 8h às 21h


CAPS Adulto
Rua Montecaseros, 576 - Centro
Horário de funcionamento: 8h às 17h


CAPS Infantil
Marechal Floriano Peixoto, 418 - Centro
Horário de funcionamento: 8h às 17h

Edição anterior (4269):
domingo, 17 de maio de 2026


Capa 4269

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral