Edição: sábado, 12 de setembro de 2026

Muito além do Santos Dumont: como o LNCC coloca Petrópolis no mapa da ciência brasileira

Instalado na cidade desde 2015, supercomputador atende pesquisas de todo o país e integra um ecossistema que reúne formação, inovação, empresas e desenvolvimento tecnológico

Foto: Divulgação
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Roberto Jones - especial para o Diário

Petrópolis abriga uma estrutura científica que ultrapassa os limites do município e participa diretamente de pesquisas realizadas em diferentes regiões do Brasil. No Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), o Supercomputador Santos Dumont concentra uma capacidade de processamento que permite desenvolver estudos em áreas como meteorologia, saúde, inteligência artificial, engenharia, química, geociências e ciência dos materiais.

Mais do que uma máquina de grande porte, o equipamento faz parte de um ecossistema de pesquisa, formação profissional e inovação que, para Fábio Borges de Oliveira, diretor do LNCC, representa um ativo estratégico tanto para o país quanto para Petrópolis. “Esse equipamento coloca a cidade no mapa mundial da computação de alto desempenho e permite que pesquisadores brasileiros tenham acesso à capacidade computacional necessária para enfrentar problemas científicos e tecnológicos que não poderiam ser resolvidos, ou seriam resolvidos em uma escala de tempo insatisfatória, com recursos convencionais”, afirma.

Uma máquina que atende pesquisas de todo o Brasil

Instalado no LNCC em 2015, o Santos Dumont atua como nó central do Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (SINAPAD). Atualmente, sua capacidade instalada é da ordem de 20 petaflops por segundo, o equivalente a cerca de 20 quatrilhões de operações de ponto flutuante por segundo. “O Supercomputador é uma das principais infraestruturas operadas pelo LNCC, cuja atuação é mais ampla e envolve pesquisa científica, formação de recursos humanos, desenvolvimento tecnológico, inovação e cooperação nacional e internacional", conta.

Segundo Fábio, a diversidade de pesquisas é justamente uma das principais formas de compreender a dimensão da instituição. “Há projetos voltados ao desenvolvimento de modelos atmosféricos de alta resolução, que podem contribuir para uma melhor compreensão e previsão de fenômenos meteorológicos; pesquisas em aprendizagem de máquina aplicada às geociências; desenvolvimento de dispositivos fotônicos para detecção e identificação de materiais; além de estudos envolvendo simulações complexas em diferentes áreas das engenharias e das ciências naturais”, explica.

Ao longo da atuação do ecossistema científico do LNCC, a computação de alto desempenho também foi utilizada em pesquisas relacionadas à saúde, energia e petróleo, clima e meio ambiente, entre outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, recursos computacionais contribuíram para trabalhos relacionados ao mapeamento do genoma da Covid-19.

Ciência que também movimenta pessoas e negócios

A importância do LNCC para Petrópolis, segundo Fábio, não pode ser medida apenas pela quantidade de profissionais que trabalham diretamente na instituição. "Existe um efeito multiplicador associado à formação de pessoas, à produção de conhecimento, à criação de empresas e à atração de atividades de maior valor agregado”, afirma.

O laboratório atua na formação de profissionais especializados em áreas como modelagem computacional, matemática aplicada e computação científica. Esse conhecimento pode circular entre universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e setores estratégicos da economia.

O LNCC também mantém uma Incubadora de Empresas, voltada à transformação de conhecimento científico em produtos, serviços e processos e à aproximação entre pesquisa e mercado. "O desafio é fazer com que a excelência científica instalada na cidade gere cada vez mais conexões com o setor produtivo, criando um ciclo virtuoso de pesquisa, formação, inovação, empresas, empregos qualificados e desenvolvimento econômico”, defende.

Capital Estadual da Tecnologia

Essa estrutura também se relaciona ao reconhecimento de Petrópolis como Capital Estadual da Tecnologia, oficializado em março de 2025. Para o diretor do LNCC, o título representa mais do que uma homenagem: é uma oportunidade para posicionar a cidade dentro de uma economia cada vez mais baseada em conhecimento. “Petrópolis reúne elementos muito importantes para isso, como instituições de pesquisa, universidades, empresas de tecnologia, ambientes de inovação, formação profissional e uma infraestrutura científica singular”, afirma.

Nesse cenário, o LNCC e o Santos Dumont ajudam a diferenciar a cidade de outros municípios que também possuem empresas e iniciativas ligadas à tecnologia. “O município não possui apenas empresas de tecnologia, como possui também uma instituição nacional de pesquisa e uma infraestrutura de computação de alto desempenho que atende pesquisadores de todo o Brasil. Isso cria uma característica muito particular para Petrópolis, que é a possibilidade de aproximar ciência de fronteira, formação de talentos, inovação tecnológica e atividade empresarial em um mesmo território”, destaca Fábio.

Novo supercomputador amplia atuação do LNCC

Foi justamente a experiência acumulada em Petrópolis que colocou o LNCC no centro da implantação de uma nova infraestrutura nacional de computação de alto desempenho voltada à inteligência artificial. Anunciado pelo governo federal em 20 de agosto, o novo supercomputador será instalado no Rio Grande do Norte. A iniciativa integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e prevê uma máquina de grande escala voltada ao desenvolvimento de modelos avançados de IA.

A definição do local gerou questionamentos, principalmente diante da percepção de que a nova estrutura poderia representar uma perda para a cidade. O LNCC, porém, esclareceu que a instalação no Rio Grande do Norte não altera a sede da instituição, que permanece em Petrópolis, e que o novo equipamento não substituirá o Santos Dumont, que continua instalado e em operação na cidade.

Na avaliação de Fábio, a nova máquina deve ser compreendida como uma expansão, já que a experiência acumulada pelo LNCC em Petrópolis e, em particular, na operação do Santos Dumont, foi fundamental para que o Laboratório assumisse a condução técnica desse novo projeto nacional. A nova infraestrutura amplia, assim, a atuação do LNCC na área de computação de alto desempenho e fortalece sua participação na construção da capacidade nacional de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação em Inteligência Artificial.

Oportunidade para o futuro de Petrópolis

Para os próximos anos, Fábio vê justamente nessa estrutura já existente uma oportunidade para Petrópolis avançar ainda mais como polo de ciência, tecnologia e inovação. Uma das possibilidades é aproximar pesquisadores e empresas em projetos envolvendo inteligência artificial, ciência de dados, modelagem computacional, energia, clima, saúde e materiais avançados.

Outra frente é ampliar a formação de profissionais em computação de alto desempenho, programação e IA, conectando universidades, escolas técnicas, empresas e instituições de pesquisa. “A própria infraestrutura científica de grande porte, somada à competência de seus pesquisadores e técnicos e à presença de universidades e empresas de tecnologia, constitui um ativo para Petrópolis e para o país diante dos novos ciclos de investimento em IA e infraestrutura computacional”, afirma.

O Santos Dumont já conecta a cidade a pesquisas realizadas em todo o Brasil; o LNCC forma profissionais, desenvolve ciência e aproxima conhecimento do setor produtivo. Para os próximos anos, a oportunidade está em fazer com que essa vocação seja cada vez mais percebida e aproveitada dentro da própria cidade. "É importante pensar Petrópolis não apenas como uma cidade que abriga importantes infraestruturas e competências científicas, mas como uma cidade que se apropria positivamente dela, criando conexões entre o LNCC, o Santos Dumont, empresas, universidades, poder público e sociedade", finaliza.

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