Ataualpa A. P. Filho - professor
“...Tinha o prazer de ser feminina, ser feminina também me foi um dom.” Um “dom” ser feminina, uma dádiva concedida à criação pelo Criador. A vida concebida em ação de graça. Um “dom”, uma exclusividade por gestar as criaturas na essência feminina. O ventre que conduz a vida merece ser reverenciado...
Há uma urgência, uma necessidade premente que exige ações enérgicas em defesa das mulheres. Há uma impunidade, um descaso diante das agressões sofridas por elas. A covardia precisa ter fim.
A frase que inicia este texto foi tirada do livro “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector. E, no livro “Visão do Esplendor: impressões leves”, na crônica “Quase”, ela escreve:
“E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ter nascido homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa.” O “felizmente” pelo “dom” de gerar vidas, de ser leve, de entregar-se toda em amor eterno, ternamente. O encanto feminino é a luz dada. A vida lançada ao destino. A Natureza também tem as suas escolhas...
O viver em sociedade requer controle e responsabilidade sobre as nossas emoções. A passionalidade tem limite. O calculado, o premeditado, o estudado não estão no calor da paixão. O passional restringe-se à impulsividade do momento, contudo, não justifica nenhum ato de violência. O ódio não pode suplantar o amor, pois a justiça, a paz, a liberdade precisam prevalecer na convivência humana.
É inaceitável o descaso, a morosidade da justiça, o aumento da violência em relação às mulheres. A incidência dos crimes contra elas pode ser vista pelos números apresentados no Anuário de Segurança Pública de 2025, elaborado por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança (FBSP), que constatou, em 2024, um total de 1.492 mulheres assassinadas por sua condição de gênero. Segundo as pesquisas, 63,6% das vítimas eram negras; 70,5% tinham idade entre 18 e 44 anos; oito em cada dez foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. Em 18 estados do País, em que há registros dessas informações, cerca de 9% dos feminicídios foram seguidos de suicídio do autor.
Em 2025, os números aumentaram. Foram registrados 1.568 casos de feminicídios. O levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança mostra que apenas 13,1% das vítimas tinham medidas protetivas vigente no momento da morte. O feminicídio é crime hediondo, inaceitável, inconcebível em todos os sentidos.
A Lei Maria da Penha (Lei.340/2006), que neste ano completa vinte anos de existência, expõe as diversas formas de violência praticadas contra as mulheres: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A denúncia desses crimes é fundamental para respaldar as exigências de uma política fundamentada em medidas protetivas de urgência e com punições severas contra os agressores. Em síntese, não basta a existência da lei, é necessário a vigilância para que ela possa ser colocada em prática. O triste é constatar que o local mais perigoso para as mulheres é a própria residência, a chamada “violência doméstica” ainda é crescente.
No atual contexto, considero a sororidade primordial, não somente por uma questão de empoderamento, mas também por uma união de forças femininas motivadoras em denunciar os agressores. Nenhum animal age de forma tão perversa quanto os homens irracionalizados por um machismo criminoso. A impunidade desses crimes é fator agravante, pois age como elemento motivador.
As denúncias são importantes, rompem o medo. E assim, ganham adesão popular. O caso da jovem de 17 anos, que sofreu um estupro coletivo em Copacabana, ganhou visibilidade nacional e expôs uma morosidade tanto no âmbito jurídico, quanto policial. O crime ocorreu em 31 de janeiro deste ano e a decretação da prisão dos agressores se deu em 26 de fevereiro, após um grande apelo popular que exigia a punição dos indivíduos que praticaram tal crime. Inquestionavelmente, essa demora dificultou a obtenção de provas. E pela repercussão do caso, os envolvidos se apresentaram às delegacias; alguns já acompanhados de advogados.
Diante dessa denúncia, surgiram outras relacionadas à violência sexual praticada por jovens envolvidos no caso citado. Isso deixa claro que denunciar é preciso. É preciso vencer o medo. A cultura machista é milenar. A omissão não ajuda a vencê-la.
A credito na força da sororidade, porque nela, está presente o apoio mútuo em ações solidárias que podem brotar até mesmo pela dor compartilhada que se assimila pela empatia. A vida precisa de paz. Viver é um direito inalienável. Repito: o ventre que conduz a vida merece ser reverenciado. É um “dom” ser feminina.
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