- Ataualpa A. P. Filho
Para início de conversa, quero lhe dizer que a minha memória afetiva está armazenada nas nuvens da minha infância. Não se trata de saudosismo, pois está sempre presente. Não pulo fora dela, porque é meu porto seguro.
Fiquei triste, no domingo passado (05/07), com a derrota da Seleção Brasileira para a Seleção da Noruega com um futebol sem graça alguma. Porém, essa tristeza foi menos aguda do que a sofrida derrota contra a Alemanha, por 7 a 1, na Copa de 2014, em Minas Gerais. Seleção esta que foi eliminada nas oitavas de final neste ano.
Quando as tristezas vêm assim me tocaiando, mergulho nas minhas nuvens. Respiro fundo e penduro-me nas boas lembranças. As imagens que guardo da Seleção Brasileira de 1970, que atuou no México, tangeram-nas com facilidade. No gol, tínhamos o arqueiro Felix (Fluminense); na defesa, o capital Carlos Alberto Torres (Santos), Brito (Flamengo), Piazza (Cruzeiro) e Everaldo (Grêmio); no meio-campo, Clodoaldo (Santos), Gérson (São Paulo) e Rivellino (Corinthians). Na linha de frente, Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro) e Pelé (Santos). O técnico era o lendário Jorge Lobo Zagallo.
Todos os jogadores atuavam no Brasil. Ganhamos a copa com reverência mundial. Essa seleção é apontada como a melhor que já tivemos. E trouxe o tri, após seis vitórias em seis jogos. O povo, em glória, recepcionou-a, cantando os versos do hino composto por Miguel Gustavo:
“Todos juntos vamos/ Pra frente, Brasil/ Salve a Seleção!/ De repente é aquela corrente pra frente/ Parece que todo o Brasil deu a mão/ Todos ligados na mesma emoção/ Tudo é um só coração!...”
Os gols comemorados pelos atletas não tinham “dancinha”. O DNA dessa seleção era 100% brasileiro. Tendo-a como referência, fica difícil estabelecer comparações. Por isso, vou pular esse item...
Quem a viu jogando guarda consigo um padrão de qualidade difícil de ser alcançado, principalmente no que se refere a habilidade, competência e identidade nacional. Todo brasileiro amante de futebol daquela época sabia os nomes dos jogadores. Isso não se trata de nostalgia, mas de uma historicidade que nos faz cantar, de forma vibrante, os versos escritos, em 1949, pelo professor e compositor Nelson Biasoli: “sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”.
Aqui não há “spoiler”: em se tratando de futebol, o presente não aponta um futuro próximo com a excelência que se registrou em um passado longínquo. Não exponho uma conduta pessimista nem desesperançada. Vejo apenas um exigente posicionamento realista que requer os pés no chão com as marcas da humildade. O Brasil não é um produto de exportação. O Brasil é para os brasileiros.
A nossa soberania, a nossa identidade não podem ser comercializadas para atender ao mercado exterior. Os atletas formados nas categorias de base dos clubes nacionais são tratos como “produto tipo exportação”. Pelo talento que apresentam, logo são “vendidos” para atender ao mercado europeu. No “mercado da bola”, rolam altas cifras. Muitos atletas brasileiros não são conhecidos pelo nosso povo. Apesar do marketing ser muito forte sobre o nome de alguns jogadores, não há uma identidade com o público. Vale ressaltar que a fama não faz gol.
Sabemos que o jogo se pratica “dentro das quatro linhas”. Contudo, a vitória é construída bem antes: os treinamentos, a preparação física e mental, a garra, a determinação, a consciência da representatividade de uma nação também entram em campo. Não basta se mostrar confiante no potencial atlético para conquistar a vitória. O futebol é um esporte em que a noção da coletividade se faz necessária. Trata-se de um trabalho em equipe. Por isso o empenho de todos é fundamental.
Em uma constelação, há várias estrelas. O brilho de uma não ofusca as outras. Na seleção de 70, a grande estrela, inquestionavelmente, era o Pelé, considerado o atleta do século, porém quem fez gol em todos os jogos foi o Jairzinho, um ponta-direita. Único até hoje a marcar gol em todas as partidas disputadas em uma copa do mundo.
A consciência do talento que se possui deve ser fator motivador para a entrega de corpo e alma, principalmente quando se tem, nas arquibancadas, um povo que almeja momentos de felicidade. E, para isso, vibra, torce, chora. Quer se sentir vitorioso e representado por quem ama a sua pátria.
A década de 70 foi muito árdua para o nosso país. Vivemos momentos difíceis. Os jogos da seleção de 70 eram uma pausa para respirar um pouco de alegria. A liberdade atravessava um corredor estreito...
A copa de 2026 também será lembrada por um fato inédito: o presidente de um país que a sediou interferiu politicamente para que fosse anulado um cartão vermelho dado a um jogador da seleção da nação que preside. Esse ato revelou a conduta intervencionista dele. Vide as guerras em que ele está envolvido...
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