- Mario Donato D’Angelo
Quando a noite demora a começar dentro de mim, eu abro um disco antigo. A agulha encontra o sulco como quem reencontra um velho conhecido e, de repente, o quarto some, o prédio some, a cidade desaparece. Fico outra vez sentado numa mesa de canto, num clube qualquer entre o Village, em Nova Iorque, e o Soho, em Londres. Não importa o endereço: o CEP daquela noite era a música.
Lembro, ou invento, já não sei, a porta pesada de madeira, o letreiro tímido, quase apagado. Chovia lá fora. Ou era neve, derretendo na calçada. Por dentro, o mundo era âmbar: luz baixa, fumaça subindo, copos conversando entre si num tilintar de confidências.
Entro como quem pede licença a um sonho alheio. O garçom me reconhece com um aceno mínimo, como se me esperasse há anos. Não sei seu nome, mas ele sabe o meu drinque: algo amarronzado, ligeiramente doce, como se fosse possível engarrafar um fim de tarde.
No palco, o piano ainda está sozinho, procurando as notas no escuro. O pianista passa os dedos pelas teclas como quem testa a temperatura da água antes de mergulhar. A conversa nas mesas é um murmúrio contínuo, um mar brando sobre o qual a noite vai se deitar.
Do meu estúdio, escutando o vinil girar, percebo que não busco alegria nesses lugares. Procurava, porém, uma tristeza rara e confortável. Daquelas que não fazem barulho ao entrar. O blues é isso: uma dor que encontrou poltrona.
A banda entra aos poucos. Primeiro, o contrabaixo, sólido como uma coluna antiga, sustenta o teto. Depois, o baterista, com vassourinhas de aço, desenha círculos no ar. O trompete repousa numa cadeira vazia, aguardando o seu momento de ferir e curar.
Ela surge. Não sei se era Billie, uma desconhecida ou apenas a voz que eu precisava ouvir naquela noite. Um vestido simples e escuro, e um olhar que carrega a biografia inteira, mas se recusa a contar. Quando ela canta, não é uma canção que começa: é um armário que se abre no peito de cada um.
As baladas românticas quase nunca falam de amor; falam da ausência dele. Sinatra, Billie, Tony, tantos outros: todos especialistas em transformar despedidas em refrões. No clube, ninguém dança. A plateia ouve, bebe, fuma, respira no mesmo compasso. Ali, cada um está só, mas ninguém se sente sozinho. A solidão, naquela noite, é uma mesa posta para dois, onde o convidado é a saudade.
Vejo o pianista de perto. Há algo de McCoy Tyner na maneira como ele constrói acordes que erguem prédios invisíveis. Os dedos são finos e cansados: parecem já ter tocado todas as histórias possíveis. Ao lado do palco, o barman seca copos com um pano antigo. Ele não olha para a banda, mas conhece cada música pela reação das costas dos clientes.
Há uma mulher sozinha no balcão. Não é bela no sentido das revistas, mas tem um rosto que só poderia existir à meia-luz. Ela segura o copo com as duas mãos, como se beber fosse um gesto de oração. Em certos momentos, sorri para algo que a memória traz; em outros, fecha os olhos e a música aproveita para entrar.
Do futuro onde escrevo, percebo que aquela noite não aconteceu do jeito que estou contando. Mas é assim com todas as boas lembranças: metades de fato, metades de desejo.
O trompete finalmente se levanta. A primeira nota não é simplesmente ouvida: é suportada. Ela atravessa o salão, escorre pelas paredes, escava delicadamente o ouvido de cada um. Ninguém diz, mas todos sabem: aquela nota carrega um pedaço de algo que não deu certo na vida.
Toda balada é uma tentativa de consertar o que se quebrou sem barulho. O blues, por sua vez, é a aceitação da inexistência de conserto. Voltamos, sábado após sábado, a esses templos discretos para ouvir novamente o fracasso traduzido em beleza. É uma missa para quem não encontrou Deus, mas descobriu uma oração que só a música sabe oferecer.
Entre uma nota e outra, o tempo se dobra.
O eu que estava naquela mesa, jovem, casaco no encosto, esperança no olhar, esbarra no eu de hoje, que ajusta o volume do toca-discos para não acordar a casa.
O passado pergunta baixinho: “Deu certo?”
O futuro, com um gole lento, devolve: “Depende da música.”
Naquelas noites, eu ignorava, mas já ensaiava perdas que viriam depois. Cada canção era um treino para as despedidas que a vida exige. Por isso a gente se apegava tanto ao último acorde, àquele instante antes do aplauso, quando o som ainda flutua e o silêncio ainda não ousou entrar. É o segundo exato em que nada está resolvido e, por isso, tudo permanece possível.
O fim da noite chega como chegam todos os fins: com luz em excesso. De repente, alguém acende um pouco mais os refletores, o charme da penumbra se entrega, os rostos aparecem, as rugas se mostram, o brilho do suor denuncia o cansaço. A cantora agradece com um gesto breve; o trompetista guarda o instrumento na caixa; o pianista fecha o teclado como quem fecha um diário.
Fora, a cidade é outra. No Village, em Nova Iorque, ou nas ruas próximas ao Ronnie Scott, o vento carrega um resto de melodia que insiste em não morrer. As calçadas acolhem o eco do contrabaixo. A noite não termina na porta: vai conosco, obediente, até o quarto de hotel, o táxi, o metrô ou o apartamento onde, anos depois, um toca-discos velho repetirá a mesma faixa arranhada.
Nunca vivi literalmente aquela noite que conto agora. Mas ela existe com nitidez suficiente para ser verdadeira. E, no fim, é isso que o blues ensina: não importa se a história aconteceu, importa se insiste em ficar.
A música para. Deixo a agulha correr um pouco no silêncio, como quem se recusa a encerrar a visita. Mas, por alguns minutos, volto a ser aquele sujeito num canto de bar, anotando mentalmente que a vida, traduzida em melodia, faz quase sentido
Quase.
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