Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis
Um estudo internacional publicado na revista científica Nature Medicine apontou resultados promissores no tratamento do câncer de pâncreas, considerado um dos tumores mais letais da oncologia. A pesquisa revelou que o medicamento experimental elraglusib conseguiu aumentar a sobrevida de pacientes diagnosticados com a doença em estágio avançado.
O trabalho acompanhou 286 pacientes recém-diagnosticados com câncer pancreático metastático. Os participantes receberam quimioterapia convencional, sendo que parte deles também utilizou o elraglusib. Segundo os pesquisadores, metade dos pacientes que receberam a nova medicação permaneceu viva após 10,1 meses, enquanto no grupo tratado apenas com quimioterapia esse período foi de 7,2 meses.
Outro dado que chamou atenção foi o índice de sobrevivência após um ano do diagnóstico. Entre os pacientes tratados com a combinação do novo medicamento, 42% continuavam vivos, contra 22% daqueles submetidos somente à quimioterapia.
Desenvolvido em ambiente acadêmico, sem participação direta de grandes farmacêuticas, o elraglusib atua tornando o microambiente do tumor menos resistente ao tratamento. A proposta é facilitar a ação da quimioterapia e também do sistema imunológico contra as células cancerígenas.
Apesar do avanço, especialistas reforçam que ainda é cedo para considerar o medicamento uma mudança definitiva no tratamento da doença.
A médica oncologista da Unimed Petrópolis, Lívia Moura, destaca que os resultados iniciais geram expectativa positiva dentro da comunidade médica.
“Os resultados dos estudos são muito animadores. O câncer de pâncreas é um dos tumores mais agressivos e mais desafiadores que a gente tem na oncologia. Quando observamos ganho de sobrevida nesse cenário, isso realmente chama atenção e nos traz esperança”, afirmou.
A especialista, porém, pondera que o tratamento ainda precisa passar por novas etapas de validação.
“É muito cedo para considerar que exista uma mudança consolidada no tratamento do câncer de pâncreas. Ainda precisamos de estudos maiores e de um acompanhamento mais prolongado desses pacientes”, explicou.
Segundo a oncologista, embora o medicamento tenha ampliado a sobrevida, ele não conseguiu impedir a progressão da doença.
“O medicamento aumentou a sobrevida, mas não impediu a progressão tumoral. Isso sugere que ele pode funcionar melhor em combinação com outras estratégias, como imunoterapia ou terapias-alvo”, acrescentou.
Diagnóstico tardio ainda é principal desafio
Um dos maiores obstáculos no combate ao câncer de pâncreas continua sendo a dificuldade no diagnóstico precoce. A doença costuma evoluir de forma silenciosa, sem sintomas claros nas fases iniciais.
Lívia Moura explica que muitos sinais acabam sendo confundidos com problemas comuns do dia a dia.
“Nos estágios iniciais, muitos pacientes não apresentam sintomas ou têm manifestações muito vagas, como dor abdominal inespecífica, perda de peso, alteração intestinal ou dor nas costas. Muitas vezes, o paciente procura um ortopedista e acaba descobrindo uma lesão no pâncreas durante a investigação”, disse.
A médica ressalta ainda que, diferentemente de outros tipos de câncer, não existe atualmente um método de rastreamento populacional específico para detectar a doença precocemente.
Mesmo assim, novas tecnologias podem mudar esse cenário nos próximos anos.
“Hoje existem estudos envolvendo biomarcadores sanguíneos, biópsia líquida, inteligência artificial e testes genéticos. A medicina de precisão e a oncogenética têm avançado muito nesse contexto”, afirmou.
Acesso ao tratamento ainda pode demorar
Apesar dos resultados promissores, a chegada do medicamento ao Brasil ainda deve levar alguns anos. Isso porque o tratamento precisa passar por novas fases de testes clínicos e aprovação regulatória.
“Entre um resultado positivo em estudo clínico e o acesso real do paciente à medicação existe um caminho longo. O medicamento ainda precisa avançar em outras fases de pesquisa, ser aprovado internacionalmente, passar pela Anvisa e depois ser incorporado pelos sistemas de saúde”, explicou Lívia Moura.
Ela também destaca que o custo elevado pode representar outro desafio para o acesso da população ao tratamento.
“Essas terapias modernas geralmente possuem um custo muito alto, principalmente em tumores complexos como o câncer de pâncreas”, comentou.
Mesmo assim, a oncologista afirma que cidades do interior já começam a acompanhar os avanços observados em grandes centros médicos.
“Hoje, em Petrópolis, nós já conseguimos oferecer tratamentos modernos, testes genéticos e acompanhamento multidisciplinar, sem que o paciente precise necessariamente sair da cidade em busca desse suporte”, concluiu.
Com informações da revista Nature Medicine e do portal Live Science.
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