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O Antônio na roda

- Ataualpa A. P. Filho - professor

Foto: Pixabay
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Humildade, solo fértil em que brotam gentileza e gratidão. Literatura, chão que faz voar pelas asas das palavras. O ouvido da alma escuta o silêncio que atravessa o tempo. O dito e o lido sobre a lida, quando retratam a vida, revelam a cultura de um povo que conhece as dores dos calos. Mas não se mantém calado. Há sempre uma voz que ecoa os ais do suor de quem luta pela sobrevivência. A Arte ainda é o ar que se respira para conter a desesperança. Nesta travessia, estamos de mãos dadas...

É preciso lapidar o viver com arte para torná-lo mais leve. Deixar a flor à pele para ter a sensibilidade de pétala. Apurar os sentidos, purificar a alma, despindo-a dos preconceitos. Abrir o peito para alcançar a luz que aquece o coração e expurga o ódio. Amar a liberdade pelo princípio do respeito ao próximo.

Neste início de prosa, é preciso que se diga que é impossível passar por este mundo sem conhecer a dor e a tristeza, pois são inerentes à natureza humana. À medida que ampliamos a nossa sensibilidade, ficamos mais expostos a elas. Mas isso não nos impede de continuar lutando pela igualdade de direitos, pela partilha do pão, pela união dos povos, pela liberdade de sonhar por um mundo melhor.

A Literatura, que nos permite ver o mundo pelo avesso das ações nocivas dos homens, abre a janela deste trem que transporta as nossas lembranças. Há uma maria-fumaça que apita desadormecidamente para descarrilhar as tristezas. E aqui, no meu peito, sempre ouço: Piauí... Piauí...Piauí...

Acordar os dormentes, as mentes adormecidas, é uma das funções da lo(u)comotiva propulsada pela Arte.

O vento que soprou as lembranças na tarde do dia 18/03, na Casa de Cláudio de Souza, localizada na Praça da Liberdade, em Petrópolis, veio com a memória do menino que queria ser Castro Alves, nascido no povoado chamado Junco, hoje Sátiro Dias, no sertão da Bahia. O escritor Antônio Torres esteve, na mencionada tarde, na “Roda de Leitura”, coordenada pela educadora Maria Francisca de Pinho Valle, Membro Titular da Academia Petropolitana de Educação. Esse encontro estava programado para o dia 17/12/2025, mas devido às fortes chuvas que caíram em Petrópolis, foi adiado.

No ano que passou, os encontros da Roda foram pautados nas obras desse ilustre escritor que ocupa a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras (ABL), que um dia foi de Machado de Assis. Ele também ocupa a Cadeira 01da Academia Petropolitana de Letras (APL). Os livros que conduziram os debates foram:

“Meu Querido Canibal”, considerado um romance histórico-ficcional, publicado em 2000. A narrativa da obra é água de nascente, corre entre pedras, desliza no mansinho, não deixa criar limo. Boa de beber, límpida, gostosa, nutritiva. Até a alma bebe junto. O Cunhambebe é o “herói da nossa gente”, líder indígena da Confederação dos Tamoios nos idos do século XVI. E assim foi descrito por Antônio Torres:

“Não o imagine apenas um edênico bom selvagem e nu, ainda por cima, sem nada a lhe cobrir as vergonhas etc. , senhor das selvas e das águas, da caça e da pesca, a viver na era da pedra lascada, em paz com os homens e a natureza, um ser contemplativo debaixo de milhões de estrelas, e a mirar o céu para adivinhar sinais de tempestade. Era um guerreiro”.

O “canibal” torna-se “querido” pela resistência, pela identidade humana que precisa ser preservada em seu estado nativo.

O outro livro que nutriu as reflexões das leituras da Roda foi “Sobre Pessoas”, publicado em 2007, que reúne crônicas com linguagem melodicamente calculada. As palavras são ritmadas como notas musicais.  Fato este que nos faz reafirmar que é preciso apurar e depurar a escuta. E assim, ouvir o que o silêncio traz de vivência...

Nem a inspiração, nem a transpiração são frutos do acaso. Precisam ser provocadas. Por isso, o escrever exige coragem para mergulhar nas palavras e traduzir a vida, além de tentar sobreviver por esse ofício.

É uma delícia ouvir lembranças...

Quando a professora Francisca Valle relatou o trabalho realizado ao longo do ano de 2025 sobre os livros citados e passou a palavra ao autor, ouviu dele, em um gesto de agradecimento, a seguinte frase: “muito Deus lhe pague”. E com o braço estendido para o alto, deu um “viva Cunhambebe!”. A gratidão se manifestou reciprocamente.

O “momento, em carne e osso,” quando respira o inesquecível, emana felicidade. Ficaram o “bis” e o “quero mais” pelos 50 anos do livro “Essa Terra”, que ele lançou em 1976. Plantou-se o desejo de um futuro encontro para falar do sertão dessa obra que se espalha pelo mundo em diversas línguas. Há homens paridos pela Terra, que a respeitam como mãe. Estes conhecem o Verbo que se faz carne...

Caríssimo Antônio, foi Castro Alves quem disse: “Oh! Bendito o que semeia/ Livros... livros à mão cheia.../ E manda o povo pensar!/ O livro, caindo n'alma/ É germe que faz a palma,/ É chuva que faz o mar!”. Você é um deles, os seus livros fazem “o povo pensar”...

“Muito Deus lhe pague”! E “viva Cunhambebe!”...

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