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O Brasil não é um país sério

- Mauro Peralta - médico e ex-vereador

Foto: Reprodução
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A famosa frase “O Brasil não é um país sério”, atribuída de forma equivocada ao general Charles de Gaulle, nunca foi tão atual. O que antes soava como uma crítica diplomática hoje se impõe como um diagnóstico evidente. A expressão remonta ao contexto da Guerra da Lagosta, entre 1961 e 1963, quando embarcações francesas foram apreendidas pela Marinha brasileira ao explorar a costa de Pernambuco. Naquele momento, o Brasil ainda demonstrava alguma capacidade de reação. Hoje, parece ter perdido até isso.

Vivemos uma inversão completa de valores. O Supremo Tribunal Federal, que deveria zelar pela Constituição, decidiu por 8 votos a 2 impedir a prorrogação da CPI do INSS, instrumento essencial para investigar possíveis fraudes contra aposentados. A justificativa foi o vazamento de informações. Trata-se de um argumento frágil e conveniente. O problema não está na divulgação, mas naquilo que está sendo revelado. A mensagem transmitida é clara e preocupante: investigar incomoda mais do que o próprio escândalo.

Enquanto isso, questionamentos graves envolvendo figuras centrais do poder seguem sem resposta. O ministro Alexandre de Moraes permanece em silêncio sobre episódios amplamente divulgados, como a mensagem enviada por Vorcaro no dia de sua prisão e os 129 milhões de reais recebidos por sua esposa. Situações semelhantes cercam o ministro Dias Toffoli, envolvendo o resort de sua família no Paraná. No Brasil de hoje, indícios frágeis ganham status de prova quando convém, enquanto fatos concretos são ignorados quando se tornam incômodos.

No Rio de Janeiro, o cenário político alcança níveis constrangedores. O deputado Douglas Ruas ocupou a presidência da Alerj por apenas duas horas. O episódio não é apenas curioso, é sintomático. Revela um sistema instável, onde decisões são atropeladas e a legalidade se torna um detalhe secundário. Tudo isso em meio ao imbróglio envolvendo Rodrigo Bacellar, com votos anulados e a possibilidade de convocação de um suplente de outro partido.

No plano federal, a desconexão com a realidade chega ao absurdo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribui o endividamento das famílias brasileiras ao número de animais de estimação e sugere que o Brasil deveria se espelhar na China. A declaração não apenas simplifica um problema complexo, como desrespeita milhões de brasileiros sufocados por impostos elevados, inflação persistente e perda contínua do poder de compra.

Em Petrópolis, a lógica é a mesma. A gestão do prefeito Hingo Hammes ignora a gravidade da situação. Falta pagamento ao aterro sanitário, faltam insumos básicos, sobram buracos nas ruas e, ainda assim, tenta-se sustentar uma aparência artificial de normalidade. A realidade é de descontrole.

O cenário nacional se deteriora rapidamente. Escândalos financeiros se acumulam, instituições são colocadas sob suspeita, aposentados são prejudicados e a carga tributária continua pesando justamente sobre os mais pobres. A sensação de impunidade cresce a cada dia. A segurança pública se deteriora e o crime passa a ser relativizado. Criminosos são tratados como vítimas, enquanto o cidadão comum é empurrado para a posição de culpado.

O Brasil não apenas deixou de ser um país sério. O Brasil passou a normalizar o absurdo. E quando o absurdo se torna regra, a verdade vira exceção e a justiça deixa de ser um princípio para se tornar um incômodo.

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