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O dicionário de Mariceia

- Mário Donato D’Angelo

Foto: Divulgação
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Durante alguns anos, trabalhou em nossa casa uma senhora chamada Mariceia. Era baiana, morava em Caxias, tinha vários filhos, frequentava a umbanda e conhecia uma quantidade impressionante de regras que governavam o mundo. Havia alimentos que não podiam ser misturados, objetos que jamais deveriam ocupar o mesmo lugar e certas coisas que, feitas fora da ordem, provocavam consequências que a medicina ainda não havia descoberto. Mariceia sabia dessas coisas.

Era uma mulher falante, divertida e dona de uma lógica muito própria. Falava português, mas não permitia que o idioma interferisse demais no que desejava dizer. Tinha uma palavra para cada coisa, embora nem sempre fosse a mesma escolhida pelo restante da humanidade. Não parecia errar. Apenas recorria a um dicionário particular, ao qual somente ela tinha acesso.

Certa manhã, apareceu diante de mim com a mão pousada sobre a barriga. “Dotô, eu tô com uma dô no estombro terrível. Que que eu faço?” Recomendei um antiácido, mas ela recusou imediatamente. “Não, sinhô. Antiácido eu não posso tomá” Perguntei por quê. “Porque me dá uma adolescência que eu num consigo nem trabaiá.” De todo modo, a palavra de Mariceia era muito melhor. Sonolência apenas dá sono. Adolescência realmente impede uma pessoa de trabalhar.

Em outra ocasião, entrou na sala trazendo um envelope. “Chegou essa carta pro dotô.” Perguntei quem havia entregado. “Foi o sínico.” Tentei confirmar se ela se referia ao síndico. Mariceia respondeu com absoluta segurança: “Foi sim, o sínico.” Conhecia aquele homem melhor do que todos nós.

Na cozinha, seu vocabulário se tornava ainda mais cuidadoso. Quando havia mais trabalho, fazia questão de me advertir: “Agora, se tiver muita coisa pra i pru fugão, as coisa pode complicá. Tô falando isso por desencargo de conveniência.” Logo depois, para não me deixar preocupado, garantia: “Mas as coisa aqui é muito mais rápida de ser usada, porque eu deixo tudo engatinhado.” A imagem era perfeita: panelas, pratos e talheres engatinhando pela cozinha, cada um tentando chegar ao seu lugar.

Foi ao telefone, porém, que Mariceia produziu sua obra-prima. Naquele tempo ainda havia telefone fixo, e ligar para casa significava não saber quem atenderia. Um dia telefonei. Ela levantou o aparelho e disse: “Alô?” Respondi apenas: “Alô.” Imediatamente anunciou: “Dotô Mário!” Fiquei surpreso e perguntei como sabia que era eu, se eu havia pronunciado apenas uma palavra. Do outro lado da linha, Mariceia riu com gosto: “Ah, dotô, a gente sabe logo de vez. A voz do dotô é irreconhecível.”

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