- Mario Donato D’Angelo
“A única verdade é a torcida.”
Nelson Rodrigues
Nos anos 80, o futebol ainda guardava algo que hoje não existe mais: mistério. O domingo era um território onde a ansiedade caminhava de mãos dadas com a esperança. A grande inovação tecnológica era chamada de videotape: às 22h30, a Globo exibia o jogo completo como se fosse ao vivo. Resultado em silêncio até lá. Nenhum vizinho estragava a surpresa. Era possível rever o drama inteiro sem saber o desfecho. Uma fantasia coletiva
Justamente num domingo de Fla-Flu, final de campeonato, daqueles que deixam o Maracanã com o coração na boca, foi quando, o advogado Dr. Virgílio, rubro-negro de devoção hereditária, descobriu que não poderia ir ao estádio. Uma tragédia esportiva!
Mas quem pensa como advogado nunca aceita a primeira derrota. Ele arquitetou um plano digno de fuga internacional: subtrair-se do mundo até a noite para assistir ao jogo como se estivesse nas arquibancadas, preservando a ilusão.
Dr. Virgílio morava no Leme. Pegou o carro com a esposa e os dois filhos e fugiu para o fim do Recreio dos Bandeirantes. Naquela época, a civilização acabava ali. Depois: dunas, areia, vento. Sem radinho, sem grito de gol, sem bêbado narrador. Um deserto estratégico.
Instalaram-se com sanduíches, refrigerantes e um guarda-sol que mais parecia uma bandeira branca erguida. O Dr. Virgílio consultava o relógio como quem acompanha o cardiograma. Quando o sol começou a cair, sabia: o jogo já tinha acabado.
Horas depois, quando a noite chegou com cheiro de maresia e silêncio, ele decretou o retorno: missão em duas etapas, evitar a informação e chegar inteiro até 22h30.
No carro, ordem expressa:
Vidros fechados. Não olha para as ruas. Evita reparar nas bandeiras. Ignora o mundo.
E assim seguiram: por ruas que nem Deus conhecia, fugindo das avenidas óbvias, escapando de Copacabana, desviando de qualquer aglomeração suspeita. Uma rota de guerra, sem rojões, sem comemorações. Santos Dumont não fez tantos desvios para pousar. Dr. Virgílio desviava até dos ruídos. O tremor de uma corneta distante era tratado como uma calamidade pública.
E a cidade lá, ao longe, vibrando, enquanto ele evitava os caminhos, como se estivesse montando um rol de testemunhas.
Quando enfim chegaram ao prédio, faltava meia hora para o videotape. A família respirou como sobreviventes. A operação fora impecável. Nada estragou o plano: a vitória do silêncio!
Até que, na garagem, o destino se revelou simplesmente: um homem com um radinho de pilha colado ao ouvido.
O porteiro Antônio.
O Dr. Virgílio sentiu o coração querendo fugir pela boca. Aproximou-se com o último fio de esperança, a voz suplicando ao universo:
Antônio, eu não quero saber quem ganhou nem quantos gols houve na partida!
O porteiro tirou o fone do ouvido com uma calma quase cruel e disse:
Fique tranquilo, Dr. Virgílio. Não se preocupe.
Dr. Virgílio, aliviado e apressado para ver o jogo, respondeu:
Obrigado, Antônio.
E, dando as costas para o porteiro, já caminhando apressado em direção ao elevador, foi quando ouviu
Ato contínuo:
Ninguém ganhou, doutor. Não houve gols...
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