Por Marcelo J. Fernandes*
A história de Petrópolis não pode ser compreendida sem considerar o papel fundamental exercido pela imprensa escrita na formação de sua vida social, política e cultural. Desde a segunda metade do século XIX período subsequente à vinda da Corte portuguesa, em 1808, que assinala o advento da imprensa no Brasil - os jornais que circularam na cidade ultrapassaram a função de simples veículos de informação: constituíram espaços de debate público, defesa de interesses locais, disputa política, difusão cultural e, sobretudo, preservação da memória de uma comunidade que se desenvolveu em estreita relação com acontecimentos decisivos da história brasileira.
A imprensa petropolitana consolidou-se nesse cenário de efervescência econômica, social e cultural. O surgimento de O Mercantil, em 1857, representou um marco fundamental desse processo. Durante quase quatro décadas, o periódico participou ativamente da vida da cidade e contribuindo para a propagação das letras. Sua importância foi reconhecida pela própria Gazeta de Petrópolis, que, ao sucedê-lo em 1892, destacou seu papel na defesa dos interesses da população e na difusão da cultura. A tipografia que servia o jornal também fomentava a publicação de livros, folhetos, ensaios e obras literárias, demonstrando que a imprensa funcionava como essencial veículo de circulação do conhecimento e de construção da memória local.
As trajetórias de O Mercantil e da Gazeta de Petrópolis evidenciam, igualmente, um traço marcante da imprensa oitocentista: sua íntima relação com a política. Os jornais não eram necessariamente observadores neutros dos fatos; muitas vezes assumiam posições explícitas e funcionavam como instrumentos de grupos e projetos políticos. A imprensa tomava parte, assim, da formação da opinião pública e das disputas pelo poder. Em Petrópolis, essa dimensão se tornou particularmente significativa durante a transição do Império para a República e, posteriormente, nas discussões relacionadas à transferência da capital do Estado do Rio de Janeiro, que aqueceram as tribunas em inflamados e polêmicos discursos.
Nesse contexto, o surgimento da Tribuna de Petrópolis, em 1902, representa outro momento decisivo. Criada em uma conjuntura de tensão provocada pela iminente perda da condição de capital estadual, a Tribuna tornou-se porta-voz de setores interessados na preservação do prestígio político e social de Petrópolis. O jornal, dirigido por Arthur Barbosa, articulou informação, opinião e reivindicação política, procurando reconstruir simbolicamente a identidade da cidade e defender seus interesses diante das transformações ocorridas no Estado. Em 1908, tornou-se o primeiro jornal diário local, consolidando a importância da imprensa na vida cotidiana dos petropolitanos.
A experiência da Tribuna demonstra que o jornal local pode exercer uma função que ultrapassa a notícia imediata: ele participa da elaboração da própria imagem que uma cidade constrói de si. Ao recuperar a memória do período imperial, valorizar o patrimônio e discutir o lugar de Petrópolis no cenário fluminense, a imprensa contribuiu para a constituição e a posterior fixação de uma identidade petropolitana. Mesmo quando marcada por posições políticas particulares, sua atuação revela a força do jornal como espaço de representação dos conflitos, aspirações e valores de determinados grupos sociais.
Essa dimensão histórica permanece presente na trajetória do Correio Petropolitano, cuja abordagem sobre a própria história da imprensa local recupera personagens fundamentais, entre eles Arthur Alves Barbosa, considerado pioneiro do jornalismo diário em Petrópolis. Sua trajetória evidencia a íntima conexão existente entre jornalismo, vida intelectual e participação política. Em uma cidade cuja formação esteve associada a elites políticas, atividades comerciais, industriais e culturais, o jornalista frequentemente ocupava também espaços de atuação pública. Desse modo, a imprensa constituía, talvez, a principal arena onde se discutiam os rumos do município.
O Diário de Petrópolis, por sua vez, representa uma das manifestações mais expressivas da permanência dessa tradição. Embora tenha passado por diferentes fases desde o início do século XX, o periódico consolidou-se como importante veículo de informação e de defesa dos interesses municipais. Seu percurso demonstra a capacidade de adaptação da imprensa local às transformações históricas, econômicas e tecnológicas. Ao lado da edição digital, a persistente manutenção da versão impressa revela que o jornal continua sendo compreendido como um objeto cultural e já incorporado como parte da própria história da cidade.
Essa permanência é especialmente relevante porque o jornal impresso constitui uma espécie de arquivo cotidiano da sociedade. Notícias, editoriais, anúncios, fotografias, debates e relatos de acontecimentos registram não apenas os grandes fatos políticos, mas também os hábitos, as preocupações, as aspirações e as transformações da população. Os jornais tornam-se, portanto, fontes indispensáveis para pesquisadores da história de Petrópolis. Aquilo que, no momento de sua publicação, parecia apenas uma notícia circunstancial pode adquirir, décadas depois, extraordinário valor documental.
A relevância da imprensa escrita petropolitana, entretanto, não se limita ao passado. Em uma época marcada pela celeridade das mídias digitais e pela multiplicação das redes sociais, o jornal local conserva uma função específica: acompanhar os acontecimentos do município a partir de uma perspectiva próxima da comunidade. Questões relacionadas ao patrimônio histórico, ao desenvolvimento urbano, à cultura, ao turismo, à política municipal e à preservação da memória encontram na imprensa local um espaço privilegiado de discussão. Assim, nesse sentido, a história dos jornais de Petrópolis revela uma continuidade fundamental. De O Mercantil e da Gazeta de Petrópolis à Tribuna de Petrópolis, ao Correio Petropolitano e ao Diário de Petrópolis, a imprensa escrita é partícipe da construção da cidade tanto como testemunha quanto como agente histórico. Seus jornais registram Petrópolis, mas também ajudam a produzir as representações pelas quais os próprios petropolitanos reconhecem sua cidade.
Por fim, preservar a imprensa escrita significa custodiar uma parcela essencial da memória municipal. Os jornais constituem testemunhos de diferentes épocas e, simultaneamente, instrumentos de cidadania, debate público, identidade e cultura. Em Petrópolis, onde a memória histórica possui importância singular ainda a olhos vistos, nas ruas, a imprensa escrita permanece como uma das principais instituições responsáveis por manter vivo o diálogo entre passado e presente. Mais que veículo destinado à difusão, o diário petropolitano configura um formidável patrimônio documental que permite compreender como a cidade se transformou, como seus habitantes pensaram seu próprio tempo e como, ao longo de mais de um século, erigiu-se o caráter de nossa Cidade Imperial, documentado e impresso em papel, físico e palpável, destinado e disponível à eternidade.
* presidente da Academia Petropolitana de Letras, pós-doutor (UFMG), professor das redes municipal e estadual, professor da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.
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