- Mario Donato D’Angelo
Comecemos com a origem, como quem afia o pensamento antes de usá-lo.
A expressão “separar o joio do trigo” nasce de uma parábola do Evangelho de Mateus, atribuída a Jesus Cristo. Um homem semeia trigo em seu campo. À noite, um inimigo espalha joio entre as plantas. Quando brotam, os servos percebem a mistura e se oferecem para arrancar o joio. O dono recusa. Não por indulgência, mas por lucidez: enquanto crescem, são quase indistinguíveis; ao tentar purificar o campo cedo demais, arrisca-se perder o próprio trigo. A separação deve esperar o tempo. Só a maturidade revela o que cada coisa é.
Essa pequena história guarda uma verdade discreta e exigente: nem tudo o que parece é, e nem tudo o que é se deixa ver.
O tempo, porém, não é apenas um revelador. É também um artesão do olhar.
Separar o joio do trigo, fora do campo, nunca é um gesto agrícola. É um gesto interior, lento, às vezes desconfortável, sempre incompleto.
O homem contemporâneo aprecia a ideia de separar. Ele a exerce com convicção: classifica opiniões, reduz pessoas a traços dominantes, organiza experiências como quem arruma uma estante. Há um alívio na ordem, uma sensação de domínio. Como se nomear fosse compreender.
Mas a parábola insinua outra coisa. O risco não está em não separar. Está em separar antes de compreender.
Porque há verdades que só amadurecem no escuro.
Uma ideia nascente pode parecer joio, apenas porque ainda não encontrou sua forma. Uma convicção muito firme pode, com o tempo, revelar-se estéril. O erro, quando observado com paciência, às vezes contém a semente de uma compreensão mais profunda do que o acerto apressado.
Há, nisso, uma inversão sutil: não é apenas o campo que precisa de tempo para se revelar; é o observador que precisa de tempo para aprender a ver.
E, no entanto, a pressa tornou-se uma forma de inteligência. Decide-se rápido, conclui-se antes, elimina-se o que não se encaixa. O mundo é submetido a um processo contínuo de triagem, como se a vida fosse um fluxo de coisas descartáveis.
Separar o joio do trigo virou um gesto automático. Quase uma defesa contra a complexidade.
Mas o real resiste.
Há uma forma de pensamento que nasce da demora. Da suspensão do juízo. Do consentimento em não saber. Não se trata de indecisão, mas de maturação. Como o campo que precisa atravessar estações até que sua verdade se torne visível.
O agricultor da parábola compreendia isso sem linguagem técnica, sem teoria, sem pressa. Sabia que a verdade não se impõe de imediato; ela se deixa entrever, pouco a pouco, à medida que o tempo depura as semelhanças enganosas.
Talvez por isso ele não tenha temido a mistura.
Há algo profundamente humano no campo ainda não separado. Nele convivem o acerto e o equívoco, o essencial e o supérfluo, o que alimenta e o que apenas ocupa. É um espaço de tensão, mas também de possibilidade. Um lugar onde o olhar ainda está em formação.
Exigir pureza precoce é empobrecer o processo. Porque aquilo que ainda não foi distinguido guarda, em si, a potência de se tornar outra coisa.
No fim, a separação virá. A vida, como toda colheita, exige escolhas. Mas o valor dessas escolhas não está apenas na precisão do gesto final. Está, sobretudo, na qualidade da espera.
Há quem atravesse o mundo com respostas rápidas e campos impecavelmente limpos. E há quem aceite, por mais tempo, a companhia incômoda do que ainda não se definiu.
Entre uns e outros, a diferença não é de acerto.
É de profundidade.
E talvez seja essa a última e mais silenciosa lição da parábola: não é o trigo que nos alimenta primeiro, é o tempo que nos ensina a reconhecê-lo.
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